Texto e foto de capa por Ana Cristina da Silva
Nos dois últimos dias de agosto, o Projeto Entre Lugares Maré realizou a 12ª edição do Festival de Cenas Curtas Maré em Cena. Ao todo foram 14 cenas concorrentes que passaram pelos olhos atentos de 8 jurados. Realizado no Museu da Maré, o festival já é bem popular no território e costuma atrair um vasto público que aplaude de pé o trabalho ali apresentado. Como nos anos anteriores o Jornal O Cidadão apresentou a potência dos alunos do projeto, este ano dedicamos esta matéria para a ficha técnica que — sendo responsável pelo cenário, iluminação, som, produção e organização — faz um brilhante trabalho, tornando possível a realização deste evento tão querido no cenário cultural da comunidade.
Mas afinal, o que é o Entre Lugares Maré?
Já faz tempo que o festival do Entre Lugares atrai um público vasto. Entre eles, um público fiel composto por moradores da região, admiradores já renomados na área das Artes Cênicas, e até mesmo representantes de órgãos públicos. Na 12ª edição, por exemplo, estiveram presentes Mariângela Andrade, diretora de Educação e Formação Artística do Ministério da Cultura (MinC) e Eduardo Nascimento, Coordenador do Escritório Ministério da Cultura no Rio de Janeiro.
Para aqueles que ainda não conhecem, o Entre Lugares Maré é um projeto iniciado em 2012 no Conjunto de Favelas da Maré. Oferecendo oficinas gratuitas, o projeto já atendeu inúmeros jovens e adultos com aulas de teatro, dança, dramaturgia e criação artística.
Muito mais que um simples projeto, o Entre Lugares se tornou o berço de muitos atores, tendo formado a Cia Cria do Beco, responsável pelo espetáculo Nem Todo Filho Vinga, e o Coletivo Corte, que apresenta a esquete Querô, uma reportagem maldita, ambos vencedores na categoria de Melhor Esquete do Festival de Teatro Universitário (FESTU).
O projeto recebe novos alunos todos os anos, mas também mantém por perto os veteranos. A cada ano eles trabalham uma montagem de espetáculo, como Invencíveis, a peça-filme de 2021 que rendeu ao elenco o troféu Manoela Pinto Guimarães na categoria Jovens Talentos, no 16º Prêmio APTR de Teatro.
No início de 2024, o Entre Lugares Maré abriu as portas para uma nova turma: o Entre Lugares Maré Em CriAção, voltado para pessoas neurodivergentes e também PCDs. Este ano foi a segunda participação da turma no Festival de Cenas Curtas Maré em Cena que, por sua vez, é realizado desde 2013 na favela da Maré.
12º Festival de Cenas Curtas Maré em Cena
Diferente das edições anteriores, que traziam todas as cenas e a premiação em um único dia, o festival deste ano foi estrategicamente dividido. Sendo apresentado a partir das 18h no sábado e domingo, a proposta dessa mudança era tornar o evento mais tranquilo, tanto para a equipe do Entre Lugares quanto para o público.
Estando presente no primeiro dia do festival, nossa equipe realizou entrevistas com algumas pessoas que prestigiaram o evento, como Dougg Colarés. Sendo sua segunda vez no festival, Dougg, que também é jornalista e atriz, conta que conheceu o Entre Lugares pelas redes sociais.
“Como artista da cena, acho que é muito importante a gente não só consumir o teatro que é feito na Zona Sul, os grandes centros, mas também os que são feitos em periferias, favelas e especialmente o Entre Lugares. Acho que é um espaço muito grande de diversidade, tanto de linguagem como também de corpos, existências, e isso é o que me chama muito a atenção nesse festival”.
— Dougg Colarés.
Para ela, um dos grandes destaques do primeiro dia de festival foi a cena Yin e Yang, estrelada por João Emanuel e Mary Jane Cowzynski. “Ela (cena Yin e Yang) tem um trabalho muito bonito com o teatro de sombras, que privilegia menos a palavra oral, mas está ali, a palavra está no corpo, na experiência das pessoas artistas em cena”, diz Dougg.
Para Jessica Periard não foi muito diferente, a moradora da Penha já havia frequentado uma outra edição do festival, retornando este ano a convite de uma amiga. No entanto, acabou levando Jorge Mendes e Jaqueline Periard, seus pais. Sobre o festival, Jessica destacou a evolução de uma edição para a outra:
“Eu acho que pra mim o melhor foi como evoluiu, sabe? A maneira como as engrenagens se conectaram e evoluíram muito, porque quando eu vim era bom, mas eu não sei o que aconteceu… parece que envolveu muito mais a plateia desse jeito, sabe? Eu me senti lá dentro com as pessoas. Então tudo isso foi incrível pra mim, foi uma experiência única”.
Para seus pais, a 12ª edição do festival foi a primeira experiência, como conta Jaqueline: “Eu achei maravilhoso. Essa foi a primeira vez. Quando ela me convidou, eu fiquei meio assim, porque é distante (…) Mas aí chegou na hora até que viemos, mas gostei pra caramba”. Questionadas sobre a cena favorita do primeiro dia, mãe e filha concordaram: Fio Vermelho, das atrizes Pérola Canuto, Andryelle Lima e Mafe. “Esse tocou em mim, eu chorei horrores”, conta Jessica.
Quem faz acontecer
Não é segredo para ninguém que o festival é um sucesso, as fotos que registram o público de cada edição comprovam isso. É claro que essa popularidade se deve ao talento dos atores que se dividem para apresentar as cenas, mas o elemento X desse grande evento está no trabalho coletivo do projeto. Com uma ficha técnica composta por moradores da Maré que começaram como alunos, fica nítido que o Entre Lugares não forma apenas atores, mas também profissionais de diferentes áreas de atuação.
Lucas da Silva tem 27 anos e mora no Palace, Conjunto Esperança. Seu primeiro contato com o Entre Lugares aconteceu no ano de 2017, quando resolveu conhecer o festival e meses depois assistiu ao espetáculo Quebra Cabeça. De acordo com o mareense, no ano seguinte ele já estava por dentro dos bastidores do Entre Lugares vendo como tudo acontecia:
“Eu fiquei apaixonado, mano. Eu falei, cara, isso é uma carreira, isso é um ofício, sabe? Isso é um ganha-pão e eu acho uma parada muito nobre. Eu nunca pensei, nunca me vi em trabalhos mais formais, no escritório, CLT e tal. E eu sentia muita dificuldade, porque eu tinha muita vontade de fazer alguma coisa, mas não tinha muito propósito. E esse lugar me deu isso, tá ligado?”
No início, Lucas dava suporte ao iluminador João Gioia nas apresentações do projeto. Este ano, após passar por um período de especialização, ele assumiu oficialmente o cargo de iluminador do projeto e passou a operar o sistema de iluminação das apresentações, desde o mapeamento até a programação e equipamentos.
“Uma parada que a gente também aprende aqui é que tudo tá a serviço da cena. Então, tipo assim, sem saber o contexto, sem saber a cena, eu fico muito de mão atada. Vendo os ensaios, vendo a rapaziada, pra onde eles querem levar, eu consigo entender se é uma coisa mais aberta, se tem uma parte que tem uma quebra e é necessário um foco mais fechado, se é uma cena violenta, que tem sangue, e aí a gente coloca um vermelho, sabe? Se é outra cena, uma coisa mais lúdica, se joga um lavanda, um roxo, um azul. E daí a gente vai aplicando, né? Mas sempre a serviço da cena. A cena que diz a necessidade de como vai ser a luz”.
No festival, Lucas também contou com a assistência de Maya Oliver, aluna do Entre Lugares há 8 anos: “Eu comecei a estudar para iluminação cênica esse ano, e trabalhar aqui com o Entre Lugares, meu primeiro trabalho, está sendo muito legal”, disse a moradora do Conjunto Esperança.
Para o operador de som, Edson Martins, esse ato de se envolver com todo o processo de ensaios do Entre Lugares é o que torna o trabalho tão especial: “Aqui eu tenho a oportunidade de vir e acompanhar o processo, entender eles (atores), como que eles gostariam desse som, dar algumas sugestões (…) aqui, dentro do Entre Lugares, eu acho mais gostoso porque eu acabo acompanhando esse processo junto deles”.
Edson ingressou no Entre Lugares em 2013 como aluno. Naquele mesmo ano encenou no seu primeiro espetáculo do Entre Lugares: “H Contra os Paratudos”. Permanecendo no projeto desde então, foi somente em 2022 — quando a esquete Nem Todo Filho Vinga foi transformada em espetáculo — que Edson realizou seu primeiro trabalho como operador de som. “Eu comecei ajudando eles na operação de som. Acabou que eu fiquei, daí eu fui ganhando oportunidade aqui no Entre Lugares para poder desenvolver esse lado”, conta Edson, de 28 anos.
Quem também acompanha o projeto desde o início é Rafael Rougues, cenógrafo e assistente de produção do Entre Lugares. Participando do projeto há mais ou menos 13 anos, Rafael lembra que nos dois primeiros anos participou apenas de algumas aulas, entrando oficialmente só no terceiro ano. No entanto, seu primeiro trabalho com cenografia foi em 2015, no 3º Festival de Cenas Curtas Maré em Cena, onde trabalhou com a cena “Esperando Godot”, que também foi apresentada na 12ª edição. “Nesse primeiro ano que fiz a cenografia, foi o primeiro ano que eu ganhei como o melhor cenógrafo ali daquele festival”, lembra o mareense de 26 anos.
Segundo Rafael, o Entre Lugares não se limita pelos equipamentos ou recursos disponíveis, o projeto está constantemente criando alternativas para apresentar um teatro de qualidade:
“A gente trabalha com o teatro da guerrilha, né? Então a gente faz a reutilização de materiais que já foram usados em espetáculos, em festivais anteriores. E a gente ressignifica esse material (…) eu trabalho muito falando com eles (alunos) sobre detalhes. Que detalhe é muito mais importante do que quantidade. Para mim não faz sentido colocar um cenário que ele não tenha um uso em cena, sabe? Só para fazer uma imagem. Isso para mim não funciona e é a forma na qual a gente trabalha aqui há treze anos. É sobre usar esse cenário a favor da cena. Não só para fazer uma imagem bonita”.


Na contrarregragem, o festival também contou com o trabalho dos estagiários Alisson Rocha, de 20 anos, e Nala Mitcham, de 22 anos. Durante uma cena e outra, eles eram os responsáveis por montar e desmontar os cenários. A dupla também auxiliou no camarim, ajudando os atores com figurinos e objetos de cena, um trabalho essencial para a realização das cenas. “A gente se formou no ano passado, e esse ano a gente veio fazer novamente o estágio. O Alisson veio no festival do ano passado, essa foi a minha primeira vez. E é lindo, eu tenho gostado. (…) Acho que é sobre isso, sabe? Trazer essa cultura periférica, negra, e trazer essa arte, né? Que é tão excluída da nossa vivência”, conta Nala, moradora de Bonsucesso.
Prêmio Dona Orosina Vieira
Ao olhar as redes sociais do projeto, é possível perceber que, até a edição de 2024, o festival era representado pela imagem de William Shakespeare, uma figura de extrema importância para a história da dramaturgia. Shakespeare era visto tanto nas artes de divulgação quanto nos troféus da premiação do festival. No entanto, tudo mudou este ano.
Quem conversou com a nossa equipe sobre essa mudança foi Flávio Vidaurre, coordenador artístico, arte educador e cenógrafo:
“Mais ou menos dois anos atrás, houve um questionamento da Kátia Deusa (aluna veterana do projeto), que falou: ‘Poxa, Shakespeare, a gente sabe da importância de Shakespeare na dramaturgia mundial, mas não na representatividade, né?’ E aí, aquilo me acertou, chegou em mim de uma forma de ‘vamos repensar’, porque é isso, o material ele é renovável e mutável”.
Com tantos anos de atuação, o Entre Lugares Maré se destaca como um teatro que, seja através da comédia, do drama ou da tragédia, costuma buscar o atravessamento do público ao explorar a vivência de corpos pretos, favelados e LGBTQIAPN+, quase sempre há o vislumbre de uma crítica social, uma fagulha que incendeia o lado reflexivo de quem assiste aos seus trabalhos.
Então, no intervalo de tempo, de 2024 para 2025, o projeto começou a pensar na substituição da figura de Shakespeare para outra que dialogasse melhor com o Entre Lugares, surgindo então Dona Orosina Vieira: a primeira moradora da Maré. Mulher preta, parteira e rezadeira.
“Escolher a Dona Orosina foi exatamente por isso, pelo festival que tá sendo feito na garra, na resistência, na luta. Eu acho que o símbolo da Dona Orosina representa exatamente isso, essa resistência, essa luta do povo mareense”.
A partir desta edição, a premiação, que antes não possuía nome algum, passou a se chamar Prêmio Dona Orosina Vieira. Os vencedores desta edição receberam o troféu produzido por Flávio. Feito de gesso e decorado com tinta dourada e folhas de ouro, o troféu foi moldado para representar a figura de Dona Orosina.
Confira abaixo os vencedores de cada categoria da 12ª edição do Festival de Cenas Curtas Maré em Cena:
1ª Melhor Cena: Próteses de Proteção – O mito da Travesti contra o carro-falo
2ª Melhor Cena: Antígona
3ª Melhor Cena: Yin e Yang
Atriz revelação: Nega Lu
Ator revelação: Miguel Furtado
Atriz: Kaôrí
Ator: Taylon Araújo
Cenografia: Pareidolia
Figurino: Próteses de Proteção – O mito da Travesti contra o carro-falo
Trilha sonora: Arena
Maquiagem: O Rei da Vela
Texto autoral: Pareidolia, de Vitor Gabriel
Voto popular: O bem amado
Especial do júri: Yin e Yang – Pela linguagem e pesquisa cênica
Iluminação: Yin e Yang
Prêmio de participação: Vanessa da Silva
Prêmio Novos Talentos: Nas Asas da Liberdade (Turma da tarde – Maré em Criação)
Prêmio especial ao Museu da Maré – Espaço de Potência Artística





