Museu Aberto do Morro da Providência completa 11 anos

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Museu está esquecido pela prefeitura que o criou e é pouco conhecido entre moradores

Por Miriane Peregrino

O Oratório do Cruzeiro, também conhecido como igrejinha, foi construído no século XIX. As lavadeiras aproveitavam a pedra do entorno para quarar e esticar roupas. Morro da Providência. Foto: Miriane Peregrino.
O Oratório do Cruzeiro, também conhecido como igrejinha, foi construído no século XIX. As lavadeiras aproveitavam a pedra do entorno para quarar e esticar roupas. Morro da Providência. Foto: Miriane Peregrino.

Considerada a primeira favela do Brasil, a Providência também é a primeira favela a ter um museu à céu aberto. Mas a iniciativa não partiu dos moradores. Em 2005, através do programa Favela Bairro, César Maia, então prefeito do Rio, criou o Museu Aberto do Morro da Providência. Idealizado pela arquiteta e urbanista Lu Petersen, o museu criou um roteiro de visitação e instalou trilhos metálicos pelo morro para facilitar o deslocamento de visitantes e acesso aos pontos turísticos: a Igreja Nossa Senhora da Penha, os mirantes de onde se tem uma vista panorâmica do Rio de Janeiro, o oratório, o reservatório de lembranças, entre outros. Pouco conhecido até entre os moradores do morro, sem qualquer estrutura física ou política cultural contínua que viabilize ações efetivas, o Museu Aberto do Morro da Providência completa 11 anos este ano.

Cosme Felippsen, morador e guia turístico da Providência, com seu material de trabalho. Ao fundo, a Casa da Dona Dodô, um dos pontos turísticos do morro. Foto: Miriane Peregrino
Cosme Felippsen, morador e guia turístico da Providência, com seu material de trabalho. Ao fundo, a Casa da Dona Dodô, um dos pontos turísticos do morro. Foto: Miriane Peregrino

“Tem morador que até hoje não sabe pra que serve a lista metálica no caminho da Providência. Pensa que é pra escorrer água” – afirma Cosme Fellipsen, 27, morador e guia turístico do morro.
Nas visitas guiadas que realiza, Cosme utiliza o caminho criado pelo museu aberto, mas acrescenta itinerários da história recente do morro e faz percursos que considera mais seguros. Ponto turístico e histórico importante, a Casa da Dona Dodô está fechada desde que a moradora faleceu no ano passado.
“Dona Dodô é cria aqui do morro e foi a primeira porta-bandeira da Portela” – informa Cosme – “O prefeito removeu Dona Dodô da casa dela e colocou ela numa casa ao lado. Ela tinha várias informações sobre o samba, sobre o morro e agora que ela morreu não está sendo preservada a história. Já mudaram tudo o que tinha lá dentro e vão alugar a casa. É a não preservação da história do povo”.

Para o morador Eron César dos Santos, 49, o fato do museu aberto ter sido criado pela prefeitura durante a gestão de César Maia desestimula a atual gestão na manutenção do projeto. Eron também afirma que hoje a Providência recebe muito mais turistas do que em 2005 por conta da instalação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), em 2010, e do teleférico, em 2014.
Cansados de esperar do poder público ações de preservação da memória do morro, os moradores Eron dos Santos e Roberto Marinho criaram o Museu Comunitário da Providência que funciona virtualmente através de um blog. Trabalho iniciado há dois anos, os moradores juntam documentos sobre a Providência, realizam pesquisas por conta própria e promovem visitas guiadas na favela.
“São dois museus, são iniciativas diferentes” – destaca Eron diferenciando o museu criado pela Prefeitura em 2005 e o criado por ele e Roberto em 2014 – “Um é o caminho, o outro é virtual. Nós não temos sede”.
A Zona Portuária tem sido palco de grande especulação imobiliária e remoções, e nesse processo de revitalização temos a criação de dois grandes museus com concepção e realização da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro e da Fundação Roberto Marinho: o Museu de Arte do Rio (2013) e o Museu do Amanhã (2015). Ali, muito perto e completamente esquecidos pelas políticas públicas, ficam o Museu Aberto do Morro da Providência (2005) e o Museu Comunitário (2014), duas iniciativas ignoradas no contexto dos megaeventos esportivos na nossa cidade.

O Museu Comunitário da Providência é uma iniciativa de dois moradores

Eron Cesar dos Santos, 49 anos, é biólogo de formação e historiador do morro por convicção. O Museu Comunitário da Providência, iniciado há dois anos com o também morador Roberto Marinho, traz informações que eles vão recolhendo em suas pesquisas e disponibilizando num blog, além de informações sobre o cotidiano na cidade. Eron também é zelador da Igreja Nossa Senhora da Penha e contra-mestre de capoeira do Grupo Ventre Livre atuando no núcleo de capoeira do morro. Na igreja, costuma receber visitantes, principalmente estudantes de história e arquitetura.
“Existem indícios de que a Igreja da Penha já existia antes da data oficial de 1897” – afirma Eron – “Nessa pesquisa, também consegui uma guia de batismo de Machado de Assis. A gente acredita que a casa onde ele morou fica na Ladeira do Livramento. Achei uma cópia do compromisso da Irmandade de Nossa Senhora da Penha de 1858 e consta ali que a capela já existia e ninguém faz uma capela em um ano. Já havia muitas coisas aqui no morro antes de Canudos. Canudos é um evento. Quem veio pro Rio de Janeiro foram os soldados e as vivandeiras que lutaram na campanha de Canudos. Eles vieram receber uma recompensa que, como a gente conhece o Brasil, não foi paga. E eles acamparam perto do Ministério da Guerra, atual Palácio de Caxias. Depois, ocuparam a parte do Morro da Providência que estava desocupada”.

“Eu divido didaticamente a história da Providência assim: Período das chácaras, ou seja, tudo o que havia acontecido no morro na época das sesmarias, da doação dos terrenos; Período da favelização, ocupação efetiva quando as chácaras foram divididas e sendo vendidas principalmente para trabalhadores das pedreiras, do entorno da Providência, da linha férrea, da estação Pedro II; Mudanças nos anos 60, porque aconteceu uma grande tragédia aqui no morro em 1968. Parte da pedreira, a face voltada pra Central do Brasil, desabou arrastando mais de 60 barracos. Parte dos moradores dali foi removida e a essa face sul do morro ficou praticamente desabitada. Com a migração nordestina uma nova população ocupou o topo da Providência. A favela evoluiu mais uma vez e continua evoluindo até hoje” – conclui Eron.

Assim que terminamos a subida da ladeira, o primeiro objeto que avistamos no Largo do Cruzeiro é uma escultura feita por um artista estrangeiro em formato de pódio com três esculturas metálicas: 1º lugar um trator representando as remoções, 2º lugar um soldado armado representando a intervenção militar do Estado, e 3º lugar um político cercado por microfones.

“A comunidade não gostou muito da escultura por causa da arma. A primeira coisa que a pessoa que sobe a ladeira dá de cara é com esse soldado armado. A primeira imagem é impactante, é a que fica. Muitos moradores não gostaram” – informa Eron.
Andando pelo morro, Eron representa o Museu Comunitário da Providência, mas também nos guia pelos caminhos do Museu Aberto do Morro da Providência, mapeado pela Prefeitura e sem qualquer continuidade enquanto política cultural no morro até hoje.
O grafite tem sido um dos instrumentos para ilustrar histórias dos morros cariocas e na Providência eles também estão espalhados em paredes, sobrevivendo as ações do tempo e do cotidiano. Uma delas chama-se Memórias da Estiva.

“A Providência sempre foi muito próxima do cais do porto e ele sempre foi fonte de renda pros moradores” – conta Eron – “Quando eu era criança sempre vinham mercadorias do cais pro morro. Eram sacos de arroz, de batata que eram rasgados e muitas dessas mercadorias, que ficavam espalhados pelo armazém, vinham parar na favela para alimentação dos moradores”.
Povoada ainda por histórias de assombração, como o Pé de Ferro, um ex-escravo que, segundo antigos moradores, percorria o morro de madrugada, a Providência está numa parte central e disputada da cidade. Na zona portuária, a remoção da Cabeça de Porco, um cortiço com cerca de 4 mil residências, já anunciava as disputas econômicas em torno desse território no final do século XIX. A revitalização da área e o apagamento da memória africana, da chegada dos escravos no porto, são apontados de forma crítica por estudiosos e movimentos sociais.
“O grande lance da Providência é a localização. No centro da cidade, próxima ao centro financeiro do Rio de Janeiro. Hoje as elites moram na Barra da Tijuca, no Recreio, e esses são pontos muito afastados do centro financeiro. Nossa localização é privilegiada” – comenta Eron.

As disputas em torno do reservatório de água, criado em 1913 e conhecido como reservatório das lembranças, também são reveladoras das desigualdades existentes na sociedade carioca: “A água vinha até o alto do morro não para os moradores. Era para os prédios do entorno da Providência por uma diferença de nível. E era uma época que tinha muita falta d’água no morro. O governo colocava bicas públicas, mas dava muita briga. Eram poucas bicas. Um antigo morador furava os canos de ferros, fazendo ligações clandestinas. Aqui passei parte da minha infância” – conta Eron durante a visita.
No reservatório das lembranças poéticas da Providência também é preciso reivindicar Machado de Assis (1839-1908). Um dos escritores mais importante da literatura brasileira era negro e morador do morro, onde viveu a infância e ficou parte da adolescência. Apesar disso, o Machado de Assis do bairro do Cosme Velho é o mais conhecido. Num de seus livros, Machado comenta a infância no morro:

A escola era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau. O ano era de 1840. (…) Com franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agora que ficava preso, ardia por andar lá fora, e recapitulava o campo e o morro, pensava nos outros meninos vadios, o Chico Telha, o Américo, o Carlos das Escadinha… Para cúmulo de desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por cima do morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que bojava no ar, uma coisa soberba. E eu na escola, sentado, pernas unidas, com livro de leitura e a gramática nos joelhos”. ASSIS, Machado de. Conto de Escola (1884).

Na Igreja do Livramento, um grupo de educadores populares criou o Pré-vestibular comunitário Machado de Assis, nome em homenagem ao escritor. Inscrever é lembrar.

Contatos para visitação:
Cosme Felippsen – Providência Turismo: https://www.facebook.com/providenciaturismo
Eron dos Santos – Museu Comunitário do Morro da Providência: https://www.facebook.com/museuprovidencia
E-mail: museucomunitariodaprovidencia@gmail.com

Comentários

2 comments

  • Sou guia de turismo desde de 1991 e Eron é um melhor historiador da região patrimônio cultural da Providência
    Parabéns !
    Silvia

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