Um olhar sobre ex moradores da Telerj

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Foto por Niche Lu
Foto por Niche Lu

Chove.

Em frente a prefeitura  há muitos policiais, olho do ônibus e peço para descer.

Caminho.

Grupos de pessoas olhando para o batalhão de choque que olha fixo, alguns batem papo entre eles, outros simplesmente olham, outros  caminham entre as pessoas deitadas no chão.

Há muitas pessoas, ex-moradores da Telerj. Deitadas no chão, com as poucas pertences: idosas, homens, mulheres. 

Jovens amamentando seus filhos. Gente sentada no asfalto, olhando para o batalhão, olhando fixo para a prefeitura.

Vou atravessar  a rua, esperando no sinal uma mulher: morena, de salto alto, funcionaria de algum dos prédios que estão por perto, com ela dois homens. Batem um papo:

“Poxa, eu queria tirar dinheiro mas olha só, tem dois ali, todos bandidos! Saco! Como que eu faço, tô com medo. Todos bandidos!”

Eu não aguento e falo:

“Não, tem criança ali, não ta vendo? Nem todo mundo…”

Ela me olha e fica sem graça e caminha. Caminho também.

Estou nervosa, não sei como começar,  muitas mulheres do outro lado da rua. Sentadas no asfalto, na calçada. Ocupando bancos e escritórios.

Roupas sujas, silenciosos, com raiva nos olhos, impotência. Alguns lancham, outros batem papo, outros falam pelo celular, olhos fechados.

Os funcionários de Bradesco e Itaú olham pela janela com medo.  Medo de aqueles sem teto, sem arma, sem roupa, sem casa. 

 Chove.

Decido me apresentar para algum dos grupos, acordei com a ideia de que tinha que vir pegar algum depoimento.

Mas como?  São tantos! Tantas!

Vou e falo, peço licença: se alguém esta aqui com alguma roupa do trabalho, alguma ferramenta de trabalho para fotografar. Um depoimento, sem nome, sem rosto.

As mulheres me olham e uma delas diz: sim! A minha prima ta lá!

E a chama.

Eu explico de novo, com calma ela começa a falar:

“To com a blusa do meu trabalho. Tenho 34 anos sou vendedora no Mercadão de Madureira, sou vendedora de uma loja de chinês entendeu ?  Nós viemos para cá com meus familiares para poder ver o que que o Prefeito Eduardo Paes decide sobre a nossa situação, porque eu também precisei pegar um pedaço da invasão que era do prédio da Oi, eu também estava lá porque eu morava de aluguel , minha irmã mora de favor, minha outra prima mora de aluguel e nós estamos querendo um aluguel social, um apartamento, deviam encaminhar a gente a uma moradia  adequada. Eu pedi a minha patroa  para me liberar mais cedo para poder ter que vir para obter uma resposta, porque estava todo mundo me ligando , falaram que era para vir, que íamos ter uma resposta aqui na Prefeitura, que estavam tendo uma reunião e, a gente está aguardando.

Porque cadastrada no “Minha Casa Minha Vida” eu já sou, desde 2010, estamos em 2014 e já tem 4 anos …fui sorteada?   Fui sim, em 2011 mas as coordenadoras  que me cadastraram na quadra do Jacarezinho botaram meu endereço errado , fui sorteada em 2011, não tinha como a carta chegar no meu endereço porque meu endereço estava incorreto e por isso perdi a oportunidade de ganhar um apartamento no “Minha Casa”. O risco é até de perder meu trabalho, de minha patroa me mandar ir embora. Mas ter uma moradia própria, descente, adequada para viver é o que importa, trabalho eu posso arrumar outro, mas por enquanto, como eu ajudo muito ela, a minha patroa está compreendendo a minha situação, entendeu?”

Agradeço. Vou até outro grupo.

Não querem falar, mas dizem: “Aqui todo mundo esta ficando desempregado por conta do que aconteceu, estamos esperando uma resposta.”

“Atropelaram um menino, rolou choque, eu não quis nem ver”.

Caminho até uma pracinha perto.

Ali, algumas pessoas  estão sentadas falando.

Uma família: pai com camisa de trabalho, duas crianças, a mulher.

Lancham.

Cumprimento e pergunto:

“Vocês são também da ocupação da Telerj?”

Ele diz que sim com a cabeça, me olhando desconfiado.

Falo a mesma coisa: “Estou a procura de um depoimento, tirar um objeto cotidiano ou roupa de trabalho…

Ele me olha e diz: “Eu, eu não sou bom para dar depoimentos, não.”

E Fica calado.

Olha para a mulher, ela  nega com a cabeça.

Medo? Talvez.

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