Foto da capa: Ana Cristina da Silva.


Quando Yvonne Bezerra de Mello recebeu uma das casas recém-construídas do conjunto habitacional Nova Maré, ela não pensou em transformá-la em moradia. Após passar anos ensinando crianças em situação de rua e de fazer funcionar, sob um viaduto, uma sala de aula construída por tapumes, Yvonne viu a possibilidade de transformar o trabalho de sua vida em uma escola digna para seus alunos. Fundado em 1998, o Projeto Uerê é resultado de uma extensa trajetória que começou com suas pesquisas ainda na década de 1970. De portas abertas para a comunidade e com uma metodologia de ensino própria, o projeto fundado por Yvonne já atendeu milhares de moradores da Maré.

Décadas antes das construções coloridas chamarem a atenção dos moradores, das crianças ocuparem felizes as salas de aula e do som dos instrumentos de corda da Camerata Uerê reverberarem pelas ruas da comunidade Nova Maré, a filóloga e linguista Yvonne Bezerra de Mello — profissional dedicada ao estudo da língua e de sua evolução — já procurava e dava aula para crianças onde quase ninguém procurava: nas ruas.

Yvonne Bezerra de Mello é artista plástica, ativista, filóloga, linguista e fundadora do Projeto Uerê. Foto: Ana Cristina da Silva.

ESCOLA SEM PORTAS E JANELAS

Ao concluir o doutorado em educação na França, com a tese “Problemas Cognitivos de Crianças e Jovens em Países em Guerra”, Yvonne retornou ao Brasil na década de 1980 e iniciou a Escola Sem Portas e Janelas, dando aula para crianças e adolescentes em situação de rua ao longo de 13 anos, em bairros como Copacabana, Méier, Madureira e Centro. Foi nesse processo que conheceu e passou a visitar todos os dias os meninos da Candelária.


“Quando aconteceu a chacina, eram 72 crianças, sendo que a idade variava de 6 a 18, só que maior de 16 só tinha 4. Era tudo criança pequena que veio do mesmo lugar, do Méier e de Madureira. E eu fui procurar por que aquelas crianças saíram dali, porque ali naquela época era uma violência incrível naquelas favelas e muitas famílias mandavam os filhos para a rua, porque lá dentro eles iam morrer. Ou as meninas tinham sido abusadas, o tráfico tinha expulsado as famílias, enfim, essa era a situação dos meninos da Candelária”.


— Yvonne Bezerra de Melo, fundadora do Projeto Uerê.

Na madrugada de 23 de julho de 1993, policiais chegaram em dois carros à região da Igreja da Candelária e abriram fogo contra as crianças e adolescentes que dormiam no local. O ataque matou oito jovens e deixou outros feridos. O episódio, que ficou conhecido como Chacina da Candelária, teve repercussão nacional e internacional. Entre eles estavam as crianças acompanhadas por Yvonne. Durante o ataque, um dos meninos usou, em um orelhão, as moedas que ela havia deixado com eles para emergências e ligou pedindo socorro. Yvonne correu até a Candelária e foi a primeira pessoa a chegar ao local, onde encontrou os sobreviventes correndo desorientados e os corpos no chão. “Quando aconteceu a chacina, que eu estava abraçada com os meninos, eles disseram: ‘a senhora não vai nos abandonar?’, eu disse: ‘eu não vou abandonar nunca vocês’”, lembra a educadora.

Abraçada aos sobreviventes, Yvonne foi a primeira pessoa a chegar no local após a chacina de 1993. Foto: Arquivo pessoal.

PROJETO COQUEIRINHO

A decisão de permanecer ao lado daquelas crianças foi o que levou Yvonne até uma pequena favela na região de São Cristóvão, onde teve sua primeira sala de aula improvisada para alfabetizar e educar as crianças que moravam no entorno. “Tinha dois ou três meninos cujas famílias moravam numa favela de rua, embaixo do viaduto, lá no Mangue. Aí um menino falou assim: ‘a senhora quer conhecer onde a minha mãe vive?’, eu digo: ‘eu quero’. Aí eu fui lá e achei que ali eu poderia ter um espaço”, lembra a educadora.

Assim, ainda em 1993, a Escola Sem Portas e Janelas deixou as calçadas e ganhou uma sala de aula fixa, embaixo do viaduto de São Cristóvão, próximo à antiga Estação Leopoldina e da Avenida Francisco Bicalho. Em homenagem à pequena favela que ocupava o local, nasceu então o Projeto Coqueirinho.


“Já existia um espaço de tapume, eu contatei as pessoas daquela favela, que chamava-se Favela do Coqueirinho, e eu comecei a fazer um trabalho ali dentro daquele espaço, que não era nada, não tinha nada, só tinha as paredes de tapume. E, de repente, eu me vi com 200 crianças lá dentro. E ali aconteceram coisas bastante interessantes”.


— Yvonne Bezerra de Melo, fundadora do Projeto Uerê.

Yvonne com as crianças do Projeto Coqueirinho. Foto: Arquivo pessoal.

O projeto continuou no mesmo local durante 4 anos, mas foi interrompido em 1997 quando as famílias do Coqueirinho foram removidas pela Prefeitura do Rio por meio do Programa Morar Sem Risco, que tinha como objetivo realocar famílias que viviam em áreas consideradas de risco. Na Maré, o programa foi o que motivou a construção dos Conjuntos Habitacionais Bento Ribeiro Dantas e Nova Maré, popularmente chamado de “Casinhas”.

Enquanto as obras do Conjunto Nova Maré não eram finalizadas, os moradores removidos da Favela Coqueirinho foram colocados em alojamentos provisórios conhecidos pelo nome de Kinder-Ovo, construídos na Vila do Pinheiro. Cumprindo sua promessa, Yvonne acompanhou as famílias: “Primeiro fui para o Kinder-Ovo, que era ali na Vila do Pinheiro. Eu tinha só uma salinha para 200 crianças, mas eu disse a mim mesma: ‘eu nunca vou desistir, eu prometi, eu vou até o fim da minha vida com aquilo que eu prometi’”.

Com o Conjunto Nova Maré finalizado, aos poucos, moradores removidos de diferentes localidades foram ganhando suas moradias. Garantindo uma das casas para si, Yvonne transformou o espaço e então, em 1998, fez nascer o Projeto Uerê, uma escola que é resultado de todas as suas pesquisas dentro e fora do país e fruto de todas as experiências vividas com os grupos de crianças da Escola Sem Portas e Janelas e do Projeto Coqueirinho.

O Projeto Uerê está localizado no Conujunto Habitacional Nova Maré desde 1998. Foto: Ana Cristina da Silva.

“Isso aqui (Conjunto Nova Maré) ficou pronto e eu consegui uma primeira casa, que hoje é onde fica a nossa cozinha. Em 26 anos você vai aumentando, você vai criando. Hoje eu tenho a escola que eu diria ser a escola dos meus sonhos”.


— Yvonne Bezerra de Melo, fundadora do Projeto Uerê.

METODOLOGIA UERÊ-MELLO

Localizado até hoje na comunidade Nova Maré, de frente para a Vila Olímpica Seu Amaro, o Projeto Uerê é uma organização não governamental que atende crianças e jovens de 5 a 18 anos, complementando o ensino formal. Fazendo uso de uma metodologia própria, chamada UERÊ-MELLO, desenvolvida por Yvonne ao longo de décadas de atuação com crianças em situação de vulnerabilidade, o projeto oferece ensino especializado e atividades complementares, contando com programas de arte, cultura e esporte, além de alimentação e bolsa de estudos.

Todas as paredes externas do projeto são pintadas com muitas cores e personagens que sempre trazem algum tipo de mensagem. Foto: Ana Cristina da Silva.

“A ideia do Projeto Uerê foi ter uma escola de grande qualidade para as crianças que demonstram alguns problemas cognitivos de aprendizado. Então essa foi a experiência que eu tive em outros países. Em 2000 eu escrevi a minha pedagogia de ensino e o Uerê tornou-se o modelo dessa pedagogia que hoje é reconhecida pela UNICEF como uma das cinco melhores do mundo para crianças em países de guerra e territórios ocupados”.


— Yvonne Bezerra de Melo, fundadora do Projeto Uerê.

Além de formados, todos os professores do Uerê passam por uma capacitação oferecida pela própria Yvonne, para que possam aplicar a pedagogia UERÊ-MELLO nas salas de aula. “Qual é a diferença dessa pedagogia para a escola convencional? É que aqui se aprende brincando, se aprende com vontade, se aprende feliz”, explica. Para a fundadora, a proposta é priorizar o aprendizado oral antes da escrita: “Nas escolas é o contrário, é escrita o tempo todo, e a criança às vezes copia, escreve, e não sabe o que está fazendo”, afirma.

Atualmente, o Projeto Uerê atende 270 alunos da Maré. Foto: Ana Cristina da Silva.

CAMERATA UERÊ

A metodologia também se estende aos diferentes programas desenvolvidos pelo projeto. Entre eles está o programa de música, iniciado em 2015 pela violinista francesa Anne Constance Despretz, que no ano anterior havia atuado como voluntária dentro do projeto. Constance providenciou dois violinos e com apenas estes dois instrumentos ela fez nascer a Camerata Uerê. “Ela começou com dois violinos. De repente ela conseguiu mais ajuda, a gente conseguiu mais instrumentos, e a camerata existe desde 2015”, conta Yvonne.

Para a fundadora do Uerê, o programa de música foi pensado inicialmente como uma ferramenta complementar à educação oferecida para as crianças, já que um instrumento de cordas como o violino auxilia no desenvolvimento cerebral de forma muito eficaz. “O violino trabalha quase todas as partes do cérebro. Ele trabalha foco, concentração, ele trabalha uma série de coisas”. Graças à metodologia aplicada dentro do projeto, o programa de música logo se tornou um sucesso: “As crianças aqui, mesmo com sete anos, já lêem partitura, porque aqui já existe um ensino de velocidade cerebral que faz com que eles entendam rapidamente uma pauta ou o que são as notas”.

As aulas da Camerata Uerê acontecem duas vezes por semana e contam com instrumentos como viola. violoncelo e violino. Foto: Ana Cristina da Silva.

Hoje, a Camerata Uerê reúne cerca de 23 crianças e adolescentes que se dedicam ao violino, à viola ou ao violoncelo, acompanhados por ex-alunos que agora atuam como monitores. Rodrigo Moreira, de 27 anos, também passou pela função de monitor, que exerceu durante três anos, antes de assumir como professor de violino, cargo que ocupa há cinco anos.

Ele explica que para além das aulas, hoje o projeto de música também conta com uma camerata que se apresenta dentro e fora da Maré: “Nem todos os alunos saem para tocar. Então, nós temos o grupo mais avançado, que sempre estão na apresentação. Já os alunos de nível intermediário vão sendo inseridos nesse grupo principal para terem a experiência, incentivo. Errou? Tudo bem, faz parte. Acertou? É isso, para cima”.

Aos 27 anos, Rodrigo Moreira é professor de música na Camerata Uerê. Foto: Ana Cristina da Silva.

Apesar de não ser uma obrigatoriedade, a maioria dos alunos do projeto de música também estudam no Projeto Uerê. Ao fazer uso dos espaços, eles acabam se deparando com os ensaios de música e sendo atraídos pelos instrumentos de corda. Foi o caso de Alice, que entrou no Uerê aos 5 e aos 6 já ingressava na camerata para aprender violino.

Hoje, aos 15 anos, Alice integra a turma avançada da Camerata Uerê e participa de todas as apresentações. Em 2025 o grupo viajou para a França com sete musicistas e um maestro e dentre outras apresentações no país, destacou-se a apresentação no Palácio de Versalhes. Para Alice, moradora da Baixa do Sapateiro, isso foi uma grande conquista: “Primeiro, eu não acreditei, porque quando a gente está aqui, a gente acha que vai ser muito difícil ir pros lugares diferentes, mas o Uerê nos proporcionou isso”, conta.

Com 10 anos de Projeto Uerê e 9 de camerata, Alice se apresenta dentro e fora da comunidade tocando violino. Foto: Ana Cristina da Silva.

“Eu acho que a Camerata Uerê marcou e marcará sempre na minha vida, sabe? Questão de amizades, de pessoas. E é um instrumento (violino) que não é comum na nossa vida aqui na comunidade (…) eu pretendo mesmo fazer uma faculdade de música e continuar nesse trabalho, na arte que eu me apaixonei”.


— Alice Lemos Rodrigues da Silva, musicista da Camerata Uerê.

PROJETO UERÊ

Segundo Yvonne, de 1998 até agora o projeto já atendeu cerca de 8 mil moradores da Maré. Em muitos casos, alunos que passaram pelo projeto já tiveram filhos e hoje os levam para estudar no mesmo espaço. “Às vezes até eu já sou avó aqui”, brinca a fundadora.

Funcionando todos os dias de segunda a sexta, o Uerê abre inscrições sempre nos meses de janeiro e agosto para crianças e jovens de 5 a 18 anos. No entanto, com a alta procura, há a possibilidade do estudante ficar em uma lista de espera.

Diferente do ensino formal, as turmas não são definidas pela idade ou pela série escolar no Uerê, mas pelo nível de conhecimento de cada aluno. Ao chegar ao projeto, o estudante informa em que ano está na escola e então realiza uma prova para que seja identificado o que ele sabe. Assim, um aluno do sexto ano, por exemplo, pode ser encaminhado para uma turma de quarto ano caso demonstre a falta dos conhecimentos necessários para a etapa em que se encontra. A proposta é recuperar essas defasagens e mostrar à criança que ela é capaz de aprender. “Aí você pergunta: ‘a menina mais velha se sente menor com os menores?’ De jeito nenhum, porque ela está aprendendo rápido. Muita coisa está no cérebro, só que não conectou. A gente faz conectar de uma maneira muito mais rápida e ela se sente bem”, explica Yvonne.

Enraizado na favela da Maré, o Projeto Uerê vem criando memórias e formando mareenses há 28 anos. Sustentando suas paredes coloridas e possibilitando os fortes vínculos formados entre um corredor e uma sala de aula, estão as histórias dos grupos de crianças que aprendiam nas ruas do Rio, como os meninos da Candelária e os moradores da antiga Favela Coqueirinho. Firmado ali, em meio a um conjunto habitacional, o Uerê reafirma que a educação é um direito de todos e que, em sala de aula, o conhecimento nunca caminha em uma única direção. Enquanto um ensina, o outro aprende, enquanto um aprende, também transforma quem ensina.

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