Na capa, a cena “Eles Não Usam Black-Tie”. Foto: Ana Cristina da Silva.


A Day nunca havia dirigido uma cena. Jodeline Pierre havia acabado de chegar ao Entre Lugares e participou da montagem de seu primeiro trabalho. Patrick Lyan, já formado em Teatro, ainda não tinha recebido um prêmio de atuação. As três trajetórias ganharam novos capítulos no 13º Festival de Cenas Curtas Maré em Cena, realizado no sábado (29), no Museu da Maré.

Realizado pela Escola Livre de Formação em Arte e Cultura Entre Lugares Maré, que chega à sua 15ª edição, o festival reuniu oito cenas na mostra competitiva, além de performances e apresentações convidadas. Bianca Barbosa, Leona Kali e Yago Melo conduziram a programação, que começou de maneira diferente do habitual. O público percorreu um corredor ao lado do galpão até chegar à horta comunitária do Museu da Maré, localizada nos fundos do espaço, onde assistiu a “As Suplicantes”, primeira cena da noite e uma das oito concorrentes da mostra competitiva.

Angel Lua e Renena em “As Suplicantes”, de Eurípides, primeira cena apresentada na noite e uma das concorrentes da mostra competitiva. Foto: Ana Cristina da Silva.

De volta ao espaço principal, a programação seguiu com “No Nosso Tempo”, performance coreográfica da turma do Maré Em CriAção, voltada especificamente a pessoas com deficiência e neurodivergentes, com direção de movimento de Gabriela Luiz. Apresentado fora da mostra competitiva, o trabalho deu lugar, na sequência, a “Mágica e Mágico, Somos Nós”, criação autoral desenvolvida em sala pelos alunos da mesma turma e uma das oito cenas concorrentes. As demais cenas da competição foram construídas por participantes de outras turmas do Entre Lugares.

Integrantes da turma do Maré Em CriAção durante a apresentação de “Mágica e Mágico, Somos Nós”, cena que recebeu um Prêmio Especial do Júri pela sintonia do grupo em cena. Foto: Ana Cristina da Silva.

Em “Eles Não Usam Black-Tie”, o clássico de Gianfrancesco Guarnieri foi aproximado da realidade dos entregadores de aplicativo. “A Hip-Hópera dos Três Vinténs” incorporou elementos do hip-hop a uma trama atravessada pela política. “O Inspetor Federal” levou a obra de Nikolai Gogol para um cenário de negociações e acusações de corrupção no Rio de Janeiro, enquanto “Manifesto Transpofágico” colocou em cena questões relacionadas às vivências de pessoas travestis. Mas as novidades daquela noite também estavam nas trajetórias de quem subia ao palco.

Carlos Emanoel e João Emanuel Wang em “O Inspetor Federal”, adaptação da obra de Nikolai Gogol que leva a sátira política para um cenário de negociações e acusações de corrupção no Rio de Janeiro. Foto: Ana Cristina da Silva.

Da atuação para a primeira direção

Diane Pereira (28), artisticamente conhecida como A Day, é cria do Conjunto Esperança e chegou ao Entre Lugares em 2016. Até então, toda a sua formação no teatro havia acontecido dentro do próprio projeto. Foi ali que começou como atriz, mas também experimentou outras áreas ao longo dos anos, trabalhando com instrumentos, escrita, trilha sonora, cenografia, iluminação e cenotecnia.

No festival deste ano, A Day recebeu um convite diferente. Pela primeira vez, a competição também teria uma categoria de Melhor Direção. Kaôrí Amaré e Andy, intérpretes de “Arara Vermelha”, chamaram a artista para dirigir a adaptação do texto de Jô Bilac. Sem experiência anterior na função, ela se apoiou no repertório adquirido durante os anos em que acompanhou diferentes processos dentro do Entre Lugares. “Fui vendo e reproduzindo por osmose o que eu fui aprendendo aqui”, conta.

Cena de “Arara Vermelha” com Kaôrí Amaré e Andy, dirigida por A Day, que levou ao palco uma ambientação inspirada na Vila do João e elementos cenográficos em proporções ampliadas. Foto: Ana Cristina da Silva.

Entre essas referências estão profissionais que acompanharam sua trajetória no projeto. Durante a preparação para o festival, as direções apresentavam semanalmente as cenas em processo a Renata Tavares, supervisora de direção, que fazia apontamentos aos grupos durante a construção dos trabalhos.

Em pouco mais de três semanas, A Day e o elenco construíram uma versão de “Arara Vermelha” ambientada na Vila do João. A encenação transformou o palco em uma gaiola ampliada, com objetos em proporções exageradas e intérpretes caracterizados como aves. A proposta visual também dialogou com a convivência da diretora com pássaros e com a observação de seus comportamentos.

A primeira experiência na direção terminou com o prêmio de Melhor Direção e o primeiro troféu conquistado por A Day no Entre Lugares. “Arara Vermelha” também foi escolhida como a melhor cena da competição e venceu o Júri Popular. Para a artista, o resultado veio depois de um processo intenso de preparação. “Valeu muito o esforço. Mesmo que eu tô cansada, eu tô feliz”, conta.

A Day recebe o troféu de Melhor Direção por “Arara Vermelha”, ao lado da apresentadora Leona Kali. A categoria foi criada nesta edição do festival. Foto: Ana Cristina da Silva.

Além do teatro, A Day atua como MC e produtora musical autodidata e prepara seu primeiro EP, “T.R.A.V.A (Travesti Rompendo A Vida Amarga)”, com lançamento previsto para o fim de outubro. Baseado em suas vivências dentro e fora da favela, o projeto aborda processos de autoaceitação e diferentes formas de violência que atravessam seu cotidiano. As novidades sobre o lançamento podem ser acompanhadas pelo Instagram e pelo Spotify da artista.

Chegar, criar e ser revelação

Jodeline Pierre (26) é haitiana, vive no Brasil há 11 anos e atualmente mora no Morro do Timbau. Ela chegou ao Rio em 2024 e atualmente cursa Letras — Português e Francês na UFRJ. Depois de conhecer integrantes do Entre Lugares em outro projeto artístico e assistir a um espetáculo do grupo, Jodeline decidiu participar do projeto criado na Maré.

A artista já fazia oficinas de teatro desde 2024, mas “Vaga Carne”, de Grace Passô, tornou-se o primeiro trabalho que ajudou a montar. Ao lado de Aruannã Crispim, Jodeline participou da construção da cena também fora da atuação, pensando elementos como cenário, figurino e maquiagem.

O percurso até o festival não estava planejado daquela forma. Jodeline preparava outra cena, que acabou descontinuada uma semana antes do evento. Paralelamente, ela havia aceitado o convite de Aruannã para montar “Vaga Carne”. O trabalho que começou como uma segunda possibilidade foi justamente aquele que chegou ao palco e terminou premiado.

Jodeline Pierre e Aruannã Crispim em “Vaga Carne”, de Grace Passô. A montagem ficou em terceiro lugar na competição e venceu o prêmio de Melhor Cenografia. Foto: Ana Cristina da Silva.

A montagem, centrada na relação entre voz e corpo, ficou com a terceira colocação entre as cenas e recebeu ainda o prêmio de Melhor Cenografia. Jodeline conquistou o prêmio de Melhor Atriz Revelação logo em sua primeira experiência de montagem dentro do Entre Lugares.

Jodeline Pierre posa com o troféu de Melhor Atriz Revelação, conquistado por sua participação em “Vaga Carne”. Foto: Ana Cristina da Silva.


Eu acho que é o melhor ato de boas-vindas que eu poderia receber, que eu cheguei, já me deram o desafio, eu abracei e eu mostrei por que eu estou aqui.



— Jodeline Pierre

O reconhecimento também reforçou sua vontade de continuar investindo na atuação. A passagem de Jodeline pelo festival não ficou restrita a “Vaga Carne”. Ela também integrou “As Suplicantes”, primeira cena apresentada naquela noite, na horta comunitária do Museu da Maré.

Um primeiro prêmio de atuação

Patrick Lyan Pereira Lopes (32), morador da Vila do Pinheiro, chegou ao Entre Lugares por outro caminho. Formado em Licenciatura em Teatro pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), em Campos dos Goytacazes, ele já acompanhava trabalhos do projeto antes de decidir participar da turma deste ano.

Em “A Hip-Hópera dos Três Vinténs”, Patrick interpretou Jonathan Peachum em uma adaptação da obra de Bertolt Brecht. A montagem aproximou a dramaturgia das batalhas de rima e da política contemporânea. Na cena, Jonathan aparece como um candidato que constrói uma imagem pública enquanto a história expõe contradições existentes por trás dela.

Êlme, Marina e Patrick Lyan em “A Hip-Hópera dos Três Vinténs”, adaptação da obra de Bertolt Brecht. Na montagem, eles interpretam MC Navalha, Polly Peachum e Jonathan Peachum, respectivamente. Foto: Ana Cristina da Silva.

Patrick é uma pessoa com deficiência auditiva, possui perda bilateral e utiliza aparelhos auditivos. Durante o processo, observações recebidas sobre a articulação e o ritmo das falas chegaram a tocar em inseguranças relacionadas à deficiência. O ator conta que precisou transformar essas dificuldades também em parte do trabalho de construção da cena.

O festival terminou para Patrick com o prêmio de Melhor Ator Revelação. Ele já havia recebido uma premiação coletiva em festival de esquetes e uma indicação por direção, mas ainda não tinha conquistado um reconhecimento individual pela atuação. Para o ator, o troféu também passou a representar uma lembrança do caminho percorrido.

Patrick Lyan com o troféu de Melhor Ator Revelação. Foto: Ana Cristina da Silva.


O dia que eu estiver triste eu vou sim olhar pra esse boneco aqui de ouro e falar: ‘Calma! Calma! É só um processo, já passei por outros difíceis e cheguei até esse prêmio aqui e vou ter muito mais conquistas.’



— Patrick Lyan

O “boneco de ouro” citado por Patrick é o troféu do Prêmio Dona Orosina Vieira, nome adotado pelo festival em 2025. A estatueta representa Dona Orosina, mulher negra, parteira e rezadeira reconhecida como a primeira moradora da Maré. O novo modelo foi criado por Flávio Vidaurre, atual coordenador do Entre Lugares, e substituiu a figura de William Shakespeare, presente nos troféus das edições anteriores, por um símbolo diretamente ligado à história do território.

Estatueta do Prêmio Dona Orosina Vieira, troféu do festival que representa a mulher reconhecida como primeira moradora da Maré. Foto: Ana Cristina da Silva.

A participação no festival também marcou o início de uma pausa de Patrick no Entre Lugares. O ator começou um mestrado em Artes Cênicas e, por incompatibilidade entre os horários de sua nova rotina acadêmica e os encontros do projeto, pretende se afastar das atividades por cerca de dois anos. “Tá sendo também uma forma de encerrar essa etapa. Até breve. Depois volto”, disse durante a entrevista.

Para além da competição

Além das oito cenas concorrentes, a programação contou com apresentações realizadas fora da mostra competitiva. Depois da disputa, o festival recebeu ainda trabalhos convidados.

Em “Memórias”, personagens ligados à cultura brasileira conduziram uma reflexão que passou por figuras como Marielle Franco, Luiz Gonzaga e Cartola. A apresentação atravessou relações familiares e afetivas e utilizou referências à Estação Primeira de Mangueira em sua passagem pela memória e pela música.

A cena convidada “Memórias” reuniu referências a figuras da cultura e da história brasileira, entre elas Cartola e Marielle Franco. Foto: Ana Cristina da Silva.

Outra participação levou ao festival uma discussão sobre as possibilidades de trabalhar profissionalmente depois da formação artística. Na performance convidada “Aborte a Arte”, Mary Jane Cowzynski entrou em cena de joelhos, com as mãos presas e a boca amordaçada. Ao longo da apresentação, recipientes com líquido vermelho foram despejados sobre seu corpo. Sem falas durante a ação, a artista construiu uma imagem marcada pelo silenciamento e pela violência.

Após a performance, Mary Jane falou diretamente ao público sobre o chamado DRT e criticou o uso do registro profissional como medida da capacidade de um ator. A artista defendeu que a ausência do documento não determine a possibilidade de alguém exercer a atuação e afirmou que pretende continuar promovendo apresentações e ações sobre o tema.

A discussão faz referência à Lei nº 6.533, de 24 de maio de 1978, que regulamenta as profissões de Artista e Técnico em Espetáculos de Diversões. O Decreto nº 82.385/1978, que regulamenta a lei, prevê registro profissional prévio e inclui a atuação entre as funções abrangidas.

Momento da performance “Aborte a Arte”, de Mary Jane Cowzynski, em que líquido vermelho é despejado sobre a artista durante a ação cênica. Foto: Ana Cristina da Silva.

A presença da performance criou uma relação particular com o restante da noite. Enquanto Mary Jane questionava barreiras para o exercício profissional da atuação, o próprio festival mostrava artistas vivendo novas experiências e utilizando o Entre Lugares como espaço de formação e prática.

Antes da premiação, “Psiu!!! Gira Mundo!!”, com coreografia de Gabriela Luiz, reuniu participantes do projeto em uma apresentação coletiva de dança. Professora do Entre Lugares, Gabi acompanha ao longo do ano o trabalho corporal e de dança desenvolvido com os alunos. A Day, Jodeline Pierre e Patrick Lyan estiveram entre os artistas que retornaram ao espaço cênico para a apresentação, que percorreu diferentes músicas e referências antes do anúncio dos resultados.

“Psiu!!! Gira Mundo!!”, com coreografia de Gabriela Luiz, reuniu participantes do Entre Lugares em uma apresentação coletiva antes da premiação. Foto: Ana Cristina da Silva.

Outros reconhecimentos

Além das conquistas individuais de A Day, Jodeline e Patrick, outras premiações atravessaram trabalhos dos quais eles participaram. “Manifesto Transpofágico” ficou em segundo lugar na competição e recebeu os prêmios de Melhor Figurino, Melhor Iluminação, Melhor Trilha Sonora e Melhor Maquiagem. A montagem, baseada na dramaturgia de Renata Carvalho, questionou mecanismos de violência e marginalização que atravessam as vidas de pessoas travestis.

A participação das duas no festival também passou por outros trabalhos. A Day e Jodeline integraram “As Suplicantes”, primeira cena da noite, e também participaram de “Manifesto Transpofágico” na parte musical: A Day tocou teclado, enquanto Jodeline ficou na percussão. Assim, além dos trabalhos que renderam seus reconhecimentos individuais, as duas estiveram envolvidas em outras montagens da mostra competitiva.

Cena de “Manifesto Transpofágico”, segundo lugar da mostra competitiva e vencedor dos prêmios de Melhor Figurino, Iluminação, Trilha Sonora e Maquiagem. Foto: Ana Cristina da Silva.

O júri também concedeu três prêmios especiais. Joy Candido recebeu a distinção por sua evolução e desenvolvimento, enquanto Êlme foi reconhecido por sua evolução e pela primeira experiência na direção. “Mágica e Mágico, Somos Nós” recebeu o prêmio pela sintonia do grupo em cena.

Mais do que os troféus, as experiências de quem esteve no festival mostram um processo que começou antes da competição. A Day chegou ao Entre Lugares sem experiência anterior no teatro e, dez anos depois, assumiu sua primeira direção. Jodeline encontrou no projeto espaço para construir seu primeiro trabalho. Patrick, mesmo já tendo trajetória artística e formação na área, encontrou ali seu primeiro reconhecimento individual como ator.

Os três passaram por processos acompanhados dentro de um projeto que combina formação e prática. Renata Tavares aparece nos relatos dos participantes como uma das pessoas que orientam esse percurso, acompanhando trabalhos ainda em construção e auxiliando os grupos durante os ensaios.

No 13º Festival de Cenas Curtas Maré em Cena, o palco serviu para reconhecer trabalhos que chegaram ao público naquela noite. Para alguns dos artistas que passaram por ele, serviu também para experimentar uma nova possibilidade dentro do teatro.

Artistas, integrantes do Entre Lugares, jurados, apresentadores e público se reúnem para a foto de encerramento do 13º Festival de Cenas Curtas Maré em Cena. Foto: Ana Cristina da Silva.

Confira os premiados do 13º Festival de Cenas Curtas Maré em Cena:

Melhor Cena — Júri Popular: Arara Vermelha
1ª Melhor Cena: Arara Vermelha
2ª Melhor Cena: Manifesto Transpofágico
3ª Melhor Cena: Vaga Carne
Melhor Atriz: Angel Lua
Melhor Ator: Taylon Araujo
Melhor Atriz Revelação: Jodeline Pierre
Melhor Ator Revelação: Patrick Lyan
Melhor Direção: A Day — Arara Vermelha
Melhor Cenografia: Vaga Carne
Melhor Figurino: Manifesto Transpofágico
Melhor Iluminação: Manifesto Transpofágico
Melhor Trilha Sonora: Manifesto Transpofágico
Melhor Maquiagem: Manifesto Transpofágico
Prêmio Especial do Júri: Joy Candido — evolução e desenvolvimento
Prêmio Especial do Júri: Êlme — evolução e primeira direção
Prêmio Especial do Júri: Mágica e Mágico, Somos Nós — sintonia do grupo em cena

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