Estudar é direito!

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Conheça histórias de jovens que, mesmo beneficiados com a bolsa de estudos do ProUni, enfrentam dificuldades para permanecerem na faculdade

Fazer faculdade não é privilégio, como muitos pensam! A aquisição de conhecimento é um direito humano. Por isso, o acesso à universidade não deveria ser restrito. Todos os que sentem vontade de cursar uma faculdade podem fazê-lo, na teoria, mas na prática, as coisas não funcionam como deveria. Ainda são muitos os estudantes excluídos do ensino superior e o principal motivo não é a falta de grana. Mas se estudar é um direito, dificuldades financeiras não deveriam justificar a impossibilidade de estudar.

Muitas vezes, para realizar o sonho de obter um diploma, estudantes oriundos de escolas públicas sentem a necessidade de começar cedo a trabalhar para ter condições de pagar as mensalidades da faculdade particular. Por outro lado, a maior parte de jovens que estudaram em colégios particulares encontra menos dificuldade em ingressar numa universidade pública, pois os que pagam para estudar são preparados para os vestibulares mais concorridos do país desde o primeiro ano do ensino médio, o que não ocorre com grande parte dos estudantes da rede pública.

Para contornar essa realidade, em 2004, o Governo Federal lançou o Programa Universidade Para Todos, o ProUni, que concede bolsas no ensino superior para estudantes que concluíram o ensino médio em escolas públicas ou que forma bolsistas de colégios particulares. Por conta desta iniciativa, um milhão de estudantes brasileiros com renda familiar de até três salários mínimos conseguiram entrar em universidades particulares de todo o País.

O programa conseguiu fazer com que muitos jovens conseguissem realizar o grande sonho de passar e concluir um curso universitário. Sessenta e sete por cento desses estudantes cursaram a faculdade com bolsas integrais, segundo o site do ProUni.

 Histórias

Mesmo com o benefício da bolsa, jovens estudantes do ensino superior conciliam uma jornada de trabalho cansativa com os estudos, como forma de viabilizar os gastos com material, transporte e alimentação. A estudante de Administração Mayra Queiroz, de 19 anos, diz que trabalhar e estudar exige muito. Desgastada, encontra dificuldades para descansar e fazer seus trabalhos acadêmicos. “Eu vou para o trabalho e fico até às 17h, depois vou direto para a faculdade e saio às 23h. Quando chego em casa à 0h, preciso arrumar as coisas. Quando consigo dormir já é madrugada, e no outro dia tem que fazer tudo de novo. É bem complicado” conta.

Ex-bolsistas, hoje formados, entendem o programa como uma ótima iniciativa, capaz de promover mudança social, viabilizando o direito ao estudo. Débora Silva, de 24 anos, moradora de Nova Iguaçu (RJ) é formada em Marketing pela UniverCidade. Na instituição particular teve a oportunidade de estudar graças ao benefício da bolsa cedida pelo governo. “Este é um projeto super válido porque deu a oportunidade para muita gente fazer faculdade, principalmente, aqueles que não tinham nenhuma perspectiva com relação a isso. Digo isso, pelo fato da universidade pública ser muito concorrida e as particulares serem muito caras”, diz Débora.

A pedagoga Girlane da Costa, que já foi bolsista pelo programa, afirma que já sofreu preconceito por ser pobre dentro de uma universidade. “Já sofri preconceito sim. No início, eu também tinha vergonha em dizer que era bolsista, mas depois passou”, afirma. Para o estudante de jornalismo e prounista Flavio Santos, de 28 anos, o maior problema é a comprovação da renda todos os semestres. Mas reconhece o quanto o programa é importante. “Todos os anos tem que ser comprovada a renda, não adianta somente fazer a prova, tem que passar por uma avaliação financeira. Mas acredito muito no ProUni”.

Outra ex-bolsista, a jornalista Glaucia Marinho, de 27 anos, afirma que havia um pouco de segregação dentro da universidade. “Não recebi nenhum tipo de preconceito, mas era segregado sim. Bolsistas andavam só com bolsistas, não havia uma política de integração destes estudantes”, disse a jornalista.

 Estudo de casos

 Na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), um acompanhamento dos estudantes beneficiados com a bolsa do ProUni é realizado desde 2005, o primeiro ano letivo em que o programa entrou em vigor. A pesquisa foi realizada com um grupo de 58 estudantes bolsistas do ProUni dos cursos de Pedagogia, Ciências Sociais, Direito, Fonoaudiologia e Psicologia da universidade particular. Com esse levantamento, constatou-se que muitos beneficiados com o Programa desistem dos estudos por outros fatores, como cultural e financeiro.

De acordo com Leda Maria de Oliveira Rodrigues, professora da Faculdade de Educação e responsável pela pesquisa, mais de um terço dos 58 casos analisados enfrentou dificuldades para se manter na faculdade. Parte desses estudantes foi reprovada no decorrer do curso, desistiu ou optou por alongar sua permanência na universidade. Por isso ela acredita que a simples oferta da bolsa não é suficiente.

“Para os alunos pagantes, alongar o tempo de estudo pode ser bom. De livre e espontânea vontade, fazem um cursos fora do país, por exemplo. Além disso, todos os alunos do ProUni são filhos de pais de baixa escolaridade e, por isso, não recebem capital cultural. Por isso, qualidade do diploma acaba sendo diferente e na hora de exercer a profissão haverá um diferencial”, analisa a professora, que acredita que o governo está descomprometido com a educação básica.

Outro aspecto da pesquisa destacado pela professora é a média de idade predominante entre os bolsistas, de 23,4 anos. “Considerando que geralmente os estudantes do ensino superior iniciam na faculdade aos 18 anos, há mais de cinco anos de diferença. São alunos mais velhos, o que demonstra que tiveram uma escolaridade com rupturas e interferências.”

 Além da bolsa

Os beneficiados com a bolsa do ProUni ficam isentos de pagar a mensalidade, mas estudar envolve custos que a isenção da mensalidade não é capaz de cobrir. Um bolsista do ProUni da Bahia, que não quis se identificar, disse que já teve que passar um semestre inteiro indo para a faculdade a pé, pois se fosse de ônibus, não teria como frequentar o mês todo, pois o máximo que a sua família conseguia ajudar dava apenas para uma passagem por dia. Ele também relata que percebia situação semelhante com outros colegas bolsistas que enfrentam dificuldades financeiras para tirar cópias, comprar livros e fazer um lanche.

“Esses estudantes, como todas as pessoas, têm necessidades em relação à saúde, alimentação, lazer, moradia, para falar só do básico.  Os cursos, em geral, duram quatro anos e não é nada fácil se manter com carências durante todo esse tempo. As demandas dos estudantes vão muito além da escola”, afirma Cilene Canôas, professora da Faculdade Paulista de Serviço Social.

Jacqueline Pitanguy, diretora da instituição Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação (Cepia), acredita que o surgimento do ProUni ajudou o Brasil a caminhar para uma mudança de padrão de mobilização social. “A universidade pública sempre foi restrita. Foi necessário fazer um programa especial para ampliar o acesso à universidade. E a realidade é que a massa da população não chegava na universidade pública”, concluiu.

Ela comenta, no entanto, sobre os problemas enfrentados pelos mais pobres dentro de uma universidade: passagem cara, livros caros, a dificuldade de conciliar trabalho e estudos, isso sem falar no preconceito. “Temos agora uma diversidade social maior. Antes era como um castelo frequentado só pela corte, em que todos se reconheciam como iguais. E, de repente, naquele castelo, entram várias outras pessoas que não faziam parte daquela corte. E o que está tendo agora é um tipo de reação, que por um lado existe a rejeição”, afirmou a diretora.

Para a professora Leda Maria de Oliveira Soares, o ProUni promove a democratização da vaga, mas não do conhecimento. “Infelizmente, há uma falsa democratização, mas o problema não está no ProUni e sim na educação de base, que não é de qualidade. Os alunos são prejudicados por isso, são diferenciados não pela sala de aula, mas pelo conjunto de conhecimento que os colegas têm por serem de uma classe social diferente.”

 Em cima da hora

 Alguns estudantes do ProUni acabam chegando na faculdade com as turmas já formadas e depois do inicio das aulas, tendo que acompanhar um processo em andamento, e por vezes perdendo as primeiras aulas do curso, o que pode, inclusive, dificultar o entrosamento com os outros estudantes.

“Confesso que o começo foi bem difícil, porque os alunos bolsistas demoram muito para começar as aulas. Eu, por exemplo, comecei só em março, porque meus documentos tinham que ser aprovados, e até a faculdade resolver toda a burocracia necessária perdi aula, o que me atrapalhou muito porque muitas disciplinas já estavam bem avançadas. Peguei DP (dependência) em uma matéria por não conseguir acompanhar o ritmo” diz Mayra.

A documentação avalia se o aluno realmente não tem condições de custear a sua mensalidade, porém a lista de aprovados do Prouni, por vezes, sai depois do inicio das aulas, e até a análise dos documentos o tempo de espera é muito grande. O que se torna mais uma preocupação para o calouro na universidade. “Sinceramente a pior parte é a pressão de manter as notas elevadas. Muitos dizem que qualquer coisinha a bolsa já era”, comenta Caroline Leonardo, de 18 anos, estudante de jornalismo.

O critério de avaliação dos alunos bolsistas, assim como a reapresentação de documentos cabe a cada universidade definir. Esse rigor é necessário para que não haja fraude, mas também é necessária rapidez no processo, para não prejudicar o estudante. Já no Sistema de Seleção Unificado (SISU), que seleciona alunos para as universidades públicas federais brasileiras, há prazos mais condizentes com o inicio das aulas dessas universidades. Geralmente apenas os selecionados da lista de espera começam a estudar depois do início das aulas.

Por Gizele Martins, Danielle Andrade, Maisa Ferreira, Thayanna Cunha e Douglas Baptista, do Virajovem Rio de Janeiro (RJ)*; Amanda Campos e Emilae Senna, do Virajovem Salvador (BA)*; Mariana Rosário e Bruno Ferreira, da Redação

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