Foto de capa: Ana Cristina da Silva
Formar jovens moradores da Maré para compreender os problemas socioambientais do território e transformar esse aprendizado em ação é a proposta do Ecoa Maré, projeto do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM). Em 2026, a iniciativa trabalha com o tema gerador “Mudanças Climáticas – Calor e Cotidiano”. Para além da instituição, as oficinas nas escolas são uma das formas encontradas pelo projeto para levar essa discussão aos moradores.
Uma dessas atividades aconteceu na Escola Municipal Vereadora Marielle Franco. Durante a visita, os agentes apresentaram a esquete teatral “Que calor é esse?” e conversaram com as crianças sobre o aumento das temperaturas. A oficina mostrou como o conteúdo estudado pelos jovens ganha forma no contato com o público. Para Guilherme Paiva (34), coordenador do Ecoa Maré, o projeto “trabalha com a juventude da Maré em uma perspectiva de atuação e transformação do território”.
Do Eco Rede ao Ecoa Maré
A história do projeto começou em 2011, quando ainda era chamado de Eco Rede Maré. A metodologia foi elaborada pela Alfazendo, instituição da Cidade de Deus, e chegou à Maré com a proposta de formar jovens para atuar em questões socioambientais.
O Eco Rede permaneceu em atividade até 2017. Entre 2018 e 2022, o trabalho foi interrompido por falta de financiamento. O projeto retornou em 2023 e passou por uma reformulação que incluiu a mudança de nome.
Segundo Guilherme, a escolha buscou aproximar ainda mais o projeto da identidade do território. “A gente pensou no nome Ecoa Maré como um nome forte e que tem identidade com o próprio CEASM e com a própria Maré”, conta. Para o coordenador, o verbo ecoar traduz a intenção de fazer com que as ações do projeto alcancem a comunidade “na perspectiva de sensibilizar e mobilizar os moradores”.

A relação com as escolas existe desde o início do projeto. Após a retomada, em 2023, o Ecoa voltou a procurar unidades públicas da Maré para desenvolver suas oficinas. A continuidade desse contato ajuda a explicar por que algumas escolas já recebem a equipe há mais de um ano.
Para além das escolas
Embora as unidades de ensino sejam uma frente importante desde o início do projeto, o Ecoa também participa de atividades realizadas em outros espaços da Maré. Nessas ocasiões, os agentes adaptam o trabalho ao público presente e encontram novas formas de tratar as questões socioambientais.
Em 2024, durante o Prep de Portas Abertas, o grupo apresentou brinquedos feitos com materiais reaproveitados. Ao final do evento, também inaugurou o Ecoponto do CEASM (foto), criado para receber garrafas PET e latas de alumínio destinadas à reciclagem.

Em 2025, durante o relançamento da exposição Memória Climática das Favelas, o Ecoa levou uma brinquedoteca ao Museu da Maré (foto). A atividade mostrou às crianças como materiais que seriam descartados poderiam ganhar novos usos.

Jovens no centro do projeto
Quem ajuda a levar o Ecoa às escolas são jovens da própria Maré. Os agentes socioambientais têm entre 15 e 18 anos e, em sua maioria, cursam o Ensino Médio. Antes de entrar em sala, eles passam por formações que os ajudam a reconhecer como os problemas ambientais atravessam a vida no território e a transformar esse aprendizado em propostas para as oficinas.
A equipe deste ano reúne agentes em momentos diferentes da trajetória. Gustavo Ferreira Farias (16), Larissa Nascimento de Moura (17) e Maria Luiza Loureiro Marcelino (18) estão no segundo ano do projeto, após terem ingressado em 2025. Emily Costa Anselmo (16), João Victor Pereira da Costa (18) e Dandara Telles Lima (15) chegaram em 2026. Os que retornaram já conhecem o ritmo das oficinas e a passagem de um tema gerador para outro. Já os novos integrantes começam a transformar o que aprendem nas formações em atuação diante do público.
As vivências dos moradores orientam a elaboração das oficinas. O conhecimento compartilhado durante a preparação se soma ao que os jovens já sabem sobre a Maré, fazendo com que cada proposta parta de situações reconhecidas no território.

“O Ecoa tem algo que é primordial dentro da sua metodologia: fazer as ações e as atividades, tanto de formação quanto de intervenção no território, a partir da experiência dos moradores”.
— Guilherme Paiva, Coordenador do Ecoa Maré
Entre os novos agentes, Emily soube das vagas pela mãe e decidiu participar da seleção depois que uma amiga também demonstrou interesse. Mesmo após as entrevistas, não acreditava que seria escolhida. “Eu nem achei que ia passar, não. Chegava em casa falando: ‘Não vou passar, não vou passar, não vou passar’. E, no final das contas, estou aqui”, conta.
Dandara Telles conheceu o Ecoa por meio do primo Richard, que havia participado anteriormente. A vergonha quase a impediu de se envolver nas conversas iniciais, mas o interesse cresceu durante a entrevista individual e continuou nas formações. “Aprendi muitas coisas novas também no Ecoa, coisas diferentes que eu nunca tinha aprendido na vida”, afirma.
Os caminhos até o projeto também podem passar por outras formações realizadas no território. João Victor, por exemplo, participou do programa Jovens Talentos FAPERJ no Museu da Maré em 2024. Ao final da experiência, foi incentivado por Cida Rodrigues, conselheira e educadora do Museu da Maré e do Ecoa, a tentar uma vaga, por ter um perfil que combinava com a proposta do projeto do CEASM.
Nos dias de atividade, parte da equipe segue para a escola, enquanto outros agentes permanecem no CEASM. Quem fica na sede organiza os registros e prepara os materiais que serão usados nas próximas oficinas. A equipe também ensaia, porque os jovens revezam os personagens e a função de narrador na esquete teatral.

Calor sentido no cotidiano
A cada ano, o Ecoa escolhe um tema gerador para orientar suas formações. Em 2025, o projeto discutiu o saneamento básico. Neste ano, o trabalho parte da maneira como o aumento do calor já é percebido pelos moradores.
Segundo Guilherme, as mudanças climáticas atingem as favelas com mais intensidade por causa das condições estruturais. Na Maré, a verticalização das casas interfere na circulação do ar. O desaparecimento de áreas verdes e a quantidade de asfalto também contribuem para o aumento da sensação térmica.

Em seu segundo ano como agente, Gustavo Farias consegue relacionar o tema atual ao que aprendeu sobre saneamento básico em 2025. Ele conta que as formações o fizeram perceber problemas que havia naturalizado durante a vida na Maré. Ao falar sobre o calor, chama atenção para o crescimento das construções e para a redução dos espaços livres: “A gente fica cada vez com menos espaço para calçadas, menos espaço nas ruas, o que acaba fazendo a gente sentir ainda mais calor aqui na Maré”.
O contato com dois temas geradores também permitiu que Gustavo percebesse como diferentes problemas se encontram no cotidiano. No ano passado, ele passou a compreender de outra forma a falta de água e as dificuldades com o esgoto. Em 2026, essa experiência o ajudou a reconhecer como o calor interfere na rotina dos moradores e por que essas situações não devem ser tratadas como normais.

Luiza Loureiro conta que entrou no Ecoa sem relacionar algumas situações do dia a dia às características ambientais da Maré. As formações ampliaram sua percepção e mudaram a maneira como ela observa o lugar onde vive. Desde então, ela carrega a palavra para além da oficina, e o assunto aparece naturalmente nas conversas com pessoas do seu dia a dia.

“Quando a gente pensa na Maré, na questão do calor e do cotidiano, às vezes as pessoas não têm a percepção de que aquilo acontece com elas todos os dias e acabam normalizando situações que não deveriam ser normalizadas”.
— Maria Luiza Loureiro Marcelino, agente socioambiental do Ecoa Maré
A oficina dentro da escola
Na Escola Municipal Vereadora Marielle Franco, esta foi a terceira parceria com o Ecoa Maré. A unidade fica na Rua Projetada D, no Salsa e Merengue, próxima à Avenida Brasil. A circulação intensa de veículos no entorno ajuda a aproximar o tema da realidade dos estudantes, que convivem diariamente com o calor na escola e nos caminhos percorridos pelo território.
A oficina começa com uma atividade de acolhimento. Depois, os agentes apresentam a esquete teatral “Que calor é esse?”, construída a partir do tema gerador deste ano. A história cria uma situação reconhecível para as crianças e prepara o caminho para a roda de conversa. Nesse momento, os estudantes contam como percebem o calor dentro de casa e no trajeto até a escola. Para Guilherme, escutar essas experiências é parte fundamental do trabalho, porque as crianças já possuem conhecimentos formados a partir da própria rotina.

Larissa Moura acompanha essas reações pelo segundo ano. A experiência adquirida em 2025 não eliminou a surpresa diante do que as crianças trazem para a conversa. “Quando a gente começa a receber as informações e vem para a escola trazer isso para as crianças, é inacreditável. A gente fala e acha que elas não sabem, mas elas retribuem com frases e palavras muito boas”, conta.
Depois da conversa, os estudantes fazem um registro da participação. A oficina termina com um jogo cooperativo que as crianças reconhecem como uma versão da brincadeira batatinha quente. Não há disputa entre vencedores e perdedores. A proposta é fazer com que elas pensem juntas sobre as situações apresentadas.

O formato muda de acordo com o público. Nas atividades com crianças a equipe amplia o uso de brincadeiras e adapta a abordagem à faixa etária. Na Educação de Jovens e Adultos (EJA), imagens da própria Maré ajudam a estimular relatos sobre as transformações percebidas pelos estudantes ao longo da vida.
Para Thaís Alcântara, coordenadora pedagógica da Escola Municipal Vereadora Marielle Franco, a linguagem usada pelo projeto ajuda as crianças a compreender um problema presente ao redor delas.
“É um projeto de muita importância, causa um impacto muito grande na vida das nossas crianças. E é muito interessante porque as nossas crianças, sendo impactadas, também levam esse impacto para dentro das casas delas”.
— Thaís Alcântara, Coordenadora Pedagógica da Escola Municipal Vereadora Marielle Franco
Mudanças que continuam fora da oficina
João Victor percebeu mudanças na própria rotina depois de entrar no Ecoa. Ele já guardava o próprio lixo até encontrar uma lixeira, mas passou também a recolher materiais que encontra pelo caminho. “Hoje virei catador também: pego papelão, pego latinha”, conta. O jovem afirma que tenta reaproveitá-los e explica que encaminha as latinhas e garrafas plásticas para o Ecoponto instalado no CEASM.
No Ecoa Maré, os agentes ampliam a maneira de observar o lugar onde vivem enquanto ajudam outras pessoas a reconhecer os problemas presentes no cotidiano. O conhecimento sai da sala do projeto e retorna à comunidade pelas mãos dos próprios jovens, fazendo “ecoar” um novo jeito de enxergar as questões socioambientais da Maré.







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