Foto da capa: Ana Cristina da Silva.
Em 2003, o CEASM publicou um livro que mesclou o imaginário com memórias de diferentes moradores do território. Chamada de Contos e Lendas da Maré, a publicação reúne histórias que são contadas e lembradas até hoje, mais de duas décadas depois. Neste ano, mostrando o potencial artístico do território e a beleza da transformação da memória em literatura, um evento no Museu da Maré apresentou seu segundo volume, composto por 12 novos contos que, acompanhados de ilustrações em xilogravura, descrevem lugares do território e reafirmam a forte influência nordestina que permeia a favela da Maré.

A PROPOSTA E O PROCESSO
Enquanto o primeiro livro de Contos e Lendas da Maré popularizou algumas histórias da região, como O Porco Com Cara de Gente e o Casamento na Palafita, que são histórias que falam da Maré entre o final da década de 1970 e início de 1980, o segundo volume mantém a essência ao misturar relatos de moradores com a ficção, mas com o desejo de mostrar a favela da Maré nos tempos atuais.
No conto “A Volta da Figueira”, por exemplo, escrito por Maria Isabelle Barbosa, o cenário pode facilmente ser reconhecido por crianças e jovens, afinal, o conto assombroso fala sobre uma árvore que resiste até hoje na Vila Olímpica Seu Amaro, uma árvore que gerações de mareenses já pararam para escalar. “Os jovens hoje em dia andam muito pela Vila Olímpica, então a minha história se baseou na árvore que tem lá. Ela fez parte da minha infância e da infância de muitos moradores da Maré (…) e eu me baseei nisso porque eu ouço muitas histórias da Vila Olímpica, né? Porque lá é meio sombrio à noite”, conta a autora, de 18 anos.

Ítala Isis, artista, pesquisadora e professora do curso de Artes Visuais na UFRJ, foi quem coordenou o projeto do segundo volume do Contos e Lendas, ela relata que tudo foi feito em 2025 através de três oficinas: Pesquisa de Campo, com o pesquisador Antônio Carlos Pinto Vieira; Produção de Texto, com a escritora Adriana Kairos e Gravura em Relevo, coordenada por ela:
“A primeira oficina de pesquisa de campo, com o Carlinhos, foi estratégica, porque trazia a memória e a história da cidade e da Maré, toda essa formação daqui, tudo que atravessa o nome das comunidades, a história das comunidades e suas personalidades. Já a oficina de escrita criativa tinha um trabalho de enfrentar, de desconstruir um determinado medo da escrita que a gente tem. A gente leu e escreveu muito nessas oficinas. A Adriana Kairos é excelente, porque ela traz muitas ferramentas criativas. E aí, por fim, vem a Gravura em Relevo, que produziu imagens a partir do acervo do Museu da Maré e a partir do mergulho nas histórias quando elas já estavam prontas”.
— Ítala Isis, Coordenadora do projeto Contos e Lendas da Maré, volume II.

A DIVERSIDADE CULTURAL DA MARÉ NA CONSTRUÇÃO DO LIVRO
Para Ítala a escolha da xilogravura, técnica de impressão que utiliza madeira, não foi algo aleatório: “A Maré tem uma presença nordestina muito forte. Não foi à toa que se botou a oficina de gravura, porque tem essa inspiração no cordel. Então a Maré já tem essa vocação para gostar, para absorver, para se interessar por esse trabalho. Eu acho que tem tudo a ver, principalmente por serem contos populares, por ser uma narrativa na voz dos próprios moradores, então casa muito bem”, diz a artista.
Foi inclusive com a oficina de Gravura em Relevo e a necessidade de se ter um espaço para os participantes do projeto trabalharem, que nasceu o Atelier de Arte da Maré, que mesmo com a finalização do livro, segue ativo dentro do museu, rendendo trabalhos que já chegaram a virar exposição no espaço.

A diversidade da Maré é tão grande que elementos e narrativas de outras regiões do Brasil, como a estética visual do cordel — expressão da literatura popular nordestina, marcada por ilustrações de traços fortes e contrastes em preto e branco — não poderiam ficar de fora. Márcia Santiago, por exemplo, uma das autoras do segundo volume, veio do Pará. Nos dois contos que escreveu ela uniu memórias criadas em sua terra natal com as da Maré, local onde mora há quase 7 anos. No conto “Duque, o Cão Fantasma da Maré”, Márcia abre a história com a seguinte frase: “Durante muito tempo, acreditei que só os humanos tivessem alma. Foi então que, numa visita que fiz à minha mãe, aconteceu algo estranho”.
A partir daí, a história faz uma conexão entre a casa de seus familiares em Belém, com as ruas da Maré. “Todos os nossos contos tinham que estar baseados em casos que aconteciam ou aconteceram na Maré, né? O Cão Duque, eu fiz uma pesquisa e descobri que tinha um conto relacionado a esse personagem. Esse cachorro que aparece lá pro lado da Praça do 18. E aí eu juntei uma história vivida por mim, lá na minha terra”, conta Márcia.
Já no conto chamado Lenda da Rasga-Mortalha, a autora, que também é artista visual e costureira, compartilha com o território da Maré uma lenda muito famosa nas regiões Norte e Nordeste do país, onde acreditam que determinados tipos de coruja trazem em seu canto um mau presságio. Apesar da narrativa se aventurar na temática assombrosa de lendas urbanas, ela também transita pela realidade, questionando mitos e crenças.

“Essa história (A Lenda da Rasga-Mortalha) é muito minha. Uma experiência realmente incrível. Porque a gente cresce e a gente acha que essas coisas não existem, ‘isso é mitologia, coisa que os adultos inventam pra gente’, mas não é. Como já dizia Shakespeare, né? ‘Há mais coisa entre o céu e a terra do que sonha a nossa filosofia’”.
— Márcia Santiago, autora dos contos Duque, o Cão Fantasma da Maré e A Lenda da Rasga-Mortalha.
PARA A MARÉ, COM AMOR
Ao todo, o segundo volume do livro foi escrito por 10 autores e ilustrado por gravuras produzidas no Atelier de Arte da Maré por 12 artistas. Alguns desses autores são pessoas nascidas e criadas no Conjunto de Favelas da Maré, como Milena Vital, que escreveu Bicho do Valão e Pedra da Cruz. O primeiro conto, retrata um valão na comunidade Salsa e Merengue, local onde Milena morou a maior parte da vida, fazendo com que o texto também carregasse muito de suas memórias da infância.
Hoje, aos 28 anos, a autora e artista visual destaca a grandiosidade que é fazer parte desse projeto, já que cresceu ouvindo as histórias do primeiro livro, lançado em 2003. “O Casamento na Palafita e o Porco Com Cara de Gente eram contos que eu ouvia muito. Minha vó morava aqui desde o final da década de 1940, ela morou em palafita, pegou o período do aterramento, e ela pegou essas histórias. Quando ela me contava, eu ficava ‘nossa, aconteceu, ela viu.’”

É por esse e por outros motivos que a mareense acredita que esse trabalho vai muito além de um simples livro. “Acho que é uma forma da gente tomar essa narrativa e contar do nosso território e das nossas vidas de uma forma mais bonita, diferente do que a mídia faz, né?”. Durante a entrevista ao Jornal O Cidadão, ela deu como exemplo o dia em que leram alguns dos contos nas escolas da Maré e puderam ver crianças se reconhecendo na narrativa:
“Um exemplo foi o Bicho do Valão, quando a gente contou na Escola Vereadora Marielle Franco, foi assim, indescritível ver as crianças que eram de lá como eu, que passei boa parte da minha vida morando no Salsa, ver elas se identificando. Ver a animação delas, deu um carinho, um abraço na Milena pequenininha, e aí fiquei assim, tipo: ‘caraca, é muito bom que eles se veem, que têm referências.’”
— Milena Vital, autora dos contos Bicho do Valão e Pedra da Cruz.

Durante o evento de lançamento realizado no dia 22 de outubro no Museu da Maré, quando questionada pela equipe do jornal sobre onde gostaria de ver o livro chegar e para que público ele havia sido feito, Ítala Isis deu uma resposta que apenas reforçou o pensamento de Milena Vital:
“Eu quero que chegue no mundo inteiro, porque a Maré é o mundo. O mundo precisa conhecer a Maré. A Maré está no mundo e é inspiradora. Eu vou levar (o livro) para a UFRJ, os meus colegas vão conhecer e vai se espalhando. Agora, para quem é esse livro, eu acho que é para esse chão aqui. É para esse território. É sobre se reconhecer, sabe? Eu acho isso muito forte. E é muito bonito quando a gente vê que se reconhece”.
— Ítala Isis, coordenadora do projeto Contos e Lendas da Maré, volume II.
O Livro Contos e Lendas da Maré, volume II está disponível para compra no Museu da Maré, localizado na Avenida Guilherme Maxwell, 26 – Maré.






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