A festa nos estádios não vale as lágrimas nas favelas

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Tati Alvarenga

Foto: Tati Alvarenga
Foto: Tati Alvarenga

Não é só uma frase impactante. É a realidade de muitos moradores de favelas do Rio de Janeiro que, com a chegada da Copa do Mundo sofreram abusos por parte das autoridades com as remoções, violações dos direitos humanos e morte de inocentes. Nesta segunda feira (23) moradores de favelas, ativistas, integrantes de movimentos sociais, mídia alternativa, imprensa tradicional nacional e internacional subiram o morro do Chapéu Mangueira no Leme em direção a Associação dos moradores para testemunhar esta manifestação do povo, em planejamento há dois anos. O objetivo foi caminhar do Chapéu Mangueira até a subida do Morro do Pavão Pavãozinho e Catangalo.

O encontro começou as 11:00 da manhã onde foram realizadas atividades como: grafite livre, oficina de cartazes, capoeira, rap, panfletagem, lembrança dos mortos e desaparecidos em ações policiais (a morte de inocentes, isto foi simbolizado por um pequeno caixão confeccionado pelos ativistas e por desenhos de corpos no asfalto) e falas dos familiares das vítimas. “Estamos aqui contra toda violência que os moradores e a comunidades estão vivendo por causa da Copa” desabafa Arlete Loduvice Presidente da Associação dos moradores.

Na Copa do Mundo, especificamente em dia de jogo do Brasil contra a seleção de Camarões foi o dia escolhido para o morro descer em protesto. Chamando atenção de todos que sorriem nos estádios, que festejam nos barzinhos, sobre uma verdade oculta para a sociedade: os abusos sofridos pelos favelados, os gastos e investimentos com dinheiro público para realização dos Mega Eventos provocando “mega” roubos e “mega” injustiças.

Ao descer para o asfalto no posto 3, moradores e ativistas se uniram a outros manifestantes que promoveram o ato FIFA Go Home organizado pela Frente Independente Popular (FIP), que faz severa crítica a forma autoritária que a organizadora do mundial, impôs suas regras no país, as remoções, o aumento da passagem e gastos com o dinheiro público. Juntos tomaram parte da Avenida Atlântica ao som de gritos de ordem como: “Não acabou. Têm que acabar. Eu quero o fim da Polícia Militar”. “Chega de Chacina. Polícia assassina”. “Não, não, não quero caveirão! Eu quero meu dinheiro na saúde e educação”.

O protesto atraiu muitos olhares curiosos de uma verdadeira multidão que chegava a praia de Copacabana para assistir o jogo na arena Fifa Fan Fast. As areias de Copa também foram palco do protesto, pois várias cruzes pretas foram colocadas nas areias com os nomes das favelas em risco de remoção, são elas: Metrô Mangueira, Colônia Juliano Moreira, Asa Branca, Vila Azaleia, Tubiacanga, P. Royal, Vila União, Indiana, Manguinhos, Vila Autódromo, Horto e Chapéu Mangueira. E a mensagem principal foi passada,  nem todos os brasileiros estão felizes com a Copa do Mundo aqui no Brasil. O ato seguiu sem violência por ambas as partes até seu destino final a subida do morro Pavão/Pavãozinho/Cantagalo.

Ao término do ato quando alguns manifestantes já haviam se dispersado o vendedor Pablo – conhecido por se caracterizar de Homem Aranha nos protestos, foi levado detido acusado de desacato a autoridade por se recusar a entregar para um PM a faixa que estava usando durante todo protesto. O caso foi direcionado a 17ª Dp em São Cristovão e Pablo foi liberado no mesmo dia. A advogada  Dra Cristiane Oliveira do Instituto de Defensores de Direitos Humanos (DDH), que se aproximou para acompanhar o Pablo, além de ser proibida de ir na viatura com o detido foi agredida com cacetete e chamada de piranha por um PM. É pelo fim desta polícia que o ato foi realizado e vamos continuar lutando!

Foto: Tati Alvarenga
Foto: Tati Alvarenga

Será que a classe média entendeu o recado?

Desde das jornadas de junho do ano passado que completaram  1 ano no último dia 20. Sempre ficou muito confuso para os populares o motivo pelo qual as pessoas estavam indo as ruas protestar. Ora, isso foi possível é claro com  ajuda da grande mídia manipuladora que omitia informar ao telespectador o que de fato estava em reivindicação.

Então vamos recordar. Em meados do ano passado foi o aumento no valor da passagem o pivô das manifestações que tomaram conta do país. Mas logo os populares perceberam que a saúde estava em crise. Portanto criticavam nas ruas e levavam em seus cartazes queremos saúde padrão FIFA de qualidade, queremos educação padrão FIFA de qualidade e desde do ano passado o povo nas ruas ecoava o grito Não vai ter Copa!

Por diversas vezes os telejornais noticiavam que milhares de pessoas estavam nas ruas sem uma causa, um motivo aparente. Como se fosse possível ir para as ruas sem causa, motivo algum. Por isso a preocupação com pessoas que não têm esta veia ativista entender o recado que se passa nas ruas é de extrema importância.

Foto: Tati Alvarenga
Foto: Tati Alvarenga

Abaixo selecionamos declarações dos atores sociais que deram vida a este ato, e de parceiros que apoiam a luta do povo e têm participação assídua nas atividades ligadas a população negra, pobre e favelada. Leia e reflita!

“A solução é o fim da PM e da UPP. Sou a favor de comitê popular de auto defesa. Pois enquanto houver este sistema do Governo de só haver polícia nas regiões pobres, sempre vão ocorrer  mortes. Especulação imobiliária foi o grande motivo da criação da UPP. Eles querem valorizar o local as custas do pobre! Colocando esta população para áreas distantes assim como ocorreu com moradores da Cidade de Deus e Vila Kennedy migrados para Campo Grande. “Lilian Barboza, Favela não se cala e Vírus planetário.

“Não há liderança na comunidade para nos apoiar. Já houve mais duas mortes após o falecimento do meu filho. A sensação que eu tenho é que esta ocorrendo um extermínio. Me sinto impotente, sozinha, sem forças, porque as autoridades não fazem nada. Mas a minha maior dor é ter que limpar o nome do meu filho, que como todo jovem assassinado por um PM é associado ao tráfico de drogas.” Ana Paula Oliveira, mãe do Johnatha de Oliveira de 19 anos, morto por policiais da UPP de Manguinhos segundo a família.

“Meu filho foi para uma festa junina em 09/06/2003 e na volta ele e dois amigos, um rapaz e uma moça estavam voltando a pé para casa, já de madrugada. Ao deixar a moça em casa, seguiram o trajeto e foram parados segundo uma testemunha por uma viatura tipo blazer, com quatro homens. Desde então nunca mais vi meu filho. O amigo dele Rodrigo Abilio de 19 anos.” Izildete da Silva, mãe do Fábio Eduardo Santos de Souza que tinha 19 anos na época em que desapareceu.

“As remoções que foram feitas, tive como objetivo de fazer um estacionamento ou para colocar um equipamento de esporte que é o caso do Metrô Mangueira e Aldeia Maracanã . E todo este processo de venda e privatização da cidade isso não começou agora é inerente ao capitalismo.” Lurdinha, Movimento Nacional de Luta pela Moradia.

“É fundamental a presença do advogado nos atos. Quando a gente pega as jornadas de junho havia uma faixa que dizia “O gigante acordou mas a favela nunca dormiu”, isso é significativo porque a favela sempre foi um alvo constante de política de segurança de exceção, ou seja, o uso do auto de resistência para justificar o extermínio, flagrantes forjados. Esse era o cotidiano. O que nós percebemos após as jornadas, é que este cotidiano na favela desceu para o asfalto. Temos consciência de que sem esta fiscalização frequente nos atos poderiam haver muitas injustiças, porque os policiais eles abrem as bolsas e é neste momento que pode haver a possibilidade de ser forjado tipos penais pesados como: porte de arma, artefato explosivo”. Fernanda Vieira, Advogada do Mariana Criola.

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