Foto de capa: Christóvão Carvalho

Entrevistas e texto: Carolina Vaz


Eventos literários, tradicionalmente, apresentam novos autores e autoras, promovem contação de histórias, atrações culturais e debates sobre as obras. A Maré teve seu próprio evento literário, em versão de dois dias, na semana passada, quando aconteceu a Palavra Viva – Feira Literária Infantojuvenil. A feira ocupou a Biblioteca Municipal Jorge Amado nos dias 20 e 21 de maio, atraindo “crianças” de todas as idades. Além da disponibilidade de obras de pelo menos 12 autores, o evento contou com oficinas e rodas de conversa para explorar outros usos da palavra e do corpo. Alguns exemplos são a oficina de Slam, com MC Martina, e a oficina “corpo, memória e música”, com Rodrigo Maré, músico local.

Livros para todos os gostos e idades

A parte “feira’ do evento disponibilizou obras infanto-juvenis de diferentes estilos: páginas com pouco texto e desenho aquarelado para crianças pequenas; gibis coloridos com histórias seriadas de uma turma de crianças; novos super-heróis fora do convencional; estilo de mangá com personagens nacionais; entre outros. Tudo isso foi garantido pela presença das editoras Letras Virtuais, Litteris, CAPA Comics; os autores Paulo Alves da obra Clubinho do Guaraná, Luma Rodrigues com a HQ Cinzas da Memória, Mari Cabral com o livro O Banho do Bartô, Bel Lopes com os livros infantis Charada e Num Miado de Estrelas, Renato Cafuzo que levou Moleque Piranha e Morro do Dragão, Maxi Tomaz com o livro Brincar e também Mulheres Palavras, e ainda Marco Aurelio Correa, autor do livro Menino Zózimo vai ao Cinema. Também se fizeram presentes os coletivos Baixada Literária, com peças de artesanato inspiradas na literatura e no hábito de leitura, e também o Marimba Literária.

Thalita Oliveira representou o coletivo Baixada Literária no evento. Foto: Christóvão Carvalho

Uma obra para pequenos “crias”

Foi a experiência na educação infantil e a vivência “de cria” que levou a Maxi Tomaz, moradora da Nova Holanda, a fazer seu primeiro livro com referências da infância na favela. Ela lançou, em 2025, a obra Brincar, um pequeno livro ilustrado onde ela define o “brincar” em frases curtas. Em estilo aquarelado, a obra foge de elementos associados aos primeiros anos de vida, como ursinhos e brincadeiras em casa, e mostra uma infância sendo vivida na rua.

Professora da educação infantil, ela conta ter percebido que a brincadeira levava as crianças à primeira “leitura” do mundo, e o primeiro modo de aprender, por isso ela partiu do Brincar para a narrativa. “Mas eu quis falar também da minha experiência como professora e como moradora da Maré, porque eu brinquei muito na Rua Principal, numa outra época”, Maxi defende. As crianças representadas nos livros têm diversidade de gênero e raça, há crianças cadeirantes e com deficiências ocultas (usando cordão de girassol), com cabelo “nevou”… isso além do ambiente representado no livro. Vemos o grafite pedindo Paz, a casa de tijolo, a pipa presa no fio de energia.

Foto: Christóvão Carvalho

“Quando a criança brinca na rua, ela também está fazendo uma leitura do mundo. Então, eu pensei muito nessa questão da brincadeira na perspectiva do sonho, da reinvenção dessa infância”.

Maxi Tomaz, autora do livro “Brincar”


Em entrevista, Maxi também falou sobre a experiência de ter levado o livro para escolas do território e as consequentes reações das crianças. A primeira é de sempre achar que a rua no livro é a própria rua, devido às semelhanças. Ela também recebeu desenhos e cartinhas de “admiradores mirim”, mas, principalmente, sempre tem alguém que não acredita que a autora do livro mora por ali mesmo. “Elas querem perguntar! ‘Tia, você mora na minha rua? Eu não acredito’”, contou rindo.

Afrofuturismo e fantasia

Uma das atrações do dia 21 de maio foi a roda de conversa “Afroimaginar: entre dragões e vigilantes de mundo”, que teve como convidados Lu Ain-Zaila, autora do livro Ukwa: A Vigilante de Mundos, e Renato Cafuzo, autor de O Morro do Dragão. A roda ainda contou com a mediação de Hanny Saraiva, também autora de livros.

Da esquerda para a direita: o autor de Morro do Dragão, Renato Cafuzo, a autora de Ukwa, Lu Ain-Zaila e a mediadora Hanny Saraiva. Foto: Christóvão Carvalho.

O ponto central da semelhança entre os autores está em ter realizado uma obra de fantasia com protagonistas negros. Não apenas são protagonistas como são pessoas “do cotidiano”, como o avô e a neta que moram no Morro do Dragão e conversam sobre o passado, e a jovem Maria que precisa entender seu destino como vigilante de mundos enquanto vive um cotidiano de estudo e trabalho. Para Lu Ain-Zaila, colocar elementos do cotidiano numa obra de futurismo e fantasia é muito natural. Em sua fala, ela defendeu a legitimidade de autores negros apresentarem novas formas de literatura, o que muitas vezes encontra grandes obstáculos no ambiente acadêmico. Mas a autora reiterou: “A gente tem que começar de algum lugar!”. Com orgulho, ela mostrou os elementos simbólicos introduzidos na ilustração da obra para melhor retratar como ela imaginou o ambiente fantástico da história.

Lu Ain-Zaila mostra uma das ilustrações do livro para explicar a escolha de símbolos para a história. Foto: Christóvão Carvalho

Renato Cafuzo, que já tinha lançado Moleque Piranha ambientado na favela, comentou sobre ter criado uma obra que misturava favela e fantasia para o público infantil. O elemento do “dragão”, que na história mora na favela, veio das suas próprias lembranças de infância, como um ser que o fascinava. Apesar das muitas representações existentes do ser místico, Renato se inspirou nos modelos de mangá para a obra.  O livro também traz elementos de ancestralidade, exatamente porque a história do Morro do Dragão vai sendo contada pelo avô, a partir da pergunta da neta sobre a origem do morro, e consequentemente daquele lugar onde eles pertencem. Resgata a tradição da oralidade na manutenção da memória. “Eu penso muito na história do Morro do Dragão como uma passagem de conhecimento sobre o que significa pertencer a esse lugar”, Renato comentou.

Renato Cafuzo lê trecho do livro O Morro do Dragão. Foto: Christóvão Carvalho.

Ilustrador e escritor, o mareense não ficou imune à pergunta sobre essa dupla função, e em resposta contou que começou pelo texto, uma vez que já trabalhava com ilustração e estava “se aventurando” para escrever o segundo livro infantil. Justamente por ter o hábito de ilustrar livros, de outros autores, Renato começou pela escrita da história, e automaticamente a ilustração foi surgindo. “Eu comecei escrevendo, mas ao longo do processo vinham imagens na minha cabeça”, explicou.

Depois de tantos detalhes e explicações sobre os processos de escrita e ilustração de um livro, as crianças puderam participar da oficina de Zine e Quadrinhos com o autor Cristiano Ludgerio. Ilustrador, quadrinista  e co-fundador da CAPA Comics, ele aplicou uma atividade na qual as crianças teriam que criar 3 quadrinhos de uma pequena história, colocando o desenho no alto e a história embaixo. No final, ele pôde comentar algumas das criações.

Cristiano interage com Miguel, um dos participantes da oficina. Foto: Christóvão Carvalho.

Leitura é questão de hábito

O evento Palavra Viva – Feira Literária Infantojuvenil foi contemplado pelo edital Literatura do Rio ao RJ, da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro. Quem escreveu o projeto, e executou o evento na produção, foram Adelly Constantino e Karina Vasconcellos. Em entrevista, a produtora cultural Adelly contou que foi o primeiro projeto do tipo feira literária que idealizou, e que já conhecia a equipe da Biblioteca Jorge Amado, assim como o espaço e o público, e teve certeza que daria certo. Para a captação de expositores, foi abertura uma chamada pública, além da divulgação para coletivos de autores e movimentos literários já conhecidos pelas produtoras.

Adelly Constantino (blusa preta) e Karina Vasconcellos estavam na produção do evento. Foto: Christóvão Carvalho.

Em parceria com Adelly e Karina estava a curadora Hanny Saraiva, responsável pela decisão final às barracas e mesas do evento. As atrações artísticas selecionadas também partiram do conceito do evento e do repertório de possibilidades das produtoras. Para Adelly, um dos pontos positivos do evento foi ser realizado num local que as crianças já frequentam, como é o caso da Biblioteca Jorge Amado. Acostumadas com o ambiente, elas também “se jogaram” tanto na roda de conversa sobre afrofuturismo quanto na oficina de quadrinhos e zine.

A criatividade estava solta na oficina de quadrinhos e zine. Foto: Christóvão Carvalho.

Por fim, ela comentou sobre como criar uma “criança leitora” em tempos de muito uso de tela: “Se a família não é leitora ou se não tem uma professora, um professor que alimente muito isso, ela não vai ter muito contato com o livro. Por outro lado, se ela é apresentada, ela vai virar leitora sempre, assim, né? Então, acho que é isso, acho que é o momento de aproximar as crianças da biblioteca, que também é um lugar seguro… e ler, né?”

O evento foi finalizado com muita troca de experiências e contatos entre os expositores das feiras, muito conhecimento absorvido das mesas e rodas de conversa, e inestimáveis novas lembranças para as crianças participantes.

Produtoras, expositores, autores e equipe da Biblioteca Jorge Amado. Foto: Christóvão Carvalho.

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