Texto e foto da capa por Ana Cristina da Silva
Entrevista realizada por Ana Cristina da Silva e Christóvão Carvalho
Ismael dos Santos Souza tinha 13 anos de idade quando entrou no mundo do tráfico. Nascido e criado na comunidade da Nova Holanda, por volta dos seus 16 anos ele chegou a tomar um tiro no rosto, durante uma operação policial. Essa poderia facilmente ser apenas uma história trágica, mas o que você está prestes a ler, leitor, é uma história sobre fé, perseverança e, acima de tudo, uma história sobre sonhos. Afinal, contaremos agora como Ismael deixou o tráfico e, aos 26 anos, se tornou uma referência como barbeiro na comunidade.
Desde pequeno, Ismael já se enxergava como um garoto esforçado e sonhador. Frequentava a escola e ia à igreja com a avó. Desde cedo que ele tinha o desejo incessante de conquistar reconhecimento, de ser alguém importante. Ele e o irmão mais velho nasceram e se criaram na Nova Holanda. Seu pai, que havia sido obreiro na igreja, trabalhava fora como mecânico enquanto sua mãe trabalhava com limpeza hospitalar.
É como nos jogos: toda ação traz consequências, cada escolha abre brecha para diferentes caminhos a serem seguidos. Não se sabe o ponto exato em que a vida de Ismael começa a mudar, mas o momento em que sua mãe sofre um acidente no trabalho e precisa deixar o emprego é crucial para essa história.
ENVOLVIMENTO
No período em que ficou desempregada, a mãe de Ismael chegou a ter outras duas filhas. Por mais que o filho mais velho não morasse mais com eles, ela ainda tinha 3 crianças em casa para cuidar. Sem conseguir arrumar emprego, ela se envolveu com o tráfico para conseguir dinheiro para manter os filhos, mas acabou sendo presa. Ismael conta que nesse período seu pai passava a maior parte do tempo fora de casa por conta do trabalho.
Ismael era muito novo, tinha apenas 13 anos de idade quando começou a se preocupar em conseguir dinheiro de forma rápida. “Tinha minhas duas irmãs pequenas em casa, aí eu tinha que cuidar delas. Foi quando eu conheci as más influências do mundo”, conta o morador da Nova Holanda.
“Meu pai saía pra trabalhar cedo, aí eu ficava tomando conta das minhas irmãs. Depois eu deixava minhas irmãs um pouco com a minha avó e ia pra esquina, pra poder ficar lá no meio do tráfico, tá ligado? Aí conseguia arrumar um trocadinho, um dinheiro, e ia sustentando minhas irmãs e conseguia comprar uma coisa pra eu comer também”.
Durante a entrevista, Mael, como é conhecido, fala que foi tudo muito rápido. Quando percebeu, já estava envolvido dentro do tráfico de drogas. No entanto, a lembrança que ele destaca é de quando a mãe volta para casa: “Foi uma coisa meio chata pra ela, né? Quando ela foi presa eu tava normal, tranquilo. Quando ela saiu, eu já tava de outra forma”. Por mais que o pai de Mael culpasse sua mãe pelo seu envolvimento com o tráfico, Mael diz que ela sempre foi mãe e pai para ele e os irmãos e, que apesar de ter sido presa, o que ele leva dela são os bons ensinamentos.

É somente aos 16 anos, quando já está vendendo drogas, que um acontecimento faz com que ele deseje sair daquela vida: uma operação policial que resultou na cicatriz que ele tem até hoje próximo ao olho.
“Fiquei uns 2 anos no plantão e depois virei vapor, vendendo droga e tal. Fiquei um ano vendendo droga, depois aconteceu um negócio comigo, que foi quando tomei o tiro na cara (…) Foi uma operação que teve na comunidade, aqui na esquina de casa mesmo. Começaram a trocar tiro com os cana e me acertaram na cara. Na hora foi só um impacto do tiro pegando mesmo, fiquei tonteado, vendo tudo preto e branco, zunindo o ouvido, mas depois voltei ao normal. Fui correndo sozinho na rua e achei essa moradora, ela que me levou pra fora da favela. Lá fora ela pegou um carro e fomos pro Hospital de Bonsucesso, que é o mais próximo”.
MUDANÇA DE VIDA
Mesmo com o desejo forte de sair do tráfico, Mael ainda ficou por algum tempo. Apegado à bíblia, ele sonhava com o dia em que conseguiria deixar toda aquela história no passado. “Todo dia eu falava com Deus. Eu falava: ‘Deus, me tira daqui, dessa vida louca’”. Entre seus 17 e 18 anos, Ismael começou a trabalhar na serralheria do tio, onde aprendeu a soldar. No entanto, o dinheiro que recebia semanalmente não chegava a ser um salário e sim uma ajuda.
Com 18 anos, ele conseguiu seu primeiro emprego de carteira assinada em uma farmácia dentro da Maré. Ficou por 2 anos e então saiu e começou como auxiliar de cozinha em um restaurante, onde o salário era um pouco melhor devido a comissão e hora extra. Foi por volta deste mesmo período que Mael se tornou pai de uma menina. Tudo parecia bem até a chegada da pandemia da Covid-19, que fez com que todos os comércios fechassem. Mael então se viu desempregado e apenas com o dinheiro da rescisão.
Com a preocupação do dinheiro acabar antes das coisas normalizarem e conseguir um trabalho, ele começou a buscar alternativas quando surgiu a ideia de ter sua própria barbearia: “Eu nunca sonhei em ser barbeiro, mas quando veio a pandemia, começou a crescer esse mercado de empreendedorismo. Eu pensei assim: ‘Pô, tem curso de cabelo, ninguém fica sem cortar cabelo. Não tem como eu investir meu único dinheiro aqui e dar errado’”, conta Ismael.
O SONHO DA BARBEARIA
Em 2021, Mael começou a investir em cursos online e a chamar seus amigos para a laje de casa, para que pudesse treinar tudo o que vinha aprendendo. “Aí nós ficava lá na laje o dia todo, de madrugada, eu treinando. Eu falava: ‘mano, eu tenho que treinar. Quanto mais cabelo eu cortar, mais rápido eu vou aprender’”, lembra Mael. Acontece que não foi tão simples, o mareense conta que as pessoas não acreditavam no seu potencial, que não o apoiavam. Foi nessa dificuldade de arrumar pessoas para cortar e pintar o cabelo que ele pensou em começar com uma ação social na comunidade.

No início, a ideia era fazer uma ação oferecendo cortes gratuitos para as crianças da comunidade, para que assim ele pudesse praticar e ganhar credibilidade para conquistar seus clientes. Logo na primeira ação, mesmo com pouco dinheiro e pouco conhecimento, ele reuniu cerca de 30 crianças na calçada da sua casa e cortou o cabelo de todas elas, como prometido.
“Eu comprei uns biscoitinhos pras crianças, uma água, um guaranazinho. Aí nós ficamos ali na calçada o dia todo cortando. Aí eu pensei: ‘Pô, bagulho maneiro’. Ali foi crescendo o reconhecimento. Tipo, as pessoas foram passando, vendo o meu trabalho ali e foram vendo a evolução do trabalho também. No outro ano eu também fiz. Aí já tinha um pouquinho de cliente e eu consegui pegar um pouquinho de dinheiro que eu tinha e aluguei pula-pula, coloquei cachorro-quente, mais guaraná, mais biscoito e chegou mais criança. Aí a cada ano foi evoluindo”.
O início não foi nada fácil, Ismael teve que lidar com o pai e amigos próximos que não o apoiaram, enquanto pagava o aluguel de uma loja que não tinha nenhum movimento. Tudo isso enquanto ainda tentava estar presente para a filha. Foi por volta desse período que Mael e a mãe de sua filha se separaram, o que resultou em uma depressão que quase o fez desistir da barbearia. “Juntou a pressão da barbearia, de tentar arrumar cliente, com a pressão de perder uma família. Sendo que a família foi o que me deu força pra sair do crime, mas também tem ciclos que a gente começa, tem ciclos que a gente encerra. Isso é a vida, né?”, conta Ismael.
Uma das poucas pessoas que sempre o apoiou foi sua mãe, Kátia. Ainda muito frustrado com tudo que vinha acontecendo, Mael juntou um dinheiro com a ajuda de sua mãe e viajou a Belo Horizonte, para participar de um evento que reunia barbeiros de todo o Brasil.
“Deus sabe de todas as coisas também, que se não fosse esse evento também, eu tinha parado de cortar cabelo, tá ligado? Porque aqui eu não conseguia arrumar cliente nenhum, eu ficava: ‘pô, Deus, como é que eu vou arrumar cliente? Porque todo mundo fica rindo da minha cara. Todo mundo vai lá, corta o cabelo, depois sai falando mal e tal’. Mas aí esse primeiro evento foi o que mudou minha vida, porque eu aprendi várias técnicas lá diferenciadas, entendeu? Eu aprendi colorido, aprendi a fazer uns desenhos meio loucos e tal. Aí cheguei aqui e comecei a fazer esses desenhos loucos nas criançadas”.

Hoje já faz 4 anos que Ismael dos Santos decidiu apostar tudo na profissão de barbeiro. Ele possui 26 certificados de cursos, sendo que também já foi a muitos eventos — como esse em BH — onde participou de workshops para aprimorar suas técnicas. Atualmente, ele é referência em reflexo alinhado na Maré, uma técnica que nasceu dentro das favelas, sendo muito conhecida também pelo termo “reflexo de cria” e que hoje já se popularizou pelo Brasil todo. “Muitas pessoas vêm aqui só pra isso. Procuram mais isso, reflexo alinhado, porque eu foquei mais nisso também”.
Quanto às ações sociais com as crianças — algo que começou apenas para ajudá-lo a treinar — acontecem até hoje. Todo ano o mareense realiza essa ação, juntando a criançada da rua para cortar ou pintar o cabelo de graça. Buscando sempre seguir as tendências do momento, esse ano ele pintou o cabelo de todo mundo de vermelho.
“As crianças, elas se inspiram muito nesses cantores de hoje em dia. Tipo quando o Poze fez o reflexo alinhado e veio fazer um show aqui na comunidade, que aí lotou de gente pra fazer reflexo. Agora é o Oruam, né? O Oruam foi lá, pintou o cabelo de vermelho e virou febre. Aí na ação social eu demonstrei só esse meu serviço mesmo. Pra poder dar recurso também depois, né? Aproveitar o calor do momento, assim, que tá todo mundo pintando e tal, e chamar mais clientes pra fazer esse tipo de serviço também”.
Pensando já nas próximas projeções, Mael conta que deseja arrumar a barbearia para receber seus clientes da melhor forma possível. Hoje, como atua sozinho na barbearia, ele também sonha com a possibilidade de treinar outras pessoas para que elas possam trabalhar com ele no espaço.
“Através de cada corte de cabelo que a gente finaliza, que a gente vê que a pessoa mudou mesmo, a autoestima da pessoa fica lá em cima… isso é a maior satisfação. Ainda mais eu, porque não era nem para eu estar aqui no mundo hoje em dia. Mas hoje eu estou aqui e consigo mudar a vida de alguém através da minha história, consigo aumentar bastante a autoestima através do meu trabalho, isso é legal para caramba”.
Acompanhe o trabalho de Mael no Instagram: @mael.do.corte.ofc






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