Entrevistas: Ana Cristina da Silva, Carolina Vaz e Christóvão Carvalho
Foto de capa: Ana Cristina da Silva
Texto: Carolina Vaz
Quantas histórias cabem numa sala de aula? Se essa sala for na Escola Bahia, talvez nem caibam as histórias de dezenas de milhares de estudantes que já passaram por ali. Isso porque a escola completou 90 anos no dia último 12 de março.
Ela foi inaugurada em 1936, no governo de Pedro Ernesto Baptista. Na História oficial e na história das pessoas, a Escola Bahia e o Colégio Bahia se misturam e se confundem, mas no fim todas as histórias são sobre esse prédio construído “em Bonsucesso”, mais especificamente na Praça Paris. Sequer a Variante, primeiro nome atribuído à Avenida Brasil, existia naquela época.

A Escola Bahia foi uma das escolas idealizadas pelo educador Anísio Teixeira. Estamos falando de 1931, aproximadamente, quando o Rio de Janeiro era a capital do Brasil, e Teixeira era o diretor de um órgão do Distrito Federal chamado Instrução Pública. Após um estudo identificar que menos da metade da população de 6 a 12 anos estava nas escolas, ele criou um plano para a construção de novas unidades. Na parte dessa história que compete a Bonsucesso, entra o personagem Guilherme Maxwell, dono daquele terreno, que fez a doação para o governo. Lá foi construída a escola.
Informação importante é que naquela época várias escolas tinham sido residências adquiridas pela prefeitura e eram inadequadas na composição das salas, iluminação, entre outros aspectos. O plano de Anísio Teixeira envolvia construir escolas adequadas: haveria sala de aula, salas para administração, secretaria e biblioteca, além de um espaço externo para a educação física. A Escola Bahia já nasceu nesse propósito. E, já que estamos falando de personagens históricos, é importante mencionar também que a escritora Cecília Meirelles foi diretora da escola por volta de 1950.
Infância, adolescência e vida adulta
A Escola Bahia carrega as memórias de uma unidade educacional que passou por muitas fases do ensino “básico” no Brasil. Hoje, os 90 anos são comemorados na Escola Municipal Bahia, onde há o Ensino Fundamental II; o Colégio Estadual Bahia só foi inaugurado em 1972 e passou a assumir o Ensino Médio. Mas, para quem passou por lá, é tudo Bahia. “O Bahia”, como chamam. Mesmo porque, na inauguração, não era tão clara a diferença entre município, estado e Distrito Federal.
Uma das pessoas que viveram as duas fases do ensino lá foi a arquivista Marli Damasceno, de 65 anos, natural do Morro do Timbau. A Escola Bahia foi a primeira onde ela pisou, em 1967, na primeira série, com 6 anos. Não existia jardim, C.A. ou ensino infantil em geral, e ela já entrou na alfabetização. Marli ficou até a quinta série e teve que sair porque a escola entrou em obra. Estudou em Ramos e Olaria, mas voltou, já para o Colégio Bahia, em 1977, para fazer o Ensino Médio, também chamado de Colegial. Naquela volta, ela precisava escolher qual curso faria junto do ensino regular. Entre Comércio e Contabilidade, ela escolheu Comércio. “Mas, assim, quando eu entrei no colégio, no segundo grau, é assim… parecia que eu estava entrando lá quando eu estava lá no primário, entendeu?”, ela comenta com nostalgia.
Essas são lembranças de uma escola pública na capital do país, na época da Ditadura. O ensino era rígido e a vigilância sobre os comportamentos também. Ela lembra da diretora Greice Graça da Silva: “Era uma diretora bem rígida, no sentido de que tinha que estar tudo certinho. Se os alunos estivessem fora do lugar, ela ia lá e falava”. Outra lembrança é de uma prática diária: todos os dias, os alunos cantavam o Hino Nacional antes da aula, provavelmente no espaço onde hoje é a quadra. O muro era baixo e os pais vigiavam do lado de fora até os alunos entrarem. O ensaio para o desfile de 7 de Setembro, ali na Avenida Paris, também era uma obrigação das crianças. Ela lembrou, também, de uma disciplina que, com o tempo, foi extinta: OSPB. Usava-se a sigla para falar de Organização Social e Política Brasileira, uma matéria regular junto com História, Geografia, Ciências e outras, mas que ensinava sobre hierarquia no sistema político brasileiro, noções de cidadania e patriotismo, no viés do governo militar.
Os melhores anos da juventude
A Marli estudou muitos anos na Escola Bahia, mas nem todo mundo que nutre carinho pela escola teve o mesmo percurso. A Júlia Renata de Melo, moradora do Timbau de 49 anos, teve duas passagens por lá também. E, apesar de curtas, ela lembra com muita nostalgia. Júlia entrou no início dos anos 1980 para a Classe de Alfabetização, o CA. Faz tempo, mas ela se lembra de uma história clássica das escolas: “Eu lembro que, com sete anos, eu tinha medo de subir aquelas escadas, tinha pavor, porque tinha a história da mulher loira do banheiro”. A “loira do banheiro” é a lenda de uma mulher loira, já morta, que aterroriza crianças e adolescentes nos banheiros de escola. Mas, fora a loira, Júlia também lembra de coisas boas: o almoço, que era muito bom segundo ela, e a aula de Educação Física na quadra emprestada pela instituição militar ao lado, o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR). Na verdade, ela gostava da aula para ficar conversando com as amigas. Ali era o centro de sua vida social, afinal, na sua casa, o comando era: de casa para a escola e da escola para casa.
Devido a mudanças da família, que foi passar um tempo na Paraíba, ela ficou poucos anos no Ensino Fundamental da Escola Bahia. Voltou em 1993 para retomar e entrou para a quinta série. Teve que sair na sexta, aos 17 anos, porque engravidou. “Aí eu não quis mais ir para a escola. (…) Eu tinha vergonha. Eu, Júlia, ir para a escola grávida? (…) E eu escutei dentro de casa: ‘agora você vai cuidar do seu filho, do seu marido’”. Mais tarde, ela concluiu os estudos do Fundamental pelo Telecurso 2000 e em 1999 voltou à escola para fazer um curso de datilografia.

“A escola foi a melhor parte da minha vida, daquela época! (…) Os outros podem tirar tudo de você. Você pode morar na rua, mas o conhecimento que você adquire de estudar, isso ninguém tira de você”.
— Júlia Renata, ex-aluna e mãe da Beatriz
Após ter tido a educação escolar interrompida, Júlia passou a ensinar seus filhos a valorizar os estudos. Dos quatro filhos, o mais velho, Luiz Felipe, também estudou “na Bahia” na sexta série. E agora, a caçula Beatriz, de 17 anos, entrou para concluir o terceiro ano.
A escola que acolhe
Alguns dos principais momentos da vida podem ser vividos na escola, e este foi o caso de Leonice Alves, de 44 anos, moradora da Baixa do Sapateiro. Ela cursou o primeiro e segundo anos do Ensino Médio no Colégio Bahia, entre 2001 e 2002. Pela sua fala, Leonice comprova a fama do colégio naquela época: tinha muitos amigos que moravam próximos e também estudavam lá, e iam todos juntos para a aula. Se hoje na Maré só existem quatro escolas para o Ensino Médio, há 25 anos eram só duas. Ela lembra da época com carinho: “No meu primeiro ano, né? Foi aquele… o conhecer ali de todo mundo. (…) No Ensino Médio é tudo diferente, muito mais matérias e professores também. E quando foi no 2º ano eu já tinha mais entrosamento com os professores”.
Leonice se recorda, especialmente, da professora de português, a Nazaré, porque no final do 1º ano ela engravidou, e a professora preparou uma surpresa: “Ela reuniu os alunos escondida de mim… e eu que era representante de turma não sabia! Aí ela fez uma super festa, um chá de bebê pro meu filho!”. Após o parto, ela ficou alguns meses de resguardo e depois voltou para a escola. Pediu autorização ao diretor e passou a levar a criança, que era cuidada em coletivo pelos amigos. Mais de 15 anos depois, seu filho mais velho, Matheus, também estudou no Colégio Bahia, e agora a filha Linda, de 19 anos, também está concluindo os estudos lá.

Além da boa convivência com professores e colegas, Leonice tem outras lembranças carinhosas, como o professor de teatro que gostava de fazer atividades na quadra à noite e os momentos de jogar ping-pong, isso sem falar da socialização ali do lado de fora: “Sexta-feira, então, ficava ali todos os alunos sentadinhos… tinha o Angu do Russo… era muito bom!”. Assim como a Júlia, a Leonice não conseguiu terminar os estudos no Bahia devido à maternidade e ao casamento, mas depois, em 2004, ela passou a frequentar o CEJA Maré e concluiu. Na pandemia, fez curso para ser professora de educação infantil, e se tornou educadora também.
Boa localização e ensino
Outra educadora, Aline Melo, não pensou duas vezes antes de matricular a filha na Escola Bahia, certa da qualidade do ensino. Ela é mãe de Thalia de Lima, de 11 anos, que cursa o 6º ano na Escola. Mas, além de levar a filha todas as manhãs, Aline “bate ponto” lá também à noite: a moradora da Vila do Pinheiro, de 43 anos, é professora de espanhol no Colégio Bahia, dando aula para o Ensino Médio. A boa convivência com todos os profissionais do Colégio, inclusive muitos que são professores tanto no município quanto no estado, foi importante para a escolha. “Quando eu fui levar ela, quase todos os professores eu já conhecia (…) E eles são bons professores, são formados, a maioria tem pós-graduação, mestrado, alguns com doutorado”. Outra vantagem foi a Thalia ter continuado a frequentar a Orquestra da Maré: o projeto executa aulas em escolas do bairro, como era o caso da E.M. Paulo Freire onde ela estudava antes; agora, na Escola Bahia, Thalia pode continuar as aulas de canto.

Para além do prestígio da escola, pesou para a escolha de Aline a localização, no momento da transição entre 5º ano (fim do Fundamental I) e 6º ano (início do Fundamental 2). Localizada exatamente na Avenida Brasil, a unidade não fecha quando há operação policial, o que acontece quase toda semana: “Ela não é alvo de tanta violência, tiros na hora da operação, porque ela fica afastada, né? De onde ocorrem as maiores confusões. Por isso que eu escolhi para a minha filha, e também para poder trabalhar”. A Escola funciona no turno único, o que significa que os alunos ficam lá de 7h30 às 14h10, quando fazem o lanche e são liberados. Para os responsáveis, é um horário mais fácil para levar e buscar, sem atrapalhar tanto o turno de trabalho. Já olhando para o lado do Ensino Médio, que entra às 15h e sai às 20h, ela destaca as atividades extracurriculares: palestras do SENAC e do SENAI, idas ao teatro, visitas em universidades e muitas outras. “Às vezes eles (os alunos) nem querem fazer a faculdade. Mas indo, conhecendo (…) abre o horizonte do aluno, ele não fica tão fechado. A Unisuam é ali, eles não sabiam, tem a Estácio, a UFRJ, pode ir à pé”, ela comenta.
Aprendizado e convivência
Flávio Aragão, diretor da Escola Municipal Bahia, reconhece que a localização colabora para a grande procura por matrícula na unidade, mas também o fato de ser um espaço “fechado”: os portões de entrada e saída dos alunos só abrem quando realmente há liberação, e como o prédio fica próximo das entradas, são menores as chances de haver alguém externo à instituição circulando lá dentro. Mas ele também reconhece, com orgulho, a fama histórica da escola pela qualidade de seu ensino e, inclusive, por atividades extracurriculares que sempre houve no espaço. Uma parceria considerada marcante foi o Programa Criança Petrobrás, um programa financiado pela Petrobrás e executado pelo CEASM em diversas escolas da Maré, incluindo os ensinos fundamental e médio do Bahia. Foram milhares de estudantes atendidos, em oficinas e projetos como canto e coral, desenho, música, fotografia, hip-hop e o próprio Preparatório para Ensino Médio, que acontecia no CEASM. O Programa foi executado entre 2000 e 2007.

Hoje a escola não possui um projeto deste porte, pela falta de parcerias, mas o diretor também avalia que a unidade foi se adaptando às necessidades da vida escolar. A escola que já teve 1000 alunos estudando ao mesmo tempo hoje tem 700, divididos em 18 turmas. Todos eles fazem três refeições na escola (café, almoço e lanche) e ocupam quase todo o tempo em que a escola está aberta até “transformar-se” no Colégio Bahia. Ou seja, eles estudam as matérias regulares das 7h30 às 14h10, sobrando pouco espaço para atividades a mais.
Além disso, hoje a unidade também é chamada de Ginásio Educacional Tecnológico (GET), denominação que, além de implementar o horário integral, abriu a possibilidade de atividades mais práticas, digitais e interativas, no “colaboratório” instalado. Flávio comenta as expectativas para explorar esse aspecto em 2026: “A partir desse ano, escolas com um número grande de turmas, como é o nosso caso, terão um professor no colaboratório vindo diariamente. Encontrando os alunos, agindo junto com o professor em sala de aula. Então, a gente acredita que, agora, a gente consiga realmente aproveitar a totalidade do que é o GET”.

Os 90 anos da escola não “passaram batido”, e ativaram a curiosidade de várias professoras, entre elas a Cristiane do Nascimento, professora de História na escola, atuando desde 2020. Ela comentou a alegria de trabalhar lá: “Para mim, é uma coisa interessante, porque voltar à Maré é uma coisa importante. Eu fui moradora do Complexo da Maré, fui estudante de escola pública (…) Isso faz diferença até nas aulas”. Ex-moradora e pesquisadora, ela não pôde deixar de se fascinar pela história desta unidade educacional, tombada pela prefeitura do Rio por sua arquitetura de estilo modernista e, sobretudo, carregada das memórias de tantas gerações que por ali passaram. Por isso, ela lidera o projeto que resgata os 90 anos da escola: “A nossa ideia é valorizar essas histórias. É uma discussão que a gente tem sempre em sala de aula, que é: a História é de todo mundo, não só dos grandes personagens. Queremos valorizar as histórias pessoais como relevantes”.

Por fim, trazemos aqui o testemunho de uma pessoa que ainda será lembrada por várias gerações de mareenses, uma personagem marcante das últimas três décadas na Escola Bahia: Helma Silveira, funcionária da secretaria e ex-professora. Ela está por lá desde 1999, tendo completado 27 anos “na Bahia” em março. Formada em Matemática, Helma foi professora até 2004, depois por problemas de saúde precisou sair da sala de aula e foi para a Secretaria. É lá que ela vem matriculando mãe, filhas, fihos e pais de uma mesma família, reconhecendo rostos, e sendo a pessoa que vai acolher cada nova aluna ou aluno no espaço. “Quando eu faço matrícula, até o diretor fala que eu faço uma enquanto ele faz três. Porque eu pergunto as coisas: você já estudou aqui? Eu fico fuxicando”, ela conta rindo. Nesse tempo na escola, Helma passou três anos na função de coordenadora, e para ela foi um dos melhores períodos, por poder transitar por todos os setores, movimentar a escola com festas e comemorações, e ouvir as mães de alunos.

Quando perguntada sobre o prestígio da escola na comunidade, ela diz que é porque a escola “pega todas as regiões”. Quem é local vai entender a importância de receber, na mesma sala de aula, um aluno da Nova Holanda e um do Conjunto Esperança para deixar acontecer a magia da vida escolar: a convivência e criação de laços. “Eles jamais se conheceriam, e aqui eles podem conversar… eles gostam de vir para ter essa troca com os outros mesmo!”, ela conta. Já emotiva, ela comenta sua história com a escola e a proximidade da aposentadoria: “Eu vou sentir saudade da Escola Bahia. Foi assim, uma vida… meu filho vinha pra cá, ele brincava aqui… a gente tem um carinho muito grande!”.
Veja mais curiosidades sobre a Escola Bahia:
- A escola teve 36.600 alunos entre 1978 e 2000, segundo nosso jornal, edição número 4. É muito provável, então, que mais de 100.000 pessoas já tenham estudado lá. Uma delas teve um destaque inesperado: tornou-se Miss Brasil. Márcia Gabrielli, nascida em 1962, era natural do Morro do Timbau, onde morava com seus pais Irineu de Oliveira e Enedina Canavezes. Ela seguiu a carreira de modelo e se tornou Miss Mato Grosso; após, em 1985, foi coroada Miss Brasil. No concurso para Miss Universo, ela ficou entre as 10 primeiras.

- O estilo arquitetônico da Escola Bahia foi denonimado por Anísio Teixeira como Escola Platoon, composta de salas “comuns” e salas “especiais”. Ou seja, além das salas de aula comuns ele previa salas especiais para auditório, música, recreação e jogos, leitura e literatura, ciências, desenho e artes industriais. Havia ainda o gabinete médico-dentário e as salas administrativas.





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