O Cidadão: memória e resistência favelada

Geral, Notícias
 Por Gizele Martins
Fazer comunicação comunitária não é algo tão simples, são inúmeros os detalhes que é preciso lidar para que se faça, por exemplo, um jornal comunitário como ‘O Cidadão’ que circula há 15 anos no Conjunto de Favelas da Maré, favela localizada na Zona Norte do Rio de Janeiro. O cuidado nas palavras, nos adjetivos, nas fotos e nas charges são mais que necessários, já que temos total compromisso com aquele local em que ele circula, lugar em que a maioria da equipe mora. 
Foto por Márcia Alves
Foto por Márcia Alves
 
Diferente dos meios mais tradicionais que não tem compromisso algum com as suas fontes e com o seu leitor, que apenas quer vender produto e colocar uma falsa fala para reproduzir conceitos de uma sociedade machista, excludente e racista, nós temos que colocar como prática o respeito com o morador. Pois, estaremos mostrando ele, o morador. Estaremos ali relatando a fala dele, a simplicidade, a emoção, a alegria, o orgulho, a tristeza e a experiência dele. Estaremos relatando a própria história, a vida, a realidade dele. O laço de confiança necessita ser real, é uma troca, é um trabalho em conjunto. 
 
O comunitário ‘O Cidadão’ serve para valorizarmos e colocarmos em pauta aquilo que os grandes meios não mostram sobre nós favelados. É, por isso, que defendemos nele a ideia de somos sim ‘mareenses’, ‘favelados’, ‘parte desta cidade e não margem’. O objetivo é defender o nosso próprio local de moradia mostrando o quanto nós somos esquecidos por este Estado que nos mata todos os dias. A ideia também é o de mostrar para além disso, é colocar em pauta a nossa alegria, a nossa cultura, aquilo que o favelado valoriza tanto, mas que ao atravessar os muros visíveis e invisíveis da cidade somos criminalizados apenas por gostarmos e fazermos a nossa cultura popular, ou pela cor da pele, pela fala, pela escolaridade, pela forma de se vestir, enfim…tudo é motivo para nos criminalizar nesta tal sociedade dividida entre ricos e pobres.
 
Por que defender o termo ‘mareense’? Porque é defendendo um simples termo que percorreremos a favela mostrando que somos parte desta identidade local, que um conjunto de favelas como este pode em suas diferenças e particularidades ter como foco a luta por este lugar em que historicamente é criminalizado por apenas existir. É mostrar que a luta pela moradia, pela música popular, pela coleta de lixo, pela água, pela comida, pela circulação dos correios em nossas ruas, é uma luta que merece ser valorizada a cada dia, é relatar ainda que podemos juntos melhorar cada vez mais este local que construímos e juntos, mostrar também que a nossa luta vale muito a pena e que a palavra ‘resistir’ nunca saiu e não deve sair de moda. 
 
Ou seja, comunicação comunitária – no caso do O Cidadão – é memória da resistência favelada mareense, é guardar com muito orgulho toda essa luta que a gente vem fazendo há anos em nossas moradas. Viva a comunicação comunitária! Viva a resistência popular!

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