As paredes falam alto

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As paredes falam

Por Jamie Duncan 

É um pouco estranho aquele discurso que o povo brasileiro não gostam de ler e escrever. ‘Todo mundo sabe’ que a cultura brasileira é uma cultura ‘oral’, ao contrário de seus vizinhos, os bem letrados da argentina, onde cada táxista é uma especialista em Borges. É uma luta para incentivar os brasileiros a ler e escrever. Talvez seja o clima, é o que dizem. Será isso? Mas o que é leitura? O que é escrito, ‘todo mundo sabe’?

A cidade do Rio de Janeiro é visivelmente um caderno escrito, com seus anúncios, textos poéticos politicamente e socialmente engajados e suas pichações da vida cotidiana- uma leitura de mundo local. Há pessoas que não aceitam essa modo de leitura, ou talvez eles simplesmente não prestam atenção nos escritos de parede na rua, a voz do povo, no lugar do povo. A cultura carioca é uma cultura de rua.

As pessoas passam grande parte de suas vidas nas ruas e praças da cidade: é o dia-a-dia do trabalho, das relações sociais que perpassam do divertimento até a ida a igreja. Escrever é como qualquer outra atividade social, há alguns textos que são mais interessantes do que outros. ‘Eu amo fulano’ é uma coisa, ‘Mais solidariedade entre um movimento social e outro’, é outra.

Rio está cheio de escrito nas paredes. As paredes falam alto, ou melhor, elas tem muito a acrescentar ao seu conhecimento de mundo. Desde junho, as paredes , as praças e, principalmente , as ruas, têm falado mais alto ainda. Você já deve ter visto os cartazes, as faixas, os adesivos, a pichação, sobre educação, saúde, transporte, ‘pacificação’, entre outros temas, tarefas importantes que precisam ser discutidas e debatidas, para melhorar a qualidade de vida dos moradores da cidade.

Às vezes, as pessoas andam pelas ruas portando suas mensagens, seja ela em faixas, ou em camisa, ou até mesmo no próprio corpo, como se ver muito nos protestos, reuniões nas ruas e nas ocupações, e para além disso, esses textos provocam conversas sobre o seu conteúdo e assim sendo essas ideias são compartilhadas. Mas é um pouco estranho isso. O governo planeja intervenções a desenvolver cidadãos ‘críticos’ para participar de uma sociedade mais democrática, pois quando eles participam, deixando suas vozes nas praças públicas, as autoridades limpam-los fora, como um quadro negro no final da aula.

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