Museu da Maré comemora 10 anos

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Por Miriane Peregrino

São 10 anos de existência e de luta. Hoje a resistência é contra a ameaça de despejo iniciada pelo Grupo Libra, empresa proprietária do espaço onde o Museu da Maré se localiza. 

 

Foto: Miriane Peregrino
Primavera de Museus, 2014 l Foto: Reprodução Museu da Maré

Um museu de baixo pra cima

Neste domingo de Dia das Mães, a casa da memória mareense, o Museu da Maré, completa 10 anos. Inaugurado em 8 de maio de 2006 por um grupo de moradores da Maré, no maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro, o museu é uma referência nacional e internacional na área de museologia social. Isso não só porque preserva a memória das classes populares mas também por ser uma iniciativa que parte de dentro pra fora da favela, de baixo pra cima, movendo o centro do poder decisório do que é memorável na cidade.

“O museu constrói uma história vista de baixo e que se desvincula da historiografia oficial que é sempre a história dos vencedores, a história que a gente é acostumado a ouvir desde criança” – observa o historiador e morador da Maré, Humberto Salustriano, 37, – “Então, o Museu da Maré é a oportunidade de contar essa história do ponto de vista daqueles que são sempre considerados subalternos, ‘os vencidos’. O museu tem sua importância por causa disso. É uma contra-hegemonia”.

O também historiador e morador da Maré, Francisco Overlande, 42, afirma que o Museu da Maré contribui para o rompimento de estereótipos em torno da favela e seus moradores: “O fato do museu existir já é bem simbólico e representativo. Rompe um pouco com essa ideia de que museu tem que ter um perfil e tem que estar em determinadas áreas da cidade. Ter um museu na favela já rompe com isso”. Francisco ilustra essa quebra de estereótipos, contando a reação de alguns taxistas quando pede para ficar no Museu da Maré: “Quando eu falo ‘me deixa no Museu da Maré’, os taxistas perguntam: “Ué, na favela tem museu?”

A artista plástica e professora do Departamento de História de Arte da UERJ, Leïla Danziger, 54, visitou o museu recentemente e afirmou que “foi uma experiência expansiva em relação aos territórios da cidade” onde nasceu e onde vive. “Visitar o Museu da Maré implicou uma expansão na minha capacidade de imaginar a cidade, no espaço e no tempo, e me ajuda a pensar/ desejar uma cidade que vai resistindo ao capital, à especulação, às narrativas perigosamente hegemônicas, e que vai se tornando mais inclusiva, humana, complexa” – afirmou Leïla Danziger, moradora de Copacabana – “A partir do museu é possível que se compreenda que ali vivem e viveram gerações que literalmente construíram o Rio e foram perversamente excluídos do projeto da cidade maravilhosa. Claro que o Museu da Maré é fundamental para que a gente possa imaginar a cidade – imaginar em sentido forte. Precisamos não apenas da política, mas também da imaginação trazida pela arte e pela literatura para dar forma a uma cidade que seja efetivamente de todos”.

Outro aspecto importante a destacar é que o Museu da Maré não é um museu de mera contemplação. A dinâmica de aquisição de objetos e integração com o espaço amplifica seu potencial como espaço não-formal de educação. O que mais impressionou a professora Danziger foram os “conceitos que estruturam o museu e guiam a visita”. Segunda ela, a “cenografia é potente e discreta ao mesmo tempo, acolhedora, sem espetacularizar ou fetichizar a memória”.

Embora formalmente constituído como museu em 2006, as ações do Museu da Maré de preservação da memória da favela remontam aos anos 80 quando os moradores iniciaram entrevistas para a TV Maré produzindo grande material jornalístico e histórico sobre a favela.

Aulões do CPV CEASM ocupam anualmente o galpão do Museu da Maré. Na imagem, aulão sobre Ditadura Militar realizado em abril deste ano. l Foto: José Arimatéia/CPV MARÉ
Aulões do CPV CEASM ocupam anualmente o galpão do Museu da Maré. Na imagem, aulão sobre Ditadura Militar realizado em abril de 2016. l Foto: José Arimatéia/CPV MARÉ

Moradores da Maré ocupam o museu com diversas ações

Projetos internos do CEASM e projetos de grupos externos tanto da Maré quanto de outras partes da cidade, também são abrigados no Museu da Maré. Francisco Overlande que também é coordenador do Curso Pré-vestibular (CPV) da ong Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM) informou que aulas são realizadas ao longo do ano no museu.
“Desde que o museu foi criado a gente faz atividade lá até porque o museu é um projeto do CEASM. Toda vez que é necessário pra atividades extras como aulões, festas de confraternização ou qualquer outra demanda específica que exija um espaço maior, o museu é o espaço que usamos”. Francisco informa ainda que essa relação não se limita a usar o espaço físico pois educadores e educandos do curso vão ao museu também em função da programação de atividades que oferece.

O Pré-vestibular foi criado em 1997 e recebe anualmente cerca de 150 estudantes moradores das favelas da Maré e proximidades. O pré-vestibular comunitário tem um longo histórico de aprovação de jovens oriundos das camadas populares para universidades públicas no Rio de Janeiro. Só no ano passado, cerca de 30 alunos do CPV CEASM ingressaram em universidades públicas. É importante destacar que o trabalho do coletivo de educadores é voluntário, sem rendimentos financeiros.

Ontem (07/05), o jornal comunitário O Cidadão realizou uma aula do seu curso anual de comunicação comunitária no Museu da Maré. Segundo a repórter d’ O Cidadão e moradora da Maré, Valdirene Militão, 42, toda edição do curso preocupa-se em falar da história da Maré e fazer uma visita guiada ao museu, além de usar o espaço também para ministrar algumas aulas da grade do curso. “Sempre fazemos alguma atividade no museu por causa do histórico da Maré e por causa da exposição” – afirma Valdirene que também é uma das organizadoras do 4º Curso de Comunicação Comunitária do Cidadão – “Quando a gente traz alunos, quando a gente pensa uma aula aqui é uma forma de fortalecer esse espaço”.

O grupo de teatro Maremoto, que teve sua origem nas oficinas do projeto “Teatro do Oprimido na Maré” do Centro do Teatro do Oprimido na comunidade, também usa o espaço do Museu da Maré para guardar equipamentos e realizar seus ensaios. A contrapartida é realizar também apresentações no museu. Vinicius Alves, 19, morador e curinga comunitário do Teatro do Oprimido nos contou que Maremoto é um jogo de palavras que significa “Maré em movimento do teatro do oprimido”. “Como morador acho super interessante existir esse museu e a gente conseguir um espaço aqui pra fazer nossos ensaios só prova que o museu foi feito para os moradores. Tanto é que não tem só a gente aqui, também tem outras oficinas que atendem a população” – conta Vinícius Alves.

Carlos Gonçalves, 25, morador da Maré e integrante do Fórum da Juventude do Rio de Janeiro lembra que é a partir do evento que realizaram usando o espaço do Museu da Maré que começaram a divulgar o aplicativo “Nós Por Nós” no conjunto de favelas. “O Museu da Maré cedeu o espaço pra gente fazer uma intervenção aqui na Maré e potencializar a divulgação do aplicativo. O processo de divulgação do aplicativo Nós Por Nós, aqui na Maré, se iniciou aqui no Museu da Maré” – disse Carlos Gonçalves – “O museu vem sempre ajudando a gente no sentido de ceder espaço para atividades de direitos humanos, atividades dos movimentos sociais. Principalmente nesse debate sobre a questão do genocídio da juventude negra”.

Alunos do 4º Curso de Comunicação Comunitária do Jornal O Cidadão l Foto: Miriane Peregrino
Alunos do 4º Curso de Comunicação Comunitária do Jornal O Cidadão no Museu da Maré l Foto: Miriane Peregrino

Visitantes relatam sua experiência no Museu da Maré

As alunas do 4º Curso de Comunicação Comunitária do Jornal O Cidadão, Carolina Marinho, Ítala Barros, Josiane Santana e Luana de Moraes que estiveram ontem em aula no Museu da Maré comentaram suas impressões sobre o espaço. “Eu já sou formada em jornalismo mas a verdadeira escola pra mim está sendo aqui” – iniciou Carolina Marinho – “Estou tendo contato com pessoas incríveis que estão me mostrando uma outra visão do que é narrar o dia a dia de uma comunidade, como é comunicar de fato e o museu… eu tô completamente encantada. É a primeira vez que venho aqui.” Josiane Santana, que assim como Carolina é moradora do complexo do Alemão e, também ficou impressionada com o museu: “Quando coloquei o pé ali na porta e vim entrando pela salinha, eu já achei o museu fantástico. É um museu bem diferente do que a gente está acostumado a ver. E eu me senti como se eu estivesse dentro da minha casa. Quando vi aqui na casa da palafita esses quadros…” – ela disse apontando para as paredes do barraco e continuou – “lembrei muito da casa da minha avó, dos quadros, das fotos antigas. Remete muito a lembranças familiares, sabe? Essa coisa mesmo do passado, de como era a casa da nossa bisavó, da nossa avó. Achei muito aconchegante, muito familiar e me emocionou”.

Já a jovem Ítala Barros, moradora de São João de Meriti, relacionou o museu com memórias do subúrbio carioca: “Acho que hoje está sendo a melhor aula porque esse lugar é muito grande, muito bonito e tem uma riqueza de detalhes que não só recontam a história da Maré mas também falam da história do subúrbio. Acho que todo mundo que entra aqui vai encontrar pelo menos uma coisa que vai lembrar sua avó, sua bisá, alguém da sua família porque tem muito ponto de convergência!” – afirmou Ítala Barros. Luana de Moraes também achou fundamental ter aula naquele espaço: “É o tipo de comunicação que eu acredito e ver isso acontecer na prática é totalmente diferente de quando eu via e refletia sobre, né? Então, está sendo incrível pra vida, pra minha profissão. Vou pensar em outros modos para além da academia e acho que isso é fundamental”.

Uma das organizadoras do curso, Valdirene Militão lembrou do impacto que a casa de palafita exposta no museu causou em sua primeira visita: “Eu adoro o museu. O museu é a minha cara. Esse barraquinho… A minha casa, que era um barraquinho, era igualzinho a esse. A primeira vez que eu vim aqui me emocionei. Eu chorei. Minha mãe chorou. Minha irmã chorou. A minha sobrinha conheceu o lugar em que nós moramos. Porque hoje em dia as pessoas veem muita casa de alvenaria e quando você fala de barraquinho elas não tem muita noção do que é”.
Leïla Danziger, professora da UERJ, relatou que olhava as palafitas da Maré quando passava de carro pela Avenida Brasil e afirmou não saber o quanto dessa lembrança se mistura as fotos vistas.

“Essa lembrança, mesmo vaga e incerta, foi ativada pela visita ao museu, que mistura história, memória e ficção, e que assim produz e projeta identidades e destinos possíveis para os que moram na Maré e para todos os cariocas. Ali, todos são convidados e acolhidos – os que vivem nas comunidades da Maré e os que passam de carro ao longe, e pela visita ao museu, podem incluir aqueles territórios da cidade a partir de outros parâmetros, distintos da violência propagada pela mídia” – analisa a professora – “O Museu da Maré – naquele lugar específico, com a sua história específica (que resiste à especulação…) – é fundamental para que a cidade resista e se abra em narrativas múltiplas, em possibilidades de vida mais dignas, porque marcadas pelas memórias e singularidades de cada um, de cada grupo, de cada geração…”

18.10.2014
Entre os estandartes do museu e as armas da força de pacificação, o ato em defesa do Museu da Maré saiu, em 2014, em direção à Avenida Brasil l Foto: Fernando Frazão
 
Favela tem direito à memória: situação atual do Museu da Maré
 
Desde setembro de 2014 quando o Museu da Maré recebeu a notificação de despejo do Grupo Libra de Navegações, a equipe do museu (na qual eu me incluía na época) realizou uma campanha pela permanência do museu no prédio. Naquele momento, o Conjunto de Favelas da Maré estava ocupado pelas forças armadas numa tentativa do Estado em promover segurança (ou pelo menos sensação de segurança) para os turistas nacionais e estrangeiros que enchiam a cidade para a Copa da Fifa no Brasil. A especulação imobiliária, que ocorre com a militarização das favelas cariocas após implantação das UPPs e também em medidas ditas urgentes como ocupação via forças armadas, pareceu ser a principal causa do pedido de devolução do imóvel. Passados quase dois anos, a campanha que tinha começado com grande participação popular contra o despejo do museu na Avenida Brasil passou a manifestações mais tímidas de apoio e muitas tentativas de diálogo da direção do museu com o Grupo Libra de Navegações via poder público.

Segundo a coordenadora do Museu da Maré, Cláudia Rose Ribeiro, a situação do museu não avançou muito: “A situação do museu continua praticamente a mesma. O documento que garantia a nossa permanência era válido até dia 1º de março e o prazo acabou. Não houve nenhuma assinatura de um outro documento prorrogando. Então, o que a gente sabe é via secretaria de cultura do estado que conversa com os representantes da empresa. Eles prorrogaram até 1º de maio a nossa permanência, mas esse informe não tem uma consequência legal porque não houve assinatura de nenhum documento” – relatou Cláudia Rose.

Com o fim da última prorrogação em março deste ano e uma prorrogação verbal que terminou em 1º de maio deste mês, o Museu da Maré não tem mais nenhum instrumento legal que viabilize sua permanência definitiva ou mais uma vez provisória no prédio situado na Avenida Guilherme Maxwell, no Morro do Timbau. Cláudia Rose informou que aguardam encaminhamento do Ministério da Cultura, mas lembrou que a atual conjuntura de disputas no plano do governo federal interfere no andamento do processo: “A gente está em parceria com a Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro e o Ministério da Cultura. O Ministério da Cultura está vendo possibilidades de como resolver essa situação de forma a beneficiar o museu para que o museu fique. Mas aí a gente está numa situação limite porque a votação de afastamento da Dilma vai ser dia 11, então todo o governo vai funcionar até dia 11. Dia 12 já pode mudar tudo” – disse Cláudia Rose.

Segundo Luiz Antônio de Oliveira, um dos diretores do Museu da Maré, as disputas e problemáticas em torno do Museu da Maré ganham contornos cada vez mais complexos pois a empresa proprietária do imóvel está associada ao PMDB, principal partido de oposição a permanência do atual quadro do PT no governo. “Isso já é público qualquer pesquisa no Google você verifica que existe uma ligação do Eduardo Cunha com o Grupo Libra, do Temer também, através de emendas parlamentares aprovadas em Brasília para favorecer o Grupo Libra em licitações e outras coisas mais. É público também que eles apoiam campanhas eleitorais aqui no Estado do Rio de Janeiro e algumas a nível nacional também. Então, tem esse elemento político também que pode nos favorecer ou desfavorecer, depende de como as coisas vão se dar” – relata Luiz Antônio antes de concluir – “Inclusive a ligação do Grupo Libra com o PMDB ficou evidente naquele vídeo do Gregório Duvivier em que ele cita a relação do Temer com o Grupo Libra. Tem essa questão política aí”.

Luiz Antônio continua: “A postura do pessoal da Libra é bastante intransigente não só conosco mas com os poderes públicos também. Mais recentemente, o IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus) também entrou com mais força, a gente acredita que por conta de um pedido do Boaventura de Souza Santos, o sociólogo português, que se encantou com o museu e dialogou bastante conosco. Ele fez uma atuação junto ao Ministério da Cultura no sentido de ver quais caminhos poderiam ser feitos para evitar o despejo. Em relação a prefeitura nós não temos nenhum tipo de apoio, não se colocaram no sentido de viabilizar alguma coisa a favor do espaço, do museu e de nossas ações” – declarou Luiz Antônio. Dessa forma, com o quadro político atual, as incertezas em torno do futuro do Museu da Maré aumentam. “Se o ministro não assinar nada a nosso favor até o dia 11, acredito que dia 12 já não dê mais” – complementa Cláudia Rose – “É essa a situação. E a equipe do museu já decidiu, e isso já decidiu há muito tempo, que não vai sair a não ser que seja tirada. E aí pra tirar tem aquela questão da justiça, ordem de reintegração de posse, a polícia vai vir cumprir a ordem, é isso. É isso o que vai acontecer se não houver nenhuma solução favorável ao museu”.

A jovem Barbara Assis, 18, moradora da Maré, atriz e integrante do grupo de contação de histórias do Museu da Maré afirma que o museu não pode sair daquele espaço: “Esse museu tem uma história, tem marcas, existem pessoas do mundo inteiro que passaram por aqui. Não existem palavras que possam expressar o que eu sinto em relação a essa remoção. Mas o que mais pode descrever o que eu sinto é a noção de desumanidade, falta de amor pelo próximo. Se você olhar com olhos da sensibilidade, você vai ver que esse espaço não pode estar em outro lugar a não ser aqui” – disse Bárbara Assis lembrando a relação afetiva que envolve espaço, memória e moradores.

Segundo Leon Diniz, professor de geografia do CPV Ceasm há mais de 15 anos e um dos colaboradores na ocupação do espaço do museu, a fragilidade legal do Museu é fruto de um jogo político há muito tempo praticado pelas classes dominantes: “Na hora de aparecer os Beltrames da vida, os Eduardo Paes aparecem, mas na hora de efetivamente fazer alguma interferência que beneficie o morador o poder constituído se lixa pra isso” – resume Leon Diniz.

O quadro de políticas públicas do Rio de Janeiro – não só para realização dos megaeventos esportivos mas também para viabilização de uma cidade mercadoria em com processo de gentrificação – atinge comunidades da zona sul à zona oeste, além de territórios estratégicos como o conjunto de favelas da Maré, na zona norte, e vem revelando a fragilidade de ações comunitárias em diversas frentes – cultura, educação, direitos humanos, etc – diante do poder empresarial legitimado através do dinheiro, do capital, que determina muitas das ações governamentais.

Hoje mesmo, além do Museu da Maré, mais dois museus comunitários sofrem ameaças de despejo: o Museu de Favela (MUF) no Pavão, Pavãozinho, Cantagalo e o Museu do Horto localizado no próprio Horto. Thainã Medeiros, morador do complexo do Alemão e idealizador do Museu das Remoções na Vila Autódromo, área devastada pela Prefeitura do Rio de Janeiro sob a justificativa de construir o Parque Olímpico, afirma que a memória é um forte instrumento de construção de identidades e de resistência e comunidades como a Aldeia de Imbuí, em Niterói, e Horto, no Rio, usam documentos antigos para comprovarem que não são invasores e ocupam essas comunidades há muito tempo, ou seja, usam ferramentas de memória. “Analisando quais são as forças que estão ameaçando esses museus, acho que existe um empenho muito pequeno para se fortalecer a autonomia desses museus dentro de realidades de favelas” – declara Thainã Medeiros – “Eu sou pouco esperançoso em relação ao formato tradicional de museu conseguindo uma resistência. O formato pedra e cal conseguindo alguma resistência sem um fortalecimento institucional. E quem vai dar esse fortalecimento institucional dificilmente vai ser o governo ou alguma coisa assim. Eu tenho pouca esperança, principalmente, no atual momento político que a gente tá vivendo. Tanto municipal quanto estadual, quanto federal. Tenho pouca esperança de que vai haver um fortalecimento dessas instituições a partir dessas outras instituições”.

Podemos, sob certa medida, aproximar a situação de instabilidade física desses museus comunitários com a da Associação de Moradores da Vila Autódromo. Depois que a casa onde funcionava a associação foi demolida pela Prefeitura do Rio de Janeiro, a associação passou a ser itinerante, se deslocando da casa de um morador para outro conforme avançam as remoções. Nas casas que ainda estão de pé, podemos ler “Associação de Moradores”. Nesse processo exaustivo de remoções no qual os moradores estão constantemente criando estratégias de luta para se reinventarem e fortalecerem, a Associação de Moradores deixou de ser de pedra e cal para ser de carne e osso representada na figura física do próprio morador que resiste a remoção. Essa atitude lembra o ditado mexicano que diz: “Tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos sementes”.

FOTO 5: Contação de história é uma das ações do Museu da Maré. Na imagem, Marilene Nunes e Matheus Frazão encenam “O casamento na palafita” do livro Contos e Lendas da Maré. l Foto: Reprodução Museu da Maré
Contação de história é uma das ações do Museu da Maré. Na imagem, Marilene Nunes e Matheus Frazão encenam “O casamento na palafita” do livro Contos e Lendas da Maré. l Foto: Reprodução Museu da Maré

A luta continua! Programação do Museu da Maré 10 anos

Às classes populares, o direito à moradia residencial e o direito à moradia da memória são constantemente negados, somando-se a lista de violações de direitos humanos em curso numa cidade que, cada dia mais, é feita para ser mercadoria, produto na prateleira de quem tem dinheiro e pode pagar pelo silenciamento da grande mídia e a conivência de muitos políticos. A capacidade da população pobre de se reinventar é inegável, mas até que ponto essas comunidades vão ter que se reinventar? Até que ponto o pobre vai ter que criar e recriar alternativas contra-hegemônicas? O tempo do futuro é uma interrogação. Mas uma interrogação que é respondida pela prática diária de luta contra o sistema capitalista e por uma sociedade mais digna e justa para todos.

A comemoração dos 10 anos do Museu da Maré vai incluir a produção de um documentário e a publicação de livros, além do Chá da Memória que será realizado dia 19 deste mês. “Os 10 anos caem num domingo, que cai no dia das mães, aquelas coisas. Então a gente resolveu fazer uma programação na Semana Nacional de Museus que é do dia 16 a 22 de maio” – informou Cláudia Rose, coordenadora do Museu da Maré – “Na verdade, dia 12 teremos a 1ª oficina de construção coletiva do documentário “Museu da Maré 10 anos”. Vai ser dia 12, às 15h e a gente vai abrir para as pessoas contribuírem. Na verdade, a gente está convidando pessoas, é aberto. Quem chegar, chegou, e a gente vai construir o vídeo juntos”.

Segundo o diretor, Luiz Antônio, o Museu da Maré também fará a publicação de alguns livros como parte das comemorações dos 10 anos do Museu da Maré. “Um sobre os doze tempos da Maré que é um livro de imagens com alguns textos sobre os tempos do museu. E o outro sobre a Baía de Guanabara com alguns artigos escritos pelo Magalhães Correa, que escrevia para o jornal Correio da Manhã e chegou a fazer o livro “O sertão carioca” (1936). O livro será um subsídio muito bom para historiadores. Até o final do ano, pretendemos lançar uma edição revisada do ‘Contos e lendas da Maré’. Também pretendemos fazer um livro sobre o bairro Maré, mas isso está sendo visto, vai depender de recursos para publicação desse livro”. – contou Luiz Antônio.

O Museu da Maré irá disponibilizar em sua página no facebook a programação completa de aniversário. Não deixe de acompanhar por lá: http://facebook.com.br/museudamare

 

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Comentários

2 comments

  • O Museu da Maré não pode acabar, temos que arranjar um movimento coletivo dentro da maré e ganhar a sensibilidade da comunidade mareense e reverter esta situação, ainda dá. tempo e todos, em um esforço concentrado fazer a coisa andar a nosso favor.
    TRAÇEMOS UM PLANO E DIVULGUEMOS ÀS FORÇAS DE LIDERANÇA DA REGIÃO, MOSTRANDO A IMPORTÂNCIA DESSE ESPAÇO PARA TODOS NÓS E O ENTORNO.

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