Grupo lança relatório sobre impactos das UPPs

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Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro aplicou cartografia social em mais de 10 territórios

“Cartografia social” é um nome difícil para uma atividade simples. Cartografia significa criar mapas. Uma cartografia social é um tipo de mapa de um território com legendas e símbolos criados por quem mora e convive ali. Ele é completamente original, referente somente àquela área. Quem faz uma cartografia social pode marcar, por exemplo, a rua onde se tem o ponto de moto-táxi, ou acúmulo de lixo, um posto de polícia ou até um lugar que tenha uma história marcante para quem vive ali. Esse tipo de mapa não marca, necessariamente, os limites de ruas, esquinas e becos dali, mas os códigos internos. As narrativas e depoimentos dos participantes também constroem o material. Por isso, a cartografia social diz mais sobre um lugar do que qualquer mapa nos padrões da geografia.

Um grupo chamado Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro, criado em 2003, aplicou a cartografia social com jovens de 15 a 29 anos de várias regiões do Rio de Janeiro: Maré, Alemão, Manguinhos, Rocinha, Vidigal, Providência, Campo Grande, Vila Kennedy, Santa Marta, Acari, Santo Cristo (em Niterói) e cidades da Baixada Fluminense. Participaram 153 jovens, sendo 57% homens e 43% mulheres. Quase dois terços eram pretas(os) ou pardas(os) e um terço brancas(os). O Fórum é composto por vários coletivos que lutam contra a desigualdade social na cidade e abordam a questão da ação policial nas favelas. Era exatamente esse o foco da cartografia aplicada: o impacto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Além da confecção da cartografia, faziam parte da intervenção uma oficina de direito à cidade e uma de racismo institucional.

Mulheres da mesa de debate unidas para dizer não à militarização de favelas.
Mulheres da mesa de debate unidas para dizer não à militarização de favelas.

Na última segunda-feira, 31 de agosto, o grupo lançou um relatório com os resultados do projeto. O lançamento aconteceu no Sindicato dos Jornalistas do município. Confira alguns relatos que se repetiram entre jovens:

1 – “Estão vendendo meu morrão”

Moradores têm a impressão de que em seus bairros está mudando de mãos o poder. Isso gera uma perda de familiaridade local e também uma confusão quanto aos códigos internos.

2 – Muita violência contra a mulher jovem

3 – Excessiva abordagem policial

Uma prática constante nas abordagens policiais é o PM pedir para ver identidade. Mas é importante saber que não há lei que obrigue qualquer cidadã ou cidadão a sempre portar identidade. O que é necessário é a pessoa se identificar dizendo o nome.

4 – Acabaram com minha festa

É muito frequente a polícia aparecer para acabar com as festividades: baile funk, pagode e até festa de aniversário.

5 – Repressão a comunicadoras/es

A polícia não quer ser filmada e nem gravada por áudio – embora policiais façam isso com os moradores. Então, tomam a liberdade de pegar e quebrar celulares e câmeras de quem registra uma ação policial.

6 – Presença da polícia militar em escolas

7 – Repressão a jovens com passagem pela polícia

Jovens cumprindo pena em liberdade assistida são repreendidos ao circular pela favela, como se assim fossem “fazer algo errado de novo”. Além disso, números indicam que regiões com UPP aumentaram o número de jovens menores detidos. As causas podem ser diversas.

8 – Seletividade homicida

A maioria dos jovens abordados, detidos, presos e mortos são negros.

9 – Caso Amarildo e o alerta

O caso Amarildo explicitou a prática policial de “sumir” com pessoas das favelas, fossem inocentes, suspeitas ou culpadas. Isso deixou os jovens mais espertos nas suas localidades e mais atentos com os desaparecimentos.

Após a apresentação do relatório, formou-se uma mesa de debate sobre o tema da ação policial na favela e na periferia. Participaram comunicadoras comunitárias, militantes de movimento de periferia, mães de jovens assassinados ou baleados pela polícia, e pesquisadora que acompanhou o trabalho do Fórum. Eram elas: Juliana Farias, pesquisadora do PPCIS-UERJ; Lena Azevedo, da Justiça Global; Ana Paula Gomes, mãe vítima do Estado e membra do Fórum Social de Manguinhos; Irone Santiago, moradora da Maré e mãe vítima do Estado; Jhenifer Raull, Monique Cruz e Gizele Martins, do Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro. Saiba mais sobre o evento aqui.

 

 

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