Foto de capa: Divulgação Sebrae Rio
Uma fotografia produzida na Vila do Pinheiro colocou o Jornal O Cidadão entre os trabalhos reconhecidos na etapa estadual do Rio de Janeiro do 13º Prêmio Sebrae de Jornalismo. “Convergência”, de Ana Cristina da Silva, fotógrafa e jornalista do veículo, foi anunciada como finalista estadual da categoria Fotojornalismo e agora representa o Rio de Janeiro na etapa regional da premiação.
O resultado foi divulgado na noite de 25 de agosto, durante cerimônia realizada no Centro Cultural Veneza, em Botafogo. Ana recebeu um troféu e um voucher de R$ 15 mil. O Jornal O Cidadão acompanhou a cerimônia presencialmente com integrantes de sua equipe. Ao todo, a etapa fluminense recebeu 148 trabalhos e premiou 13 deles.
Na categoria Texto, o primeiro lugar ficou com Ana Clara Veloso, do Extra. Em Áudio, venceu Camila Grecco, da Rádio Roquette-Pinto, enquanto a categoria Vídeo teve como vencedora uma produção da Rio TV Câmara. Trabalhos de O Globo, Rádio Nacional, CBN, Ambiente-se e Globo Rural também ocuparam o pódio nas categorias profissionais.
O reconhecimento tem ainda um significado particular para Ana, que convive desde a infância com o tremor essencial, condição neurológica que afeta principalmente suas mãos e impõe desafios também ao trabalho com a câmera.
Da Maré para o Prêmio Sebrae
O Prêmio Sebrae de Jornalismo chegou à 13ª edição em 2026 com o objetivo de reconhecer produções jornalísticas sobre o universo do empreendedorismo, com foco nos pequenos negócios. As inscrições ficaram abertas entre 7 de abril e 8 de junho para trabalhos publicados entre 9 de junho de 2025 e 7 de junho deste ano.
As categorias profissionais eram Texto, Áudio, Vídeo e Fotojornalismo. O Jornal O Cidadão teve trabalhos inscritos em todas, com exceção de Áudio. Em todo o Brasil, a edição recebeu 3.759 inscrições, novo recorde da premiação.
Antes de serem submetidos aos júris estaduais, os trabalhos passam por etapas de triagem previstas no regulamento. Na cerimônia do Rio de Janeiro, apresentada pela jornalista Lívia Torres, foi explicado que, entre as inscrições feitas na categoria Fotojornalismo no estado, apenas um trabalho havia atendido a todos os requisitos necessários para seguir na premiação.
O resultado só seria conhecido alguns minutos depois. Primeiro, foram anunciados os resultados de Jornalismo Universitário. Na sequência, chegou a vez de Fotojornalismo: Ana Cristina da Silva foi chamada ao palco e a foto “Convergência” foi anunciada como finalista estadual.

A cerimônia marcou a primeira participação de Ana em uma premiação ao longo de sua trajetória profissional. Posteriormente, em depoimento ao Jornal O Cidadão, ela contou que chegou ao evento sem expectativa de receber um prêmio, principalmente em Fotojornalismo. Ao ver “Convergência” projetada no telão, começou a dimensionar o significado daquele momento: uma fotografia produzida na Maré e retratando dois empreendedores do território ocupava o telão de uma premiação estadual.
A história por trás de “Convergência”
A fotografia premiada foi produzida para a reportagem “Do sonho à conquista: empreendedores da Maré constroem trajetórias de sucesso”, publicada pelo Jornal O Cidadão em 1º de junho. A matéria apresentou as histórias de três empreendimentos da favela: Filhos do Rei, Barba Negra e Nando Tattoo.

Localizada na Vila do Pinheiro, a barbearia Barba Negra foi fundada por Hadelson Gomes e hoje é comandada por ele ao lado do amigo e sócio Vinícius Farias. Anos antes, Hadelson havia sido barbeiro de Vinícius. Quando os dois se reencontraram, Vinícius já trabalhava na profissão e, algum tempo depois, passou a integrar a equipe até se tornar sócio. Atualmente, a dupla também oferece cursos para quem deseja começar a trabalhar como barbeiro.
Após concederem entrevista ao Jornal O Cidadão, Hadelson e Vinícius iniciaram os atendimentos na barbearia. Ana permaneceu no espaço para fotografar e, em vez de dirigir a cena, optou por registrar o trabalho como acontecia no dia a dia. “Eu gosto muito de capturar as coisas ao natural. Eu gosto de mostrar exatamente como as coisas acontecem”, explica. Para ela, essa característica documental do fotojornalismo permite registrar os fatos sem abrir mão do olhar de quem está atrás da câmera.
Foi nesse momento que Ana buscou um enquadramento que evidenciasse a parceria entre os dois. A fotografia foi feita de baixo para cima: as mãos e os braços de Hadelson aparecem em primeiro plano durante o atendimento e, pela abertura formada entre eles, Vinícius pode ser visto ao fundo cortando o cabelo de outro cliente.
Como os barbeiros continuavam trabalhando normalmente, o enquadramento precisou ser construído rapidamente, levando em consideração as lâmpadas do teto e a incidência da luz sobre a cena.

Ana batizou a imagem de “Convergência” por relacionar a composição à parceria que conheceu durante a reportagem. “O que aquela fotografia está aí mostrando é que tudo aí está se alinhando para fazer um sonho acontecer”, explica. Na hora de escolher o trabalho que levaria ao prêmio, ela buscou uma imagem que carregasse sua própria maneira de fotografar: “Eu queria uma boa foto, mas uma boa foto que mostrasse uma história. Eu queria realmente trazer uma narrativa e eu queria trazer ali um pouquinho do meu olhar para o que eu fosse apresentar”.
O regulamento define Fotojornalismo como a categoria voltada à melhor fotografia publicada em uma matéria de veículo jornalístico. Os trabalhos devem estar relacionados ao empreendedorismo com foco nos pequenos negócios e passam por triagens antes de chegar aos júris. Na avaliação da categoria, são considerados a narrativa fotográfica, a relevância da fotografia, a qualidade estética e a originalidade, inovação e criatividade.
Fotografar convivendo com o tremor essencial
O reconhecimento em Fotojornalismo ganhou outra dimensão para Ana por causa de uma condição que a acompanha desde a infância. Ela começou a apresentar tremores nas mãos aos 10 anos. Depois de passar por consultas e exames durante a adolescência, recebeu o diagnóstico de tremor essencial aos 21.
O tremor essencial é um distúrbio neurológico do movimento que geralmente afeta as mãos, embora também possa atingir outras partes do corpo. Sua principal característica é o tremor durante movimentos voluntários ou na manutenção de determinadas posições. Atividades que exigem firmeza, como escrever e segurar objetos, podem se tornar mais difíceis, o que também pode interferir no manuseio de uma câmera.
No caso de Ana, o tremor pode aumentar diante de esforço físico ou alterações emocionais. Durante parte da juventude, ela também lidou com a insegurança provocada pela maneira como outras pessoas percebiam o movimento involuntário de suas mãos.
A fotografia passou a ocupar um espaço maior em sua trajetória a partir de 2023, quando começou a desenvolver com mais frequência esse trabalho nas pautas do Jornal O Cidadão. Ao longo do tempo, Ana passou a compreender melhor as limitações relacionadas ao tremor e as maneiras de trabalhar com a câmera convivendo com a condição. O reconhecimento no Prêmio Sebrae fez com que ela também repensasse limites que, durante anos, associou ao tremor essencial.

Foi muito importante pra eu entender que eu não devo me limitar por ter tremor essencial. Porque mesmo tendo tremor essencial, eu consegui fazer o que eu fiz. […] Consigo atuar no Cidadão, consigo fazer as fotos e essa foto conquistou um lugar.
— Ana Cristina
Um jornal comunitário no palco
Para Ana, o prêmio também está relacionado ao território retratado pela fotografia. Quando ingressou na faculdade de Jornalismo na Unisuam, em Bonsucesso, um de seus objetivos era contar histórias da Maré. Anos depois, uma dessas histórias chegou ao telão de uma premiação estadual.
“Foi a Maré que me levou pra universidade. Foi a Maré que me levou pro Cidadão. Foi a Maré que me fez chegar na fotografia”, conta Ana. Para ela, esse vínculo aparece também na responsabilidade de produzir para um veículo comunitário e para o público do próprio território.
A cada matéria que eu escrevo, a cada foto que eu tiro, o sentimento é o mesmo. Eu tenho que fazer isso bem feito, porque eu tô fazendo pro mareense.
— Ana Cristina
No palco, ao receber o prêmio, Ana agradeceu ao jornalismo comunitário e às pessoas que seguem desenvolvendo seus trabalhos dentro da Maré. O reconhecimento de “Convergência” colocou em evidência Hadelson, Vinícius, o Barba Negra e, a partir deles, o empreendedorismo desenvolvido dentro da Maré.
A participação de O Cidadão naquele espaço não apaga a diferença de estrutura e alcance existente entre um jornal comunitário e grandes empresas de comunicação. O reconhecimento, porém, mostra que uma pauta produzida dentro da favela e direcionada prioritariamente aos próprios moradores também pode ocupar outros espaços sem deixar de carregar sua origem.

Próxima parada: etapa regional
“Convergência” segue agora para a etapa regional do Prêmio Sebrae de Jornalismo. Nessa fase, os trabalhos classificados nos estados são avaliados por região. No Sudeste, a fotografia que representa o Rio de Janeiro será avaliada ao lado dos trabalhos classificados em São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. Apenas o primeiro colocado de cada categoria em cada região avança para a etapa nacional. A fase regional não prevê premiação e funciona como uma etapa classificatória.
O cronograma mais atualizado divulgado no site do prêmio prevê a etapa regional em setembro, o júri nacional em outubro e a cerimônia nacional em Brasília durante o mês de novembro, ainda sem data divulgada.
Na etapa nacional, o vencedor de cada uma das quatro categorias principais — Texto, Áudio, Vídeo e Fotojornalismo — recebe um notebook. Depois de definidos esses resultados, os quatro trabalhos vencedores concorrem entre si ao Grande Prêmio Sebrae de Jornalismo. O escolhido recebe também um celular de última geração, acumulado com o notebook conquistado em sua categoria.
Por enquanto, “Convergência” segue adiante carregando uma cena cotidiana da Vila do Pinheiro: dois barbeiros trabalhando lado a lado, registrados pelo olhar de uma fotógrafa da Maré para um jornal comunitário local.






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