A Maré ganha forma e identidade por meio de suas tantas histórias. Narrativas que nascem, principalmente, do boca a boca, em um dia comum. Algumas delas carregam sentimentos guardados com carinho na memória dos moradores. Foram essas memórias que deram origem ao livro Contos e Lendas da Maré, que voltou a circular pelo território por meio do Festival Itinerante Maré de Histórias, realizado simultaneamente em quatro escolas da região, no dia 21 de agosto, pela equipe do Museu da Maré.
O FESTIVAL
O Museu da Maré já vinha de um longo processo de realização de oficinas de xilogravura, literatura e até mesmo atividades de campo, voltadas para o conhecimento e o aprofundamento sobre o território. Dentro desse projeto de valorização da cultura popular, não poderia faltar uma ação tão característica do espaço: a contação de histórias, que teve seu início anos atrás, na Rede de Memória, projeto do CEASM que deu origem ao Museu da Maré.
A equipe, optou por retomar essa atividade com um festival itinerante. A ideia era levar para crianças e adolescentes histórias que fazem parte da cultura local. No dia 21 de agosto, as escolas municipais Vereadora Marielle Franco e Ledo Ivo, o CIEP Ministro Gustavo Capanema e o Colégio Estadual Bahia receberam contadores que apresentaram histórias como Casamento na Palafita, Bloco Mataram Meu Gato, A Figueira Mal-Assombrada, entre outras.

O festival aconteceu das 9h às 12h, período em que os contadores apresentaram histórias para diferentes turmas de cada escola. No CIEP Ministro Gustavo Capanema, por exemplo, Marilene Nunes contou Casamento na Palafita e Bloco Mataram Meu Gato para cinco turmas do 4º ano. As crianças ouviram, interagiram e, ao final, participaram de uma sequência de perguntas sobre a favela da Maré.
Após a leitura para cada turma, Marilene sugeriu aos professores uma atividade: que os alunos reescrevessem as histórias que tinham acabado de ouvir, de uma maneira que fizesse mais sentido para eles. Afinal, publicado pelo CEASM em 2003, o livro Contos e Lendas da Maré retrata uma época distante para os mais jovens: quando os moradores formavam filas para pegar água no famoso Bicão, as palafitas — casas de madeira construídas sobre a água — ainda moldavam a paisagem do território e a cantora Gretchen vivia o auge de sua popularidade.

Para as professoras Verônica Lima de Oliveira e Janaína Ribeiro, a ação realizada pelo Museu é importante não só para o desenvolvimento, mas também para a autoestima dos alunos do 4º ano, principalmente pelo fato de as histórias serem contadas por uma moradora da Maré que viveu a época retratada nos contos:
“Eu acho muito importante, porque as crianças precisam conhecer a história de onde elas vivem e quem esteve aqui antes delas, né? Então, quando elas participam e veem que a história é real, eu acho que elas se sentem pertencentes daqui também, né? Entendendo que tem uma história antes delas e que elas também vão criar uma história, que nem quando propõem que elas reescrevam a história trazendo para a realidade delas. Elas vão entender que também fazem parte dessa construção e que, daqui a alguns anos, essa história pode ser contada por outra pessoa”.
— Verônica Lima de Oliveira, professora no CIEP Ministro Gustavo Capanema.
Segundo o CEASM e Museu da Maré, a expectativa é de que o festival não se resuma a esse único dia. O objetivo é que ele continue acontecendo e que cada vez mais histórias sejam apresentadas a novas turmas e escolas do território da Maré. Com a realização das atividades em que os alunos reescrevem os contos que ouviram, a equipe também espera trabalhar em uma nova versão do Contos e Lendas da Maré, uma que dialogue com a realidade atual do território.

CONTADORES DE HISTÓRIAS
Antes da fundação do Museu da Maré, existiu a Rede de Memória da Maré, um projeto de pesquisa desenvolvido pelo CEASM com o objetivo de preservar e valorizar a memória local. Para isso, foi iniciado um trabalho de história oral, no qual moradores eram entrevistados e compartilhavam histórias, documentos, objetos e fotografias relacionadas à Maré. Em 2003, como resultado das oficinas de produção gráfica e produção literária da Rede de Trabalho e Educação (RETEM), em diálogo com o trabalho de pesquisa e preservação da memória desenvolvido pelo CEASM, foi publicado o livro Contos e Lendas da Maré.
Os contos passaram a circular cada vez mais pelo território com a atuação do Grupo Maré de Histórias, criado a partir das iniciativas de valorização da memória e da cultura local desenvolvidas pelo projeto Rede de Memória. Entre suas atividades estava a contação de histórias em escolas, onde os contadores apresentavam às crianças e aos adolescentes histórias relacionadas à Maré.
“Esses contos eram contados em várias escolas da Maré e despertavam nos alunos a vontade de escrever novos contos. Por isso, a equipe do educativo, junto ao grupo e à coordenação do Museu da Maré, decidiu organizar esse festival itinerante de contação de histórias, com a participação e o repertório de outros contadores nas escolas da Maré. Eu vejo isso como uma grande interação, uma mistura gostosa do Grupo Maré de Histórias com outros contadores. Quem ganhou com isso foram os alunos, que já estão reescrevendo novas histórias”.
— Marilene Nunes.






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