Texto por Carolina Vaz
Foto de capa: Divulgação
Desde o dia 28 de fevereiro, comunicadores de favelas do Rio de Janeiro, majoritariamente do Conjunto de Favelas da Maré, vêm se encontrando para realizar formações que aprimorem seus trabalhos. Os encontros, divididos em três datas até final de abril, abordam tanto os aspectos da Comunicação Popular quanto da militância. O curso é promovido pelo coletivo Maré 0800, com apoio da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJRacial), e apoio financeiro do Fundo Brasil de Direitos Humanos.
Pautando os Direitos Humanos
O primeiro encontro foi realizado no Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), no bairro de Botafogo. O seminário “Militarização, Direitos Humanos e Favelas” reuniu moradores e ativistas de diversas favelas cariocas, como Cidade de Deus, Morro do Borel, Maré e Complexo do Alemão.
Na mesa, os convidados falaram sobre suas atuações nas favelas em prol dos direitos humanos, seja na mobilização comunitária, comunicação popular e até no atendimento direto de vítimas das violações de direitos. Naldinho Lourenço, fotógrafo da Maré, falou sobre a criação da Frente de Mobilização da Maré, no início da pandemia, que reuniu dezenas de comunicadores locais engajados para comunicar a população sobre prevenção e cuidados coletivos, usando diversas plataformas possíveis. Também comentou sobre esta iniciativa ter sido a origem da cozinha solidária, hoje uma Cozinha Comunitária Carioca.

Jota Marques, mobilizador social na Cidade de Deus, levantou um debate sobre o termo “direitos humanos”, defendendo que hoje este é relativizado até mesmo por setores engajados da sociedade. Em debate sobre ano eleitoral e alianças, ele defendeu o cuidado em dialogar com diferentes pessoas, figuras públicas ou não, sem necessariamente firmar alianças.

Na mesma mesa, Patrick Melo, coordenador de Comunicação na IDMJRacial, continuou o debate sobre os direitos humanos, levantando como exemplo a mobilização comunitária no Morro do Borel que, notadamente na época da Ditadura, passou por conflitos para que fosse possível defender os trabalhadores. Ele expressou preocupação sobre a constante militarização dos territórios periféricos na história do país.

Por fim, a defensora Renata Trajano trouxe sua experiência para casos mais recentes, como a chacina no Complexo da Penha em final de outubro de 2024. “Nós defensores só queremos continuar vivos, e que os outros também continuem vivos. Essa é nossa luta”, afirmou. Ela problematizou a confiança no poder judiciário, principalmente em casos de extermínio, uma vez que existe uma proteção das forças de segurança pública. Todas as falas levantaram intenso debate sobre como se pode combater as violações de Direitos Humanos nas favelas sem, ao mesmo tempo, expor-se demais.

Compromisso e segurança
O segundo encontro, em 07 de março, já foi mais restrito a comunicadores da Maré, reunindo membros de coletivos e organizações como Jornal O Cidadão, Maré 0800 e Maré Vive. Este foi um encontro voltado aos temas do papel da comunicação popular e segurança digital, e foi realizado na sede da IDMJRacial, no centro da cidade. Foi dividido em dois momentos, sendo o da manhã conduzido por Artur Romeu, representante da organização Repórteres sem Fronteiras (RSF). Além de explicar sobre a atuação da RSF, apoiando e protegendo jornalistas e veículos em situação de risco, ele falou sobre as novas frentes de democratização da comunicação que hoje estão dadas, principalmente nas redes sociais.
O grupo, desta vez menor em relação ao primeiro encontro, pôde debater sobre os obstáculos para se alcançar o público-alvo de suas mídias uma vez que tanto o formato das mídias comunitárias quanto seus temas não são priorizados pelos algoritmos das redes. Neste mesmo contexto, expressou-se grande preocupação sobre como combater as fake news, inclusive fora das redes sociais, e na atual situação de ano eleitoral.

“Se [a plataforma] é de graça, é porque eu sou o produto. A plataforma está o tempo todo monitorando o nosso comportamento, para nos manter lá dentro e para nos vender produtos”.
— Artur Romeu, jornalista representante da organização Repórteres sem Fronteiras
Todas as trocas da manhã foram fundamentais para a oficina da tarde sobre segurança digital, conduzida por Amarelu. O ativista abordou desde aplicativos usados no cotidiano que parecem seguros para a troca de informações de defensores e comunicadores, mas na verdade são facilmente violáveis, até técnicas e ferramentas para garantir uma segurança digital — pessoal e coletiva — mais efetiva.

Caminhando para a conclusão do curso, agora faltando apenas um encontro, o grupo se encontra engajado na aplicação dos ensinamentos dos dois primeiros encontros, e compartilhando as habilidades adquiridas nos meios onde atuam, sendo os próprios “alunos” do curso fotógrafos(as) e redatores(as) responsáveis pela cobertura dos encontros.






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