Foto de capa: Ricardo Mirapalheta
Texto por Carolina Vaz
Um prédio alto, com fachada preta, cheio de plantas e dois portões de acesso, no meio do Morro do Timbau, mas que assumiu outro nome: Portelinha. Na nossa última matéria “Que lugar é esse” falamos sobre como um espaço aparentemente “vazio”, ocupado por uma ciclovia e uma praça, tornou-se a Favela da Galinha, onde as pessoas começaram a subir suas casas, hoje já plenamente reconhecidas. A ocupação da Portelinha veio da mesma motivação: um local para morar. Mas ali não era um terreno vazio, na verdade era uma fábrica vazia, uma fábrica de cimento chamada Quartzolit, instalada na Maré por volta dos anos 1970, mas que encerrou atividades nas décadas seguintes. Estima-se que a ocupação para moradia tenha começado por volta de 2003.
Quem nos ajuda a contar essa história são o Emanuel Lopes Lima, também conhecido como Mestre Manoel, fundador do Centro de Cultura Popular Ypiranga de Pastinha, e o professor de música Ricardo Mirapalheta, morador há 11 anos.
O nome Portelinha foi adotado por volta de 2007, como uma identificação com outra “Portelinha”. Na época, passava na Globo uma novela chamada Duas Caras, e um dos protagonistas da novela comandou a ocupação de um terreno baldio. Com a construção das casas no terreno, tornou-se a favela Portelinha. O nome ganhou a simpatia dos moradores da “antiga Quartzolit” na Maré.
Ocupação da antiga Quartzolit
“Era a antiga Quartzolit. O pessoal falava ‘ah, lá no prédio da Quartzolit’, aí depois com o tempo que moradores começaram a chegar, em pouco tempo isso encheu…”, conta Manoel relembrando o início da ocupação. Ele acredita que muitos dos primeiros moradores tenham vindo de outras partes da Maré, como a própria Baixa do Sapateiro, que fica próxima, motivados talvez por um movimento “de massa”: ao saberem que havia um prédio vazio sendo ocupado, mais e mais famílias foram chegando.
Ricardo Mirapalheta confirma que quando chegou, há 11 anos, o prédio estava fechado já há algum tempo, e como ele participava da Associação de Moradores do Morro do Timbau, tentou diálogo com o dono da empresa, mas descobriu que a Quartzolit tinha uma dívida de cerca de um milhão de reais de contas sem pagamento, como IPTU. “Ele (o dono) falou para mim: ‘se o senhor trouxer aqui um documento de credibilidade, a gente passa a doação para o senhor’. Eu falei, não, mas essa dívida de um milhão eu vou acabar arcando, não tem como assumir”, conta. Pelo tempo que se passou, provavelmente a dívida já não existe, mas também não é simples regularizar um prédio nesta situação. Há registros de uma tentativa por parte da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ em 2010, que não se efetivou.
Tanto Emanoel quanto Ricardo viam o prédio abandonado como uma oportunidade de fazer projetos sociais e beneficiar os novos moradores e os do entorno. Um dos planos no início era fazer uma quadra de esportes no térreo, mas o que foi liberado pelo antigo dono foi o primeiro andar, onde se instalou o Centro de Cultura Popular Ypiranga de Pastinha.
Emanoel, natural de Duque de Caxias, chegou na Maré nos anos 90 para atuar como arte-educador no Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré, o CEASM. Anos depois, já desvinculado da ONG, ele teve seu primeiro projeto de Capoeira de Angola numa rua próxima, Guilherme Maxwell, e depois ele foi para a Quartzolit. O Centro Cultural vai completar 35 anos em 20 de julho próximo. “Quando eu vim pra cá a Quartzolit já estava desativada há 20 anos (…) o pessoal já tinha entrado. Então fizemos uma limpeza para continuar o nosso trabalho que é a arte-educação e conscientização”, relata.
O Centro de Cultura Popular Ypiranga de Pastinha já formou mais de 400 alunos, muitos que também se tornaram professores. Lá, pratica-se Capoeira de Angola, maculelê, samba de roda e jongo. Não tem um objetivo de formação para o esporte, mas de uma formação mais integral com consciência racial, social e política. “A proposta é os alunos circularem dentro do espaço, não sair. Ocupar o tempo e a mente deles para chegar a essa discussão de conscientização… Essa é a proposta maior, não de formar o lutador de capoeira, que é um caminho de violência”, Manoel explica.
Um prédio em busca de benfeitorias
Com a rápida ocupação pelas pessoas, mobilizadores como Emanoel e Ricardo tiveram o desejo de viabilizar um espaço mais digno, mesmo porque a Quarzolit havia abandonado o prédio sem ligações de luz, água e esgoto que seriam adequadas para atender centenas de moradores. Assim, houve conversas para viabilizar energia elétrica em todos os andares e residências, e foi instalado encanamento, caixas d’água e bombas para que a água também se tornasse disponível em todos os andares. Hoje quem cuida dessa parte, sempre em cooperação com os moradores, é o Ricardo. “Nós tínhamos que fazer melhoria no prédio, a questão da água, a luz, e aí comecei a tomar a frente. Compramos uma bomba para poder colocar água no prédio, assistência toda, mutirão para limpar cisterna”, Ricardo conta.
Nos primeiros anos persistia o desejo de reservar alguns andares para projetos sociais. Eles utilizariam o quarto andar para um projeto de música e orquestra, comandado por Ricardo, e no terceiro seria esporte e arte marcial. Formado pela Escola Nacional de Música da UFRJ, Ricardo dá aulas no Instituto Staumbor, na Baixa do Sapateiro, e também tem formação como terapeuta. Nesta época, informalmente foi possível ter aulas de música, reforço escolar e outras atividades, por algum tempo, mas houve dois obstáculos. O primeiro é a regularização, pois para se ter de fato uma ONG seria necessário regularizar o prédio, o que não era possível. O segundo foi a chegada gradual de novas pessoas. “A realidade é que o povo, as pessoas querem moradia para se adiantar e assim foi”, ele resume. No terceiro andar foi instalado um projeto de jiu-jitsu, que funciona regularmente. Quanto ao quarto andar, ele cedeu para as moradias, inclusive a própria.
De casas de vila a kitnets baixas
Não é fácil definir a área que a Portelinha ocupa. Ela se localiza na Rua Capitão Carlos, no Morro do Timbau, próximo ao número 311. Compreende tanto o prédio de 5 andares quanto pequenas vielas no térreo. Essa configuração demarca uma diferença social entre os moradores, pois há quem tenha sua casa no térreo, com pisos, janelas para o corredor e varal externo, e há os que criaram suas kitnets nos andares do prédio, inclusive no andar considerado “porão”. Lá há pouca circulação de água e de luz, e janelas voltadas para o corredor interno. Sem cobertura total do prédio, quando chove a escada alaga, apresentando risco para os moradores e até para a estrutura de energia. Ricardo estima que haja 24 famílias no prédio, e 150 no total na Portelinha. Para Emanoel, são mais de mil moradores.
Hoje, o acesso a luz e esgoto estão praticamente resolvidos, mas os moradores ainda lutam com a questão da água, liderada pelo Ricardo. Anos atrás ele conseguiu a conexão de água no prédio, e arrecadando com os moradores pôde comprar 126 metros de cano. Toda a obra para a instalação foi feita por eles mesmos. A caixa d’água já tinha mais de 50 anos, então eles também compraram outra de 5 mil litros e mais tarde a bomba, que se faz necessária para a água subir. Existe uma segunda caixa comprada, mas falta um andaime para colocar no segundo andar. Essas são ações necessárias para a conquista de dignidade num prédio ocupado, informal e não reconhecido por nenhuma associação de moradores. “É muita coisa que eu tenho acompanhado, feito e acho que é gratificante, né? Até saudável de uma forma mental”, comenta Ricardo.
Momentos de vulnerabilidade
Nessa incerteza de gestão, dois episódios se destacam na história da Portelinha. O primeiro é a ocupação do Exército entre abril de 2014 e junho de 2015, quando os militares usavam o prédio, devido à sua altura, como um posto de vigilância. Tinha câmeras, vigia e até soldado no portão, e os próprios moradores, às vezes, tinham que mostrar documentos para entrar, conforme conta Ricardo. Essa foi uma situação que, provavelmente, fragilizou os moradores da Portelinha mais do que a outros da Maré, que não tinham os soldados do Exército praticamente dentro de casa.
Outro momento é a pandemia, relembrada pelo mestre Manoel. A estrutura das moradias na Portelinha é muito favorável à circulação de vírus como da Covid, portanto ele se mobilizou pela redução de danos. “Nós ganhamos cestas básicas, distribuímos na comunidade, também máscara, álcool em gel…”. As doações para a Portelinha como um todo partiram de várias fontes, mas o Centro Cultural se articulou com o Museu da Maré e a Associação de Moradores para receber e distribuir.
A Portelinha e a Maré
Sobre viver na Portelinha, nem Manoel nem Ricardo apresentam reclamações, apesar dos desafios de estrutura. O local é próximo da Avenida Brasil, tem comércio perto, já é conhecido pelos moradores e pelos mototaxistas. Mas, na visão de Ricardo, existe um certo preconceito com quem mora lá, inclusive por parte de outros mareenses, provavelmente por ser uma ocupação. A verdade é que muitos espaços na favela foram, e são até hoje, ocupados tanto para moradia, quanto para comércio, sejam terrenos vazios, calçadas largas ou prédios abandonados, e a Portelinha demonstra a cooperação entre moradores para se obter vida digna num espaço inadequado.
Veja mais fotos por Christóvão Carvalho:





