Foto de capa: Ana Cristina da Silva
Entrevistas e texto por Christóvão Carvalho
É Copa! Em dia de estreia do Brasil, neste sábado, 13 de junho, a equipe do Jornal O Cidadão traz a beleza das ruas da Maré, que, com o apoio de instituições, artistas e moradores, ganharam uma roupagem toda especial em diversos pontos do conjunto de favelas. Do Parque União à Nova Holanda, da Baixa do Sapateiro à Vila do Pinheiro, bandeirinhas, pinturas no chão, muros coloridos e bandeiras do Brasil mantém uma tradição que traduz a união dos moradores a favor de uma paixão nacional. Veja alguns pontos a seguir.
Parque União
No Parque União, a Rua Brasília voltou a se transformar em cenário para o Dance Maré. Com bandeirinhas penduradas, pintura no chão e outros adereços, a rua foi preparada para receber gravações do grupo de dança em clima de Copa do Mundo.
Yago Melo, integrante do Dance Maré, conta que a relação do grupo com a Rua Brasília começou em 2022, com a gravação do clipe de “Waka Waka”, música da cantora Shakira. Para a Copa deste ano, o grupo voltou ao local com uma nova produção ao som de “Dai Dai”, também da artista colombiana. A trajetória recente do grupo com a cantora, incluindo a participação no show de Shakira em Copacabana, já foi contada pelo Jornal O Cidadão em matéria publicada em maio.

Uma versão do clipe já virou uma publicação nas redes sociais do Dance Maré. Já uma produção mais elaborada, gravada também na quadra decorada do Tijolinho, deve ser lançada nos próximos dias e terá exibição no programa Fantástico, segundo Raphael Vicente (26), fundador do grupo.
Para Raphael, morador da Rubens Vaz, a escolha da Rua Brasília também reforça a identidade do trabalho realizado pelo Dance Maré. A intenção, segundo ele, é que as pessoas vejam “de cara que é um clipe que é feito no Brasil, e principalmente, numa favela”.
A mobilização para decorar a rua envolveu integrantes do grupo, moradores, amigos e crianças da comunidade. Para Raphael, decorar as ruas da Maré é uma forma de manter viva uma tradição que atravessa gerações. “Eu me lembro que eu era criança, andava pelas ruas e ficava muito encantado, sabe?”, recorda. “Mesmo que não venha hexa, a gente tem esse espírito de acreditar (…) A copa é isso, é a união do mundo todo, e não somente o mundo todo, mas a união de pessoas da favela, e de todos que se juntam pra ajudar”, completa Raphael.
Veja mais fotos da Mayara Donaria, na Rua Brasília:
Nova Holanda
Na Nova Holanda, a Rua 3 e a quadra do Tijolinho receberam cores, bandeirinhas e pinturas em uma ação ligada ao Instituto Crias do Tijolinho. Mesmo com o chuvisco, a produção, que acontecia na Rua 3, não parou, e os moradores seguiram envolvidos na preparação.

Para Kamila Camillo, uma das envolvidas na organização, a pintura tem ligação direta com a memória das Copas vividas em sua infância. “Então, eu sempre quis fazer com que essas memórias fossem reproduzidas de geração em geração”, conta.
Segundo ela, mais de 50 pessoas colaboraram para os enfeites da rua e da quadra, com grande participação das crianças. O Instituto também ajudou no planejamento, com organização de materiais, dias e horários para que a ação acontecesse. “A gente produz em coletivo, a gente pensa em coletivo e a gente só conseguiu construir tudo isso até hoje porque é coletivo”, resume Kamila.

Veja mais fotos do Tijolinho:
Também na Nova Holanda, a antiga Rua L, hoje chamada de Rua João Severino, chamou atenção pela criatividade. Além das bandeirinhas e das cores do Brasil, moradores instalaram balões verde e amarelo acoplados às lâmpadas, criando uma espécie de corredor iluminado para receber a Copa.
A ideia partiu de Washington, morador da região, e foi abraçada pelos vizinhos. Marinalva Rodrigues de Souza (56), moradora da rua há mais de 40 anos, conta que a decoração levou cerca de uma semana e meia para ficar pronta, mesmo com dificuldades no caminho. “Foi porque choveu, o esgoto estava estourado, aí prejudicou bastante, mas deu certo”, relembra.

Para ela, ver a rua decorada é também uma forma de reacender sentimentos positivos em meio às dificuldades do dia a dia. “O mundo está tão cruel, o povo tão maldoso, não gosta de nada. E aí, quer dizer, é uma alegria pra gente ter mais uma Copa aí, né? Que ganhe”, diz Marinalva.
Veja mais fotos da Rua João Severino:
Baixa do Sapateiro
Na Baixa do Sapateiro, a preparação para a Copa também apareceu em diferentes pontos. No último domingo, dia 7 de junho, próximo à divisa, Na Casinhas, em frente à Vila Olímpica Seu Amaro, moradores da região se organizaram para enfeitar um trecho da Rua Tancredo Neves.
Wesley Gomes (30) e Sandro de Lima (52) estavam focados na pintura dos desenhos no chão. Ao mesmo tempo, moradores curtiam o lazer de domingo, com música, churrasco e bebidas. Nem por isso a dupla deixou o comprometimento de lado. “A gente sempre faz essas decorações na Copa. Eu já ajudei a decorar em outros anos”, diz Wesley. E, ao ser perguntado sobre qual decoração de qual ano ele gostou mais, ele não pensou muito e respondeu: “a desse ano, de longe, de longe”.

Enquanto Wesley se encarregava de dar vida aos desenhos ainda sem cor, Sandro foi o responsável pelos rabiscos no chão e, quando estivemos no local, ele também estava focado nos contornos das pinturas.
Assim, o mascote do Brasil, Canarinho Pistola, a bandeira, a taça e outros elementos temáticos foram ganhando vida e sendo preparados para homenagear a nossa seleção na competição.
Veja mais fotos da Casinhas:
Ainda na Baixa do Sapateiro, a Rua 17 de Fevereiro também entrou no roteiro das decorações. Por lá, o chão ganhou mensagens como “Vai Brasil” e “Brasil rumo ao hexa”, enquanto bandeiras do Brasil e fitilhos verde e amarelo ajudaram a transformar a rua em um corredor de Copa.
A ação faz parte de uma ação promovida pela instituição Maré Mais, com a participação dos artistas Lucas Bento, Tiago Mala e Francis Silva, além de colaboradores convidados ao longo da execução das pinturas.
Segundo Lucas Bento, a proposta do projeto é dar o primeiro passo e incentivar que os próprios moradores também participem da construção. “Porque a ideia do nosso projeto assim, é dar o pontapé inicial, que aí depois a gente deixa um pouquinho de tinta, as crianças vêm e fazem, entendeu?”, explica.

A parceria com o Maré Mais, segundo ele, surgiu após os próprios artistas entrarem em contato com a instituição pelas redes sociais. A partir daí, as ruas escolhidas com apoio dos moradores começaram a receber materiais, tintas e a participação dos artísticas.
Veja mais fotos da Rua 17 de Fevereiro:
Nas proximidades do Pontilhão, a Rua Oliveira também apareceu tomada por bandeirinhas, bandeiras do Brasil e pinturas nas cores da seleção. Morador da rua, Yago Melo conta que a mobilização seguiu a tradição de reunir vizinhos para arrecadar recursos, comprar materiais e preparar o espaço para os jogos. “Então, é interessante ver que os moradores ainda com tantos problemas, né? Com tantos desafios, eles não perderam esse senso de coletividade”, afirma Yago.
Para ele, a decoração das ruas ajuda a reforçar o clima de Copa dentro da favela. “É muito gostoso ver esse clima. E todo mundo pulsando num só pensamento”, completa.
Veja mais fotos da Rua da Oliveira:
Vila do Pinheiro
Na Vila do Pinheiro, os moradores da Via C8 também foram selecionados pela instituição Maré Mais.
O processo teve início nos últimos dias e segue em andamento, com moradores e artistas concluindo os detalhes da decoração. É o caso de Minervina Alves de Lima (55), a Dona Mema, uma das antigas moradoras da rua. Para ela, a decoração vai além da beleza. “Bom, é muito legal, né? Porque une as pessoas. Todo mundo passa a se falar, se comunicar, ajudar um ao outro, a limpar, a conservar, para decorar. É bem legal”.
O sentimento é o mesmo para Marineide Pereira da Silva (53), que mora em frente à casa de Dona Mema. Apesar de estar em viagem na época do planejamento, assim que chegou, ela tratou de se atualizar e incluir três netos e o genro nos preparativos. “Eu estava no Nordeste, cheguei esta semana e já estou junto com as meninas (as netas)”.

As moradoras revelaram ainda que não costumam acompanhar futebol em geral, mas que, em época de Copa do Mundo, decorar a rua é tradição e um momento especial para torcer e reunir a família e amigos.
Para assistir aos jogos, Dona Marineide já sabe onde vai estar: “Na minha casa, com a família. Vai ter churrasquinho, pipoca e suco de maracujá”.
Ainda no local, os moradores se mostraram unidos e já prometeram se organizar para uma confraternização de festa junina pós-Copa. “Aproveitar as bandeirinhas penduradas, né? (risos)”, brinca Dona Mema.
Veja mais fotos da Via C8:
Curiosamente, no mesmo dia, uma família compartilhava um momento especial, pendurando bandeirinhas na Travessa Sete, bem ao lado da Via C8.






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