Moradores e militantes percorrem a Maré por memória, cultura e direitos

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Por Carolina Vaz

Caminhada da Maré - Foto 1
Caminhada teve seu ponto final na praça do Parque União. l Foto: José Henrique

No dia 09 de Julho, seis favelas da Maré foram percorridas na Caminhada por Memória, Cultura e Direitos. A passeata saiu do Museu da Maré, na Baixa do Sapateiro, até a praça do Parque União. O evento, organizado por grupos de militâncias diversas no bairro, reuniu moradoras e moradores, mães de vítimas da violência do Estado, ativistas da comunicação popular, da juventude, da arte, do movimento negro e todos os interessados nas pautas. Estavam presentes entidades como Anistia Internacional e Comissão da Verdade, além de grupos do Teatro do Oprimido, Museu da Maré, Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro (FJRJ), curso de comunicação comunitária Favela Fala e curso de comunicação comunitária do jornal O Cidadão. Para além da caminhada, aconteceu uma panfletagem, para que moradoras, moradores e todos que viam os manifestantes passarem entendessem do que se tratava.

Passeata contou com intervenção artística do Teatro do Oprimido. l Foto: José Henrique
Passeata contou com intervenção artística do Teatro do Oprimido. l Foto: José Henrique

A menos de um mês das Olimpíadas, a caminhada veio lembrar do que aconteceu na Maré, em 2014, na época da Copa do Mundo: as favelas foram ocupadas pelo exército, fato que não somente criminalizou esses espaços de moradia e convivência como gerou diversas formas de opressão e violência. Com a aproximação dos jogos olímpicos, é forte o receio de que o mesmo aconteça de novo, e por isso a memória se faz importante. Também se marcou a realidade da vida favelada, onde faltam direitos, não somente no acesso a serviços, como saneamento, educação e saúde, mas à própria vida. A juventude negra favelada e periférica sofre com o racismo dos poderosos, incluindo a polícia militar, que lhes tira a liberdade e a vida sem ter qualquer certeza de criminalidade. Em 19 de julho, o Ministro da Justiça afirmou ter mais medo da “criminalidade” carioca do que de terrorismo vindo de outras nações. Quem conhece a prática da polícia militar brasileira já sabe o que isso significa: mais repressão nas favelas.

Carlos Gonçalves, estudante e membro do Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro (FJRJ), explicou a importância do evento: “A realidade que a gente já teve do exército na Maré foi realmente muito concentrada e emblemática, com muitos casos muito complicados, como da dona Irone*. Porque ela foi uma das mães vítimas desse Estado que é um Estado racista na sua essência, que faz da sua prática um genocídio claro contra a gente. Nossa luta diária é pela sobrevivência. Essa caminhada foi construída justamente nisso, para podermos fazer um repúdio ao que foi a militarização, o Exército aqui dentro, e essa perspectiva de golpe. Tem-se crise, ela se intensifica e o que acontece é uma situação muito clara”.

Foto: José Henrique
Foto: José Henrique

O militante ainda lembrou que o que se teme fora das favelas e periferias quanto a perda de direitos, em virtude do governo golpista atual de Michel Temer, não reflete a realidade favelada: “Pode até acontecer um golpe na democracia no asfalto, mas o que acontece aqui dentro é a nossa democracia da chacina. Isso é um problema real, sério, que a gente luta diariamente. Essa manifestação tem esse propósito, e por isso a gente chamou galeras de outra favelas: do Alemão, do Borel, de Manguinhos, de espaços de lutas também, do pré-vestibular, de cultura, e também movimentos externos. A gente acredita que é importante nesse momento a gente ter essa perspectiva de união nessa pauta que é tão importante pra gente: a pauta da sobrevivência”.

Gizele Martins, comunicadora comunitária, criticou a atitude de quem vai às favelas para viver o “exótico”, pedindo mais respeito aos mareenses: “O que a gente vive na favela não é turismo, não é espetáculo. É muito real e a gente faz parte disso. Isso aqui não é para ninguém ficar fotografando e fazendo furo de reportagem. A gente faz um trabalho aqui na Maré há mais de dez anos, que precisa continuar a ser respeitado. Um trabalho do direito à vida, que não é relatório, não é panfleto, não é um pequeno cartaz. É um trabalho por um direito que a gente ainda não tem, em cem anos de favela a gente ainda não tem o direito à vida. São 500 anos de um país racista que nunca deu à população negra, pobre e favelada nenhum direito à vida e o nosso trabalho aqui dentro é muito sério. A nossa busca por uma atividade favelada é um trabalho muito sério, e que bom que a gente percorreu seis favelas da Maré panfletando, e só a nossa presença eu ouvi muitos moradores falando ‘que bom que vocês estão aqui, é importante’, ‘que bom que a gente pode voltar à Maré como era antes’. Porque, como o Carlos falou, o que a gente viveu aqui antes foi muito duro, a gente não poderia nunca fazer uma manifestação como essa nem em silêncio, nem panfletando e nem nas próprias organizações da qual fazemos parte”.

* Irone Santiago Borges é mãe de Vítor Santiago Borges, que em 12 de fevereiro de 2015 estava num carro com amigos, na Vila do Pinheiro, quando o carro foi alvejado, com tiros de fuzil, pelo Exército. Atualmente Vítor está paraplégico e Irone se divide entre cuidar do filho e lutar por justiça para ele e outros jovens.

Foto: José Henrique
Foto: José Henrique

 

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