Foto de capa: Christóvão Carvalho


Aos 17 anos, Cayo Alexandre Domingos do Nascimento, conhecido nas lutas como Cacareco, se prepara para uma nova experiência internacional. Morador da Baixa do Sapateiro, o jovem foi convocado para integrar a Seleção Brasileira de MMA e deverá competir no México, na categoria juvenil até 77 kg. Para chegar à competição prevista para dezembro, Cayo e a família buscam o apoio de pessoas, comerciantes, empresas e marcas que possam contribuir com os custos da preparação e da viagem.

Segundo representantes do atleta, a participação será em uma etapa pan-americana da International Mixed Martial Arts Federation (IMMAF), ainda sem data oficial divulgada. A convocação chega quando Cayo completa seu primeiro ano no MMA, com quatro lutas e quatro vitórias, mas também traz de volta uma dificuldade que acompanha sua trajetória esportiva: os custos para disputar competições fora do Rio de Janeiro e, principalmente, do país.

Família busca apoio para a viagem ao México

A necessidade de mobilizar recursos não é novidade para Cayo. Em 2024, quando ele se preparava para a primeira competição internacional de capoeira, na Grécia, a família realizou rifas, vendeu alimentos e organizou uma vaquinha para ajudar a custear a viagem.

Dois anos depois, a situação volta a fazer parte da preparação. Bruno Galdino, treinador de MMA de Cayo, explica que competições realizadas no Rio e em regiões próximas ainda podem ser viabilizadas com pequenas arrecadações, mas viagens internacionais envolvem despesas maiores, principalmente com passagem e hospedagem. Segundo o treinador, nesses casos, “hoje é na cara e na coragem”.

Cayo Cacareco exibe medalhas conquistadas no MMA ao lado do treinador Bruno Galdino, responsável por sua entrada na modalidade. Foto: Christóvão Carvalho.

Com a convocação para a Seleção Brasileira, a família tenta ampliar a rede de pessoas e empresas que acompanham a carreira do atleta. Entre os apoios já recebidos, Dayanny Mara, mãe de Cayo, destaca Rafael Vicente, que, segundo ela, contribui tanto na divulgação quanto financeiramente.

Das primeiras lutas à Seleção Brasileira

MMA é a sigla em inglês para Mixed Martial Arts, ou artes marciais mistas. Como o próprio nome indica, a modalidade permite reunir técnicas de diferentes lutas em um mesmo combate. A modalidade permite combinar golpes em pé com quedas, técnicas de controle do adversário e luta no solo. No caso de Cayo, essa combinação aproveita conhecimentos adquiridos na capoeira, no jiu-jitsu, na luta livre esportiva, no boxe e na luta olímpica.

Apesar dos nomes parecidos, luta livre esportiva e luta olímpica são modalidades diferentes. A primeira permite buscar a finalização do adversário por meio de técnicas como chaves e estrangulamentos. Já a luta olímpica, modalidade de wrestling, trabalha principalmente quedas, controle e imobilização do oponente.

Cayo cresceu cercado por esse universo. Segundo a família, ele começou a praticar capoeira aos três anos e, ao longo da infância e da adolescência, incorporou outras modalidades à rotina. Dayanny Mara (36) dá aulas de capoeira, também já praticou boxe e estuda Educação Física. Cristiano Souza (38), pai e representante de Cayo, conhecido como Mestre Cenora, dá aulas de jiu-jitsu.

Cristiano Souza, o Mestre Cenora, e Dayanny Mara acompanham a trajetória esportiva do filho desde a infância. Foto: Christóvão Carvalho.

O trabalho de Bruno com novos atletas também passa pela própria família. Seu filho, Gustavo Galdino, já compete em diferentes modalidades e, segundo o treinador, é campeão de boxe, jiu-jitsu e luta livre. O jovem também está sendo preparado para estrear no MMA. Bruno espera seguir nessa caminhada ao lado do filho e diz que pretende “fazer dele um atleta igual fiz com o Cayo”.

Cayo Cacareco e Gustavo Galdino exibem medalhas e cinturões conquistados em diferentes modalidades. Filho de Bruno Galdino, Gustavo também se prepara para estrear no MMA. Foto: Christóvão Carvalho.

A estreia de Cayo aconteceu no Fight Week Brasil, realizado em 2025, com vitória por finalização que, segundo o próprio atleta, ocorreu em apenas 30 segundos. Depois vieram mais três resultados positivos, incluindo a quarta luta, que funcionou como seletiva e garantiu a entrada do jovem na Seleção Brasileira. Cayo irá ao México com um cartel invicto — termo usado nas artes marciais para se referir ao histórico de lutas de um atleta.

A adaptação ao MMA também exigiu uma preparação diferente. Como precisa reunir diferentes estilos de luta, o atleta passou a trabalhar ainda mais o condicionamento físico e a alimentação. “A preparação ficou mais intensa, a dieta também, os treinos também. Ficou um treino maior, um treino mais puxado, pra aguentar os três rounds de MMA”, explica.

Cartel no MMA

  • Fight Week Brasil (2025) — Cayo x Arthur: vitória por finalização, com armlock.

  • 4ª Etapa do Ranking de MMA Amador da FMMAD-RJ (2025) — Cayo x Felipe Lima: vitória por decisão.

  • 1ª Etapa do Ranking de MMA Amador da FMMAD-RJ (2026) — Cayo x Kauã Couto: vitória por nocaute técnico.

  • 2ª Etapa do Ranking de MMA Amador da FMMAD-RJ (2026) — Cayo x Cauan: vitória por decisão. A luta funcionou como seletiva e garantiu a entrada de Cayo na Seleção Brasileira.

A capoeira dentro do MMA

Mesmo reunindo técnicas aprendidas em diferentes lutas, Cayo aponta a capoeira como a principal marca de seu estilo no MMA. A ginga, as mudanças constantes de posição e a dificuldade do adversário de antecipar a origem dos golpes se tornaram ferramentas dentro dos combates. “A capoeira é imprevisível, né? Ela não tem uma base certa. A base da capoeira é a ginga. Então a pessoa fica na dúvida de onde o golpe vai sair”, afirma.

Cayo utiliza a movimentação da capoeira durante treino com Gustavo Galdino. O atleta considera a ginga uma das principais características de seu estilo no MMA. Foto: Christóvão Carvalho.

A relação com a modalidade também levou Cayo à primeira viagem internacional de sua trajetória. Em janeiro de 2024, quando ele tinha 14 anos, O Jornal O Cidadão mostrou a mobilização da família para que o adolescente pudesse disputar os Jogos de Inverno da Capoeira, na Grécia. Na época, a família buscava recursos para a primeira competição de Cayo fora do Brasil.

A viagem aconteceu e Cayo conquistou o primeiro lugar na categoria Graduados Masculino — Azul a Azul/Verde, nos Jogos de Inverno, em janeiro de 2024. Em publicação no próprio perfil, o atleta também registrou as premiações de melhor corda azul, melhor jogo de Benguela, melhor jogo de Siriúna e melhor jogo de São Bento da ABADÁ.

Conquistas em diferentes modalidades

A entrada no MMA não interrompeu a participação de Cayo em outras lutas. Em 19 de julho deste ano, ele representou a Team Cavalo no World Championship 2026 de Luta Livre Esportiva, realizado no Club Municipal, na Tijuca, e conquistou o título mundial juvenil até 78 kg na chave que reuniu atletas das faixas azul e roxa. Segundo a família, Cayo também conquistou o título brasileiro no absoluto de luta livre em competição da Confederação Brasileira de Luta Livre Esportiva (CBLLE).

Cayo Cacareco com a medalha de ouro conquistada no World Championship 2026 de Luta Livre Esportiva, disputado em julho, na Tijuca. Foto: Reprodução.

Segundo levantamento atualizado fornecido pela família, Cayo soma 14 troféus, 6 cinturões e 200 medalhas, sendo 190 de ouro, 7 de prata e 3 de bronze. As conquistas estão distribuídas entre diferentes modalidades:

  • Capoeira: campeão internacional, mundial e carioca.

  • Jiu-jitsu: campeão mundial, brasileiro, estadual e sul-americano.

  • Luta Livre Esportiva: campeão mundial, brasileiro, estadual, sul-americano e pan-americano.

  • Muay Thai: campeão brasileiro.

  • MMA: quatro lutas e quatro vitórias.

A preparação de Cayo também passa por diferentes professores. Na capoeira, ele é acompanhado por Mestre Morcego; no jiu-jitsu, pelo pai, Mestre Cenora, além do apoio de Mestre Alan; no MMA, Cacareco treina com Bruno Galdino; e, na luta olímpica, com o tenente Breno. Dayanny destaca ainda a participação dos mestres do Maré de Bambas e afirma que diferentes pessoas contribuíram para a evolução do filho.

Entre os treinos e a escola

O calendário esportivo ainda precisa dividir espaço com a vida escolar. Em períodos de prova, os estudos são colocados como prioridade pela família e os treinos podem ser interrompidos. Fora dessas semanas, a rotina chega a ter cinco ou seis sessões de treinamento em um único dia.

O ritmo às vezes exige a intervenção dos próprios pais para que Cayo descanse. Dayanny conta que, mesmo nos domingos sem competição, o filho costuma querer continuar treinando. “Às vezes tem que pedir pra ele parar um pouco”, afirma.

Cayo durante treinamento com Bruno Galdino na Escola de Luta Família Galdino, onde se prepara para as competições de MMA. Foto: Christóvão Carvalho.

Além do esporte, Cayo também pensa em seguir uma carreira militar. O jovem diz que pretende crescer na Marinha sem abandonar o MMA. Bruno Galdino relata que uma futura seletiva relacionada à IMMAF poderá oferecer aos atletas uma oportunidade de disputar vagas nas Forças Armadas. Segundo o treinador, quem avançar poderá concorrer inclusive a uma vaga de terceiro-sargento.

Um sonho que continua

A chegada à Seleção Brasileira cria uma ligação direta com a história contada pelo Jornal há dois anos. Na reportagem de 2024, Cayo já falava sobre o desejo de se tornar atleta profissional e chegar ao UFC. “Quero conseguir entrar no UFC pra misturar tudo e levar a Maré aí”, contou na época.

Ao dizer que queria “misturar tudo”, Cayo se referia à intenção de reunir no MMA os conhecimentos adquiridos nas diferentes artes marciais que praticava e, ao mesmo tempo, representar o lugar de onde veio.

Agora, ao ser perguntado novamente sobre o antigo sonho de chegar ao UFC, Cayo conta o que a chegada à Seleção Brasileira representa nessa trajetória: “Eu creio que esse sonho está cada vez mais perto”.

Cayo se concentra no octógono momentos antes de sua luta mais recente no MMA, resultado que garantiu sua entrada na Seleção Brasileira. Foto: Reprodução.

Como apoiar Cayo

O avanço esportivo continua acompanhado dos custos de uma rotina que envolve equipamentos, preparação e deslocamentos para competições. Quando os eventos acontecem fora do estado ou do país, as despesas aumentam e a família precisa novamente mobilizar uma rede de apoio.

Mestre Cenora, pai e representante de Cayo, espera que as conquistas também ajudem a aproximar possíveis parceiros. Na avaliação dele, a expectativa é “os comerciantes locais, os de fora, abrirem o campo de visão e enxergarem nele um grande potencial de investimento, de patrocínio, divulgação da marca”.

Cayo e o pai e representante, Mestre Cenora, celebram a medalha conquistada após a luta que classificou o atleta para integrar a Seleção Brasileira de MMA. Foto: Reprodução.

Além da contribuição financeira, Cayo destaca a importância de sentir a comunidade acompanhando a trajetória. “Eu espero o apoio e a torcida de todo mundo, né? Porque eu não vou estar só representando a minha equipe, eu vou estar representando o meu país e da onde eu venho, que é a Maré”, afirma.

Pessoas, comerciantes e marcas interessados em apoiar, patrocinar ou firmar uma parceria com Cayo podem entrar em contato pelos perfis oficiais do atleta ou de seu pai e representante:

Próximos compromissos

  • 3 de outubro — Jogos do Rio 2026 – ABADÁ-Capoeira: Cayo participará da competição de capoeira no Rio de Janeiro.

  • 8 de novembro — Campeonato Brasileiro de Luta Livre Esportiva 2026 – 3ª Etapa Rio de Janeiro: Cayo está inscrito pela Team Cavalo na categoria juvenil masculino até 78 kg. A competição será realizada no Club Municipal, na Tijuca.

  • Dezembro — etapa pan-americana da IMMAF, no México: Cayo integrará a Seleção Brasileira de MMA na categoria juvenil até 77 kg e poderá fazer até quatro lutas. A data da competição ainda não foi definida.

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