Museu da Rocinha realiza ação sonora-visual na praça

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Por Miriane Peregrino

Na sexta-feira, 10 de junho, o Museu Sankofa História e Memória da Rocinha realizou uma ação sonora-visual sobre paisagens culturais e memórias da favela em parceria com o Instituto Moreira Salles na Praça da Rua 4. A atividade ocorreu no final da tarde, hora de rush, chamando atenção dos moradores que chegavam do trabalho, crianças e adolescentes que iam ou voltavam da escola. Quem não podia parar e assistir o curta “Memória Rocinha”, não deixava de esticar o pescoço para a tela de televisão exposta em cima de um carro, com quatro caixas de som, tentando acompanhar o que estava acontecendo. Além do vídeo, circularam áudios com depoimentos de moradores e vários monóculos com fotos antigas de Marc Ferrez e Augusto Malta e fotos recentes da Rocinha.

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Moradores de diversas idades escutam áudios da ação promovida na Praça da Rua 4. l Foto: Miriane Peregrino

O estudante de história da UNIRIO e morador da Rocinha, Vitor Rodrigues, soube da ação através das redes sociais e foi conhecer o projeto: “A partir da entrevista do Martins, eu pude ouvir uma Rocinha que eu não conhecia e, ao mesmo tempo, ver esse paralelo com o presente que eu vivencio. Achei muito legal e também gostei de saber como é a participação dele na comunidade”. Vítor conferiu as imagens nos monóculos e ganhou um deles como lembrança da exposição.

Antônio Carlos Firmino, morador da Rocinha e membro do Museu Sankofa, afirma que é preciso dinamizar as formas de preservação da memória local: “É preciso trabalhar memória e história fora de uma caixinha. Não desvalorizando os museus tradicionais, mas temos que entender a dinâmica de onde nós estamos para trabalharmos a memória de uma forma diferente. O cotidiano da favela entra como memória e história. Você tem que saber os códigos locais para avaliar se você pode ou não fazer uma atividade, por exemplo”.

O morador José Ricardo Duarte Ferreira, presidente da Associação de Moradores da Laboriaux e Vila Cruzado, também estava presente na ação sonora-visual e falou sobre a importância da preservação da memória: “É preciso ver com as pessoas se querem que mudem a história delas. São elas que tem que decidir e hoje quem faz isso é o governo. Foi ele que acabou com a Bica das Almas para poder colocar o metro. É o governo que muda o nome das ruas de uma forma que não respeita a opinião e a história dos moradores, é ele que cria os sub-bairros da Rocinha” – e lembra o caso da passarela da comunidade – “A passarela da Rocinha hoje é conhecida como a passarela do Niemeyer, mas e as nossas lutas pela outra passarela?”

Antônio Carlos Firmino, geógrafo de formação e museólogo orgânico como ele afirma, nos contou que o Museu Sankofa fez um dossiê sobre as outras passarelas da Rocinha, justamente, para que o processo de luta e reivindicação popular não seja esquecido: “Temos um dossiê das conquistas da 1ª passarela porque quando construíram o túnel não construíram passarela e muitas pessoas foram mortas pelos carros. O povo conquistou a passarela. Era uma passarela velha que foi retirada da Avenida Brasil e veio pra cá, depois teve inauguração. Agora temos a passarela Oscar Niemeyer. Mas não podemos esquecer a história, porque a conquista da passarela foi dos moradores e no período da ditadura, é preciso trazer esse contraponto não se pode apagar uma história e prevalecer outra” – afirma Firmino.

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O morador José Nilson, 57 anos, olhou as imagens dos monóculos e afirmou gostar da iniciativa. l Foto: Miriane Peregrino

A criação do Museu Sankofa

Embora idealizado há alguns anos, o Museu da Rocinha nunca teve sede própria e nem CNPJ mas conta com um espaço físico cedido pela Prefeitura do Rio de Janeiro onde guardam os documentos doados por moradores e podem realizar digitalização do acervo. O museu também é Ponto de Memória pelo Ministério da Cultura. “Como o pessoal do MUF (Museu de Favela) fala: tem que ter uma base. O espaço físico do museu vai ser uma base não só para organizarmos o acervo e termos uma exposição permanente, mas também recebermos exposições itinerantes, debates, cursos, cozinha, teto verde, teto solar. Isso não é coisa nova, já existia. O morador não tinha luz, aí arrumava um jeito de ter luz solar na sua casa. Não tinha água encanada. As pessoas já se organizavam para pegar água da chuva. O que hoje é politicamente correto, já existia em função das necessidades de muitas pessoas” – lembra Antônio Firmino – “Nossa educação para museu é de ter um espaço físico”.

O historiador e morador da Rocinha, Fernando Ermiro, também relata a criação do museu: “O museu propriamente dito, institucionalizado, a gente pensa a partir do plano cultural da Rocinha que teve a participação de um coletivo grande, muito representativo. Tinha gente do teatro, da música, da poesia e tinha gente de fora também. Tinha o Luiz Paulo Conde que era o secretário de cultura. Fizemos um documento grande e duas coisas propostas que me lembro bem foram a criação de um museu para Rocinha e a necessidade de construção de um prédio, o Centro de Cultura, Convivência e Comunicação, o C4, que depois veio a ser a Biblioteca Parque da Rocinha”.

Desde 2007, o coletivo que forma o Movimento Pró-Museu Sankofa desenvolve ações de preservação da memória da Rocinha com destaque para os Chás de Museu onde os moradores são convidados a doarem objetos e/ou saberes e histórias e os Chás de Birosca onde relembram e mapeiam com os moradores onde eram as biroscas da favela: “A birosca aqui é um estabelecimento que vendia secos e molhados, era um espaço de produção cultural também e a gente precisa falar mais disso” – conta Antônio Firmino.

Em um dos Chás de Museu, a moradora Rose Firmino observou que as reuniões eram predominantemente masculinas e propôs um chá de memória feminino. O resultado foi organizado por Fernando Ermiro e está no livro “Memória feminina em três tempos” (2012) que reúne os depoimentos de moradoras de várias gerações. Mesmo reconhecendo a necessidade de ter uma sede para preservação e guarda de documentos, o Museu Sankofa é concebido como um museu de percurso: “A Rocinha inteira é um museu. Claro que eu preciso de uma referência, todo mundo quer trabalhar com referência. Onde é que fica a sede do museu? Nesse momento, ela funciona na RA, lá em cima na rua 1. Mas eu quero contar a história da Rocinha e a Rocinha inteira tem história pra contar, então, eu não posso ficar limitado à rua 1. A rua 1 tem memória. Claro que tem! A colonização da Rocinha começa pela rua 1, mas cada beco tem memória, cada sub-bairro tem a sua história. Então, eu posso contar a história da Rocinha através do caminhar. Aqui eu tenho a subida da Cachopa que conta uma história também. O próprio nome Cachopa tem uma história. A luta pra permanecer na Cachopa tem uma história também” – explica Fernando Ermiro.

Por ser um museu de percurso, o Museu Sankofa se aproxima da noção de caminhada turística, mas Ermiro aponta as diferenças: “O museu trabalha com percurso, muito parecido como o turismo, mas no viés cultural diferente da questão turística pura e simples. É turístico, mas é museológico também, histórico, cultural, memorial. A gente tem, vamos usar o termo militar, a gente tem incursões turísticas na Rocinha desde 92. Pesadas, grandes, maciças. Eu guardo bem essa data por causa da Eco 92. O que se vê hoje de muito comum não é novo, tem mais de 20 anos e isso vem sendo sistematicamente repetido, por meses, anos, décadas, todos os dias. Agora a gente tem umas 5 operadoras de turismo aqui dentro”.

Fernando Ermiro, assim como outros moradores da Rocinha, acredita que o turismo deveria ser um instrumento usado pelos próprios moradores, gerando recursos para a comunidade: “Um marco interessante da UPP, que eu vejo que não é bom, é que a Rocinha pertence a cidade, mas a gente pertence como objeto. Você me pertence, então, eu posso te explorar mais uma vez. Vocês devem me aceitar batendo na sua porta e tirando a sua foto. Isso é ser cidadão? Eu pertenço a cidade perdendo até a minha imagem? Se é pra eu perder que eu ganhe com isso, que o morador leve com isso. Porque que o guia turístico não é da Rocinha? Porque o cara de Ipanema pode explorar a Rocinha, mas o cara da Rocinha não pode explorar Ipanema? Qual a lógica por trás disso? A favela não se transforma com esse dinheiro. Tem o slumming tour, entram pra ver o pior possível. Isso foi ampliado após a UPP”.

FOTO 4: Muro Marcando Memória e História da Rocinha foi realizado em 2010 e traz o histórico do projeto do museu e uma explicação sobre a escolha do símbolo Sankofa. Os grafites que falam do museu ficam na Estrada da Gávea e estão visíveis a todos os moradores e visitantes da Rocinha. l Foto: Miriane Peregrino
Muro Marcando Memória e História da Rocinha se estende em parte da Estrada da Gávea e apresenta o Tempo dos Mutirões como um dos tempos de memória da Rocinha. L Foto: Miriane Peregrino

Rocinha, os megaeventos esportivos e outras ações sonoras e visuais

A Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) foi instalada na Rocinha em 2012. Dentre os recorrentes casos de abuso de autoridade, o mais conhecido é o do desaparecimento do pedreiro Amarildo, em julho de 2013, e que resultou no grito de indignação coletiva “Cadê o Amarildo?”. Sobre a preservação da memória do Amarildo, Fernando Ermiro afirmou que conhecem a família e um museu não é um jornal: “É preciso dar um tempo, senão a gente vira um jornal sensacionalista”.

O morador Ricardo Santos conta que abusos dos policiais são recorrentes: “Os policiais são muito abusados. Todo mundo pra eles é bandido e traficante. Eles não respeitam a gente como cidadão. Eles respeitam de São Conrado pra lá. Aqui eles não querem saber quem está na linha de tiro. Tudo pra eles é desacato”. A falsa sensação de segurança promovida pela implantação da UPP, além de impulsionar o turismo dentro da Rocinha também está relacionada ao aumento de mercadorias e serviços dentro da favela e à especulação imobiliária. “A Quadra dos Acadêmicos da Rocinha não é mais nossa. Os eventos que tem lá são super caros. A Favorita é um desses eventos, cobra 300 reais. Como é que um morador que recebe um salário mínimo e, às vezes, ainda paga aluguel, vai pra um evento desses? Agora que está voltando o Emoções porque a quadra da rua 1 a gente perdeu. O Emoções da Rocinha é o baile mais tradicional da zona sul” – afirma Mc Júnior, morador da Rocinha.

A ameaça de remoções também continua. Segundo José Ricardo Duarte Ferreira, o Laboriaux fica no extremo da Rocinha e é um ponto que desperta grande interesse imobiliário e foi formado a partir de um conjunto habitacional de 72 casas. José Ricardo afirma que o mesmo governo que colocou as pessoas lá não acompanhou o crescimento populacional da área e hoje já são 800 famílias com habitações crescendo de forma desordenada. “A ameaça de remoção sempre vai existir” – diz José Ricardo – “Em 2010, nós tivemos problemas pontuais em decorrência da chuva e em decorrência de abandono também. Porque em 2010, as áreas que desabaram já tinham notificação da GeoRio há 15 anos. Então, é ou não é um abandono? No lado da Gávea foi feita a obra, o lado da Rocinha até hoje é área de risco. É uma vergonha. Fizeram 50% da Rocinha porque são os fundos da casa de um Pitanguy, é o fundo da casa da família Marinho, é o fundo da casa de um ou outro figurão”.

A criminalização do funk e a privação de usos de espaços públicos também são queixas recorrentes de moradores em favelas pacificadas pelo Estado. “A intenção deles é acabar e eliminar o funk como se o funk fosse som de bandido. E as pessoas vivem do funk. Eu vivo do funk há 23 anos com o meu irmão. Até hoje eu pago as minhas contas com meu funk” – declara Mc Júnior – “O funk emprega tanta gente. É o DJ, é o cara que vende um cachorro-quente ali, o que vende um churrasquinho e querem acabar com uma cultura dessas? Até hoje o funk é perseguido, ficou vários anos sendo tratado pela secretaria de segurança e o funk é cultural. Conseguimos tirar o funk de lá, através da Apafunk (Associação dos Profissionais e Amigos do Funk), e fazer com que o funk fosse pra secretaria de cultura. Tem que respeitar a gente. Funk não é coisa de bandido não”.

Mc Júnior e seu irmão Leonardo são autores de funks famosos como “Rap das Armas”, “Pra Sempre Favela” e “Tá tudo errado”, narrativas do presente que também são memória.

“Sou favelado e exijo respeito
São só meus direitos que eu peço aqui
Pé na porta sem mandado
Tem que ser condenado
Não pode existir”
Tá tudo errado – Mc Júnior e Leonardo

A narrativa literária de moradores da Rocinha também chama atenção. Além de livros voltados para a questão do turismo e mapeamento cultural realizado pelos próprios moradores, como a “Agenda cultural da Rocinha” (2012), de Ana Mary, e “Um olhar cultural sobre a produção cultural da Rocinha” (2013), de Davison Coutinho, temos romances e poemas dos escritores Carlos Costa, Joilson Pinheiro, Eliana Senna e Raquel de Oliveira. No sábado, dia 11, o professor da Faculdade de Letras da UFRJ e ex-morador da Rocinha, Paulo Roberto Tonani do Patrocínio lançou seu último livro, “Cidade de Lobos: a representação de territórios marginais na obra de Rubens Figueiredo”, na Biblioteca Parque da Rocinha no “Encontro autor-leitor”.

A comunicação comunitária também vem se revelando um importante espaço para preservação da memória local. É o que confirma Michel da Silva, estudante de jornalismo da PUC Rio e morador da Rocinha, membro do Jornal Fala Roça: “O Fala Roça também segue essa rota e busca preservar a identidade da cultura nordestina na Rocinha. O museu busca digitalizar fotos dos moradores e o jornal possui o intuito de preservar através de reportagens com moradores”.

Lembramos que o primeiro jornal comunitário da Rocinha foi o Tagarela, de papel ofício mimeografados que divulgava as conquistas dos moradores nos anos 80: água, luz, transportes, passarela e a eliminação de valas. Antônio Firmino informou que só houveram 25 números do Tagarela mas que ele cumpriu importante papel para a favela.
Os mutirões para limpeza das valas viraram ainda tema de samba composto pela moradora Maria das Dores. O trecho a seguir está reproduzido no livro “Varal de Lembranças” (1983), organizado pelas professoras Lygia Segala e Tânia da Silva.

“Vem, vem, vem comigo trabalhar!
Vamos limpar a vala pra favela urbanizar!
Você mora do lado de lá,
Eu moro do lado de cá,
Quando a vala enche
A gente não pode passar”

Segundo Antônio Firmino, o trabalho que resultou nesse livro é a base da preservação da memória da Rocinha. “Não é uma ideia nova trabalhar a história e memória da Rocinha. O próprio livro ‘Varal de lembranças’ é um inventário participativo que foi feito de forma coletiva. A professora Lygia com o morador Seu Inácio, fez uma provocação aos alunos de alfabetização sobre identidade cultural e eles começaram a fazer uma pesquisa e essa pesquisa fizeram andando pela Rocinha, conversando com as pessoas. Então, preservar a memória não é uma coisa nova aqui” – conta Antônio Firmino – “Eu acho essa obra incrível. Primeiro, por ter sido produzido por moradores que estavam em processo de alfabetização discutindo identidade local e cultura; segundo, por ter sido feito no período da ditadura; e, terceiro, por ter a associação de moradores naquela época envolvida nesse processo. Todas as associações de moradores da época estavam sob vigilância do DOPS, eu tive esse documento nas mãos. Então, tudo isso me chama a atenção sobre o valor dessa obra. Uma das ações que queremos fazer em breve é uma exposição do ‘Varal’, não com intuito de reproduzi-lo, mas para compartilha-lo em outro formato”.

Dentre as suas ações, o Museu Sankofa* realiza em parceria com Museu do Horto, também um museu comunitário, o percurso do Capim Milagroso que parte do Parque da Cidade para o Horto e precisa ser agendado. As visitas para realização desse percurso e de outros tem custo a ser combinado com o museu e que é revertido para sua manutenção. Para agosto desse ano, o Museu Sankofa programa a realização de oficinas de educação patrimonial e inventário participativo.

*Sankofa é uma palavra Akan das nações africanas de Ghana e Costa do Marfim que significa: ‘devemos olhar para trás e recuperar nosso passado, assim podemos nos mover para frente, assim podemos compreender porque e como viemos a ser quem somos’”. Fernando Ermiro em “Memória feminina em três tempos” (2012).

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