Brasil x Haiti: do jogo da paz ao jogo da pacificação – PARTE 2

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Essa é a segunda reportagem de uma série de cinco sobre a relação entre Brasil e Haiti desde a implantação da Missão das Nações Unidas de Estabilização do Haiti (MINUSTAH), em 2004.

Miriane Peregrino

 

Soldados que serviram no Haiti compõem a Força de pacificação que ocupou as favelas da Maré entre 31 de março de 2014 a 30 de junho de 2015. Foto: Miriane Peregrino
Soldados que serviram no Haiti compõem a Força de pacificação que ocupou as favelas da Maré entre 31 de março de 2014 a 30 de junho de 2015.
Foto: Miriane Peregrino

Do Haiti para as favelas cariocas

Em 18 de agosto de 2004, a população haitiana tomou as ruas da capital com grande comoção. Neste dia, foi realizado no Estádio Sylvio Cator, em Porto Príncipe, um amistoso entre Brasil e Haiti, conhecido como “Jogo da Paz” e que terminou na vitória do Brasil com um placar de 6 x 0. O jogo simbólico da paz mexia com o imaginário da população haitiana, então, fascinada pelo futebol brasileiro. Mas, fora do Estádio Sylvio Cator, um outro jogo entrava em campo: o jogo da pacificação, e numa partida que não tem data para terminar.

Soldados brasileiros que serviram no Haiti foram utilizados nas ocupações militares de favelas cariocas: Complexo do Alemão, em 2010, e da Maré, em 2014. Nas últimas levas de militares na Maré começou a ocorrer um intercâmbio ao contrário: eram os soldados que serviram na Maré que seguiam para o Haiti.

Em 11 anos chefiando a Minustah, o Brasil enviou 23 mil soldados para essa missão e em 1 ano e dois meses de ocupação militar das favelas da Maré, a força de pacificação contou com um contingente de 27 mil soldados. Recentemente, militares declararam em entrevista a Folha de São Paulo que preferem a missão no Haiti do que a no conjunto de favelas da Maré, pois lá teriam mais liberdade de atuação, ou seja, uma legislação mais permissiva em casos de violação de direitos.

No entorno de diversas empresas, a moradia precária de boa parte da população da capital haitiana. As zonas francas muradas e as fortificações também são defendidas pelas tropas da Minustah. Porto Príncipe, Haiti. Foto: Miriane Peregrino.
No entorno de diversas empresas, a moradia precária de boa parte da população da capital haitiana. As zonas francas muradas e as fortificações também são defendidas pelas tropas da Minustah. Porto Príncipe, Haiti.
Foto: Miriane Peregrino.

Outro dado importante é que o Governo federal e o Governo do Estado do Rio de Janeiro, desde 2013, tem promovido o intercâmbio da polícia haitiana em favelas cariocas para que conheçam os modelos das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs). A retirada das tropas brasileiras do Haiti já foi anunciada algumas vezes e hoje a previsão é de que a Minustah tenha fim em 2016, ou seja, 12 anos após o inicio da missão. Segundo Miguel Borba de Sá, o fim da Minustah não significará o fim de intervenção estrangeira no Haiti:

“O que significa a saída das tropas? Significa que vão voltar os fuzileiro navais norte-americanos? A responsabilidade depois de 10 anos de bagunça, fica com quem? Duvido que vão deixar o povo haitiano se organizar sem ter alguma força repressiva para conter as mobilizações sociais. Certamente tem a ver com o processo eleitoral, certamente tem com os contratos fechados e garanti-los. Da mesma forma que a Minustah não é a primeira operação da ONU no Haiti, não quer dizer que será a última também. O fato da Minustah está acabando não significa que o intervencionismo no Haiti acabou”.

O haitiano Fedo Bacourt, coordenador da União Social dos Imigrantes Haitianos, afirmou que quer seu país livre das intervenções estrangeiras: “Infelizmente, há países grandes que estão fazendo um processo para o Haiti continuar na escravidão. Mas minha duvida é, depois da retirada das tropas da Minustah, o que vai acontecer com o Haiti? A luta não é só contra a Minustah, a luta é pelo Haiti totalmente livre e soberano”.

Fonte: Curso de Comunicação Popular do Núcleo Piratininga de Comunicação – Vozes das Comunidades

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