Foto de capa: Ana Cristina da Silva.

Entrevistas: Ana Cristina da Silva, Carolina Vaz e Christóvão Carvalho

Texto por Christóvão Carvalho


Entre a Baixa do Sapateiro e o Pontilhão, existe um bloco de casas situado em frente à Vila Olímpica. Ali, famílias foram contempladas com casas do programa Favela-Bairro e deixaram suas antigas casas de palafitas. O lugar se destaca pela construção e pela proposta urbanística idealizada por três arquitetos.

A seguir, você conhecerá mais uma favela da série do jornal O Cidadão, onde apuramos histórias de territórios que ganharam nomes popularizados por moradores. Dessa vez, conheça a Casinhas.

Nossa série de reportagens

Até aqui, esta é a 4ª produção que preparamos para esta série de lugares da Maré. Nessa jornada, falamos de Tijolinho, Favela da Galinha e Portelinha.

Conversamos com pessoas de diferentes gerações, conhecemos histórias desses lugares e compartilhamos essas memórias.

Veja nossas outras produções da série:

História nas palafitas

Fruto de resistência e sobrevivência, a favela da Maré se ergueu pela força da própria população, a partir da década de 50, que chegava de diversas regiões do país em busca de oportunidades de trabalho e melhores condições de vida.

Sem moradia e diante de um território alagado e negligenciado pelo poder público, famílias começaram a habitar e construir suas próprias casas, entre a Baía de Guanabara e a Avenida Brasil.

Na década de 90, os moradores da Maré viviam momentos finais da transição das casas de palafitas para a moradia em aterramentos dentro da favela, e é importante ressaltar que boa parte desse processo começou pelos próprios residentes – como do Parque Maré – que se negavam a deixar o lugar um dia esquecido pelo governo.

Algumas casas, porém, ainda se estabeleciam principalmente às margens da Baía de Guanabara. Entre essas famílias, estava o casal de baianos Carlos da Silva Gama (85) e Edite Alves da Silva (82), conhecida pelo apelido de Baiana. Eles chegaram ao Rio de Janeiro em 1965. Entre idas e vindas de sua terra natal, foi na Maré que firmaram moradia nas palafitas e criaram seus nove filhos – incluindo Leonice Alves da Silva (44).

Baiana comenta: “Minha mãe e meus irmãos eram daqui. Eles me ajudavam. Aí, graças a Deus, eu até hoje gosto muito daqui. Ninguém me fala de tirar eu da Maré. Foi o lugar que Deus me mostrou. Que eu ficasse até hoje. Foi a Maré”.

Como peças de LEGO

Uma publicação no site do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR) detalha que, ainda na década de 90, um concurso de construção de habitações promovido em São Paulo pelo governo municipal de Luíza Erundina premiou Demetre Basile Anastassakis, que aplicou um novo formato de construção com blocos cerâmicos estruturais – uma espécie de tijolo – para erguer o Conjunto São Francisco.

Arquiteto, urbanista, professor e líder do coletivo Co.Opera.Ativa, Demetre foi conhecido como “arquiteto dos pobres”, pois priorizava suas energias em soluções de habitação para populações de baixa renda.

Entre outros projetos, Demetre liderou a “Reurbanização da Maré” junto das arquitetas e urbanistas Valéria Hazan e Andrea Fiorini. A frente foi incorporada ao programa Favela-Bairro, durante a administração do prefeito César Maia, e favoreceu a construção da Nova Maré, em 1996.

O fato curioso fica por conta da inspiração promovida pelos profissionais, já que as casas foram erguidas sob influência de blocos de montar dinamarqueses, popularizados pelos brinquedos da LEGO.

Anterior a esse projeto, em 1994, Demetre também participou da construção do Conjunto Bento Ribeiro Dantas. Ao todo, segundo o Censo Populacional da Maré de 4 de maio de 2020, foram 1887 casas levantadas entre as duas favelas mareenses.

Casa, no ano de 2000, do conjunto Nova Maré, idealizada pelo arquiteto Demetre Anastassakis e inspirada nos blocos de construção LEGO. Foto: Deise Lane e ADOV/Museu da Maré.

Primeiros moradores e primeiras dificuldades

Em 1996, a notícia da entrega das casas foi recebida com muita alegria pelos moradores que já haviam sido prometidos a recebê-las. Mãe de seis filhos, Maria Francisca Paula (66) foi uma das contempladas. Antes, ela morava em São Cristóvão, mas um carro caiu em sua antiga moradia e a prefeitura concluiu que o espaço era área de risco. Assim, ela foi conduzida a quartos temporários no Pinheiro.

Dona Paula relembra com alegria o dia da entrega da chave. Ela estava em seu trabalho quando recebeu a notícia por telefonema e correu para receber a chave: “Vim embora pra casa. Aí recebi minha casa. Fiquei toda feliz. Casa grande. Fiquei feliz num lance, né? Dois quartos, sala, cozinha, banheiro. Uma área enorme”.

Dona Paula foi uma das primeiras moradoras da Casinhas após ter sua antiga casa atingida por um carro. Foto: Ana Cristina da Silva.

A família de Diogo Santos (43) também foi uma das primeiras a chegar. O fotógrafo de rua nasceu no Piscinão de Ramos e era mais um morador das palafitas. Ele lembra que, na época, aos 15 anos, a notícia já havia se espalhado em sua vizinhança: “Já estava rolando um boato durante aquela semana, só que o povo não acreditava muito, porque já tinha havido várias vezes esse papo que a gente ia sair. Aí, um belo dia, eles chegaram lá com caminhão, com tudo, com a prefeitura, acordando todo mundo e trazendo todo mundo pra cá”.

Baiana e Carlos também estiveram na entrega das chaves. A mulher reivindica o título de primeira moradora. Ela relata que, naquele dia, representantes da prefeitura a ajudaram a levar seus pertences da antiga palafita e explica que houve uma invasão de outras pessoas nas casas recém-construídas, antes da entrega, e que estas foram danificadas a ponto de deixar até mesmo sem energia elétrica. “Uma moçona alta, bonita, me acompanhou com livro pra eu escolher a casa. Eu escolhi aquela quina ali. (…) Aí no outro dia que foi chegando. Foram trazendo gente, foram trazendo gente… e eu dando luz pros outros, emprestando”.

Diogo também lembra das dificuldades hídricas, pois os moradores precisavam buscar água em uma única bica disponível para todos. “O prefeito na época, acho que era o César Maia, ele colocou a gente aqui, mas não estava pronto ainda. Tanto que a gente ficou um ano pegando água na bica, não tinha luz ainda”.

O fotógrafo de rua Diogo Santos e sua família receberam uma das diversas casas distribuídas pela prefeitura do Rio, em 1996. Foto: Ana Cristina da Silva.

Entre o planejamento e a realidade

Um artigo chamado Colonialidade Territorial e Arquitetura Popular da Favela, produzido por Maini de Oliveira, traz um contraponto ao projeto arquitetônico de Demetre Anastassakis, que apesar de tirar famílias das palafitas, não contempla a escuta ativa dos interesses e necessidades dos próprios moradores.

A então doutoranda também apontou evidências de que houve uma desconsideração da diversidade de moradia na favela. Além disso, Maini acredita na imposição de modelo de moradia, de forma que o projeto “fixo” não permite a expansão das casas, um movimento natural entre os moradores. Ela também relata: “Além desse desencaixe entre a proposta e seu lugar de implantação, outro fato que merece destaque diz respeito ao fato das casas não serem rebocadas, o que aos olhos dos moradores pode remeter a uma construção inacabada”.

Genilda (62), mais conhecida como Dona Gê, é mais uma baiana moradora da Casinhas, e chegou em 1997 do Jacaré, outra favela carioca. Ela comenta que o lugar foi modificado ao longo do tempo pelos próprios moradores: “Tem muitas casas aí que foram mexidas, feito obras, né? (…) Porque isso aqui era tudo poça d’água, era tudo água (…) aí foi os moradores que fizeram… Foi cimentando, né? Fazendo cobertura. Essa cobertura mesmo foi eu que fiz”.

Dona Gê também é uma das antigas moradoras. Ela chegou do Jacaré no ano seguinte do início da distribuição das casas. Foto: Ana Cristina da Silva.

Devido à padronização, Diogo Santos lembra que as pessoas entravam nas casas erradas por engano. O cenário mudou quando ele se arriscou e realizou modificações em sua casa: “Eu tirei o telhado e coloquei uma laje. O pessoal tudo falando que ia cair e tal, que não tinha estrutura. Falei: ‘cai nada, esse telhado aí pesa pra caramba’. (…) E aí, passou uns cinco anos, minha casa não caiu e os vizinhos começaram a fazer também (…) Os moradores foram tendo filhos, foram crescendo, aí foram fazendo os puxadinhos”.

Outro ponto de atenção para os moradores é o tratamento de esgoto e a falta de coleta regular de lixo, que contribuem para alagamentos em dias de chuva e mau cheiro.

Nova Maré ou Casinhas?

Dona Gê se diz acolhida pela favela e, em poucas palavras, explica que o lugar é conhecido por ambos os nomes desde aquela época: “Era já do povo mesmo, né? Um só chamava Casinhas, outro só chamava Maré”.

O fotógrafo desconhece o duplo nome, mas teoriza: “Eu acho que deve ter sido alguém que deve ter falado em algum momento: ‘ah, as casinhas da Baixa e tal”.

Dona Paula também reconhece apenas como Casinhas e acrescenta que, na época, os novos residentes eram mal vistos sem motivo aparente: “A gente era até julgado, o preconceito que eles tinham com a gente, por causa que era a Casinhas, né? A gente não tinha valor, não. Hoje em dia, quem morava lá, mora aqui”.

Histórico de violência

Por cerca de 20 anos, a Casinhas foi marcada pela violência entre facções, desde 1998, segundo Diogo. Ele conta como foi a época enquanto mostra resquícios das trocas de tiro em paredes, telhados e postes que permanecem até os dias atuais. Ele relata: “Foi um período muito difícil. Porque a gente perdeu vários amigos, porque é uma guerra que é do nada. Do nada tava tudo em paz e aí começava o tiroteio e aí correria, gritaria, gente baleada. Tenho parentes que já foram baleados. (…) Mas graças a Deus hoje tá tudo tranquilo. Tomara que continue assim. Acho que desde a pandemia pra cá acabou a guerra”.

Mesmo com o aparente acordo de paz estabelecido, a vida do mareense continua insegura por outro motivo: a violência do Estado.

Baiana considera que a vivência era melhor antigamente, que mesmo com a dificuldade de conseguir água e luz, a abordagem policial na favela era mais civilizada com o morador, e que atualmente são mais imprevisíveis e violentas: “Naquela época era melhor, porque não tinha essas invasões doidas aí. Os PM chegavam, perguntavam às pessoas. Se era numa porta ou num portão, eles perguntavam ali. Conversavam com as pessoas com educação. Não tinha esse negócio de chegar invadindo tudo, não. E nem essa bagunça de agora não”.

Sr. Carlos, Leonice e Baiana. A família mareense migrou das palafitas e se estruturou na Casinhas em 1996. Foto: Ana Cristina da Silva.

Vida nas Casinhas hoje

Hoje, a Casinhas reúne espaços de lazer e serviços que facilitam o cotidiano, embora ainda existam desafios na infraestrutura.

A Vila Olímpica Seu Amaro é um dos principais pontos de convivência da favela, com fácil acesso para crianças e jovens. Já o projeto Uerê, criado por Yvonne Bezerra de Mello, atua como reforço escolar e apoio ao desenvolvimento de crianças e adolescentes.

Filha de Baiana e Carlos, Leonice revela a boa relação com o projeto: “Meus filhos, os três – mais velhos – participaram. E o meu mais velho, ele sempre tocou violino. E teve uma orquestra, ele teve que ir, e eu pude participar nesse dia. Aí eu fui assistir ele lá. Graças ao projeto que teve aqui dentro, que, pelo meu ver, é o único projeto que tem aqui dentro das Casinhas”.

O Projeto Uerê é uma das principais iniciativas na Casinhas, atuando como reforço escolar e apoio ao desenvolvimento infanto-juvenil. Foto: Ana Cristina da Silva.

Apesar dos avanços, moradores ainda apontam dificuldades. A Clínica da Família Jeremias Moraes da Silva é criticada pelo tempo de espera, e a entrega de correspondências segue concentrada na associação de moradores. Em dias de chuva, problemas de escoamento e lixo também afetam a região.

Diogo compara com as condições nas palafitas: “Lá a gente não tinha endereço, não tinha como chegar nada pra gente. Muita gente ia procurar emprego, mas nunca sabia se tinha conseguido a vaga, porque não tinha correspondência e tal. Acho que aqui a gente teve um pouco mais de qualidade de vida, do que na época”.

Gratidão e esperança de futuro

À exceção da família de Leonice — em que ela e os pais estavam juntos — as entrevistas foram realizadas sem que um soubesse da entrevista do outro. Essa informação se faz importante pelo fato de que todos relataram histórias, destinos e sentimentos semelhantes.

Alguns vieram de palafitas, outros chegaram “trazidos” de outras partes do Rio. Entre problemas arquitetônicos e saneamento básico incompleto, os moradores se mostraram felizes por suas moradias.

O fim da violência entre facções é outro ponto positivo para a favela. Diogo, que presenciou os momentos de tensão durante sua adolescência, confia que o espaço seja seguro para o crescimento de seu filho:  “Daqui a pouco ele desce, vai na Vila Olímpica. (…) Ele consegue andar de bicicleta à vontade, (…) à noite também. Hoje está bem tranquilo”.

Sr. Carlos, pai de Leonice, não mediu esforços para contar um pouco de sua trajetória e se diz em casa, assim como seria na Bahia: “Eu não tenho o que dizer da Maré. A maioria dos meus filhos nasceram aqui. Trabalhei. Saía 5 horas da manhã. Chegava no outro dia, 5 horas da tarde. 24 horas trabalhando. Noite, dia e noite. Pra sustentar a minha família. (…) Somos sobreviventes. Vivemos aqui. Nunca passei fome. Nem eu, nem minha família e nem meus filhos. Trabalhei desesperadamente, pedindo força a Deus, coragem e disposição. E hoje eu tô aqui com meus 85 anos”.


Agradeço muito a Deus e a esse governo que fez isso pra gente. Hoje, a gente aqui pode dizer que nós somos ricos. Entendeu? Em vista de quem nós era… Era Maré dentro d’água, era barraco de tábua, mas hoje a gente tem uma casa de tijolo. Não custou nada pra gente. (…) A gente não tem a capacidade de fazer uma casa assim… rapidinho. Deus, em primeiro lugar, deu a competência a quem deu a competência de fazer. Fez. Estamos aqui.

– Carlos da Silva Gama, morador da Casinhas.


Vista panorâmica mostra algumas moradias da Casinhas no segundo semestre de 2025. Foto: Ana Cristina da Silva.

 

Deixe uma resposta

EM DESTAQUE

Descubra mais sobre Jornal O Cidadão do Bairro Maré

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading