Entrevistas: Ana Cristina da Silva e Carolina Vaz
Texto: Carolina Vaz
Foto de capa: Anders Nord via Unsplash

Imagine que todo mundo tem acesso à educação, emprego, lazer, arte, cultura e equipamentos de saúde. Quantas doenças, de ordem física e mental, não seriam evitadas? Essa hipótese não é diferente com o alcoolismo, o nome que se dá ao adoecimento por uso abusivo de álcool. Numa sociedade que normaliza — e em muitos contextos até estimula — o consumo desenfreado das bebidas alcoólicas, iniciativas públicas e independentes ofertam cuidado e socialização para quem reconhece estar adoecido. Nesta reportagem, conheça os trabalhos dos Alcoólicos Anônimos e do Centro de Atenção Psicossocial focado em casos de Álcool e Drogas, chamado de CapsAD.

Sobriedade e trocas de experiência

Marcos Alexandre percebeu logo na juventude que fazia uso prejudicial do álcool. Foto: Ana Cristina da Silva.

 


“O nosso lema aqui é evitar o primeiro gole, porque quando a doença já está manifestada o primeiro gole, por mais que seja pouco, é o gatilho (…) A doença se alastra e você não consegue mais parar”.

— Marcos Alexandre, membro dos Alcoólicos Anônimos


Marcos Alexandre, criado na Baixa do Sapateiro, tem 58 anos e há 33 decidiu que parar de beber seria o melhor para a sua vida. Ele havia começado a consumir álcool já na adolescência, buscando superar sua timidez e conquistar vida social. “Foi como um passe de mágica, eu passei a me enturmar com a rapaziada, eu passei a namorar”, ele comenta. Mas em menos de 10 anos Marcos percebeu que ficar embriagado causava problemas diversos, como “vacilar” com os amigos e levar “vida de solteiro”. As “vacilações” o levaram a crer que ele vivia em risco e poderia morrer prematuramente.

Com a ajuda de um parente, ele conheceu a proposta dos Alcoólicos Anônimos, visitando primeiro o grupo da Vila do João, e não saiu mais. Hoje Marcos frequenta o grupo Bonsucesso na paróquia Nossa Senhora dos Navegantes, na Baixa do Sapateiro. É o grupo mais antigo da Maré, já com 60 anos.

Grupo Bonsucesso, na Paróquia Navegantes, abre quatro dias por semana para quem acredita precisar de ajuda. Foto: Ana Cristina da Silva.

A programação do AA consiste em reuniões, geralmente de duas horas, nas quais as pessoas que desejam parar de beber compartilham suas experiências. Pode-se dizer que o programa, criado há 91 anos, trabalha com dois pontos essenciais: a crença de que o melhor caminho para superar os efeitos do uso abusivo é a abstinência (não beber), e que a troca de depoimentos pode levar a uma melhor compreensão dos fatores que levaram a este uso e pode inspirar melhorias.

A programação dos grupos se mantém independente de feriados e finais de semana, exatamente porque pode ser o único ponto de apoio para quem precisa de ajuda. Quem garante isso no Grupo Bonsucesso é Sérgio do Espírito Santo, coordenador do grupo e tesoureiro. Toda segunda-feira, quarta, sexta e sábado, das 19h às 21h, ele mantém o espaço aberto e arrumado.

Sérgio do Espírito Santo ingressou no A.A. há 23 anos e mantém o compromisso de abrir o espaço do Grupo Bonsucesso. Foto: Ana Cristina da Silva.

Segundo o próprio Sérgio conta, há algumas décadas ele era visto pela Baixa e Morro do Timbau embriagado. Hoje, com 64 anos, ele relata que chegou a perder emprego e casamento por causa do alcoolismo. Sérgio começou a ter alucinações em virtude do álcool e, relembrando, considera que colocou sua vida em risco. Foi levado pelo pai para internar e depois resolveu parar o consumo. Pessoas próximas chegaram a debochar dele pela mudança repentina, o que acontece até hoje quando ele tenta aconselhar alguém de seu círculo pessoal. Sérgio frequenta o AA há 23 anos.

Nesse tempo, uma das percepções que ele teve foi de que a doença não escolhe classe social. “Se você for no grupo Barra, tu vai ver simplesmente uma Lamborghini, vai ver carro de luxo. Lá tem gente que só bebia uísque. (…) É uma doença que não tem pobre e não tem rico. Quando ela pega, vem para derrubar”, ele conta. Nos dias em que ele não precisa abrir o grupo Bonsucesso, ele frequenta outros, dentro e fora da Maré, para ouvir experiências e poder contribuir mais.

Nas paredes da sede do grupo, mensagens da literatura do A.A. refletem valores defendidos. Foto: Ana Cristina da Silva.

O AA também funciona com o sistema de apadrinhamento, no qual quem está entrando ouve as histórias e escolhe um padrinho ou madrinha. Essa pessoa vai ser sua referência ali, e até propor atividades, como visitar outros grupos. Ao entrar, ganha-se uma ficha. Aos três meses de sobriedade, outra. E, de novo, aos nove meses e um ano. Depois, a cada ano. Mas tanto Sérgio quanto Marcos falam que o propósito deles não é “diagnosticar” o alcoolismo em alguém ou aconselhar, mas sim apresentar o programa e compartilhar experiências.

Cuidado em liberdade e comunitário

Apesar do longínquo e credibilizado trabalho do A.A., hoje já acredita-se que a abstinência não é o único caminho para a recuperação de quem faz uso abusivo de substâncias, seja essa recuperação física, mental ou social. A instituição pública indicada para esse cuidado, atualmente, é o CapsAD. Para a Maré, o CapsAD de referência é o Miriam Makeba, localizado em Ramos e atuante há 11 anos. Não somente para a Maré, mas para todos os bairros na área de cobertura da Coordenadoria Geral de Atenção Primária CAP 3.1, como Complexo do Alemão, Ilha do Governador, Manguinhos, Complexo da Penha e Vigário Geral.

A entrada do Centro é um dos espaços de socialização dos frequentadores. Foto: Ana Cristina da Silva.

O CapsAD é um equipamento de saúde do SUS, voltado para o cuidado integral, e conta com uma equipe de profissionais das áreas de Medicina (incluindo Psiquiatria), Enfermagem, Musicoterapia, Serviço Social, Psicologia, Educação Física, Redução de Danos e Farmácia. Abre ao público de segunda a sexta, das 8h às 17h, mas funciona 24h em função do acolhimento noturno.

Sarah Hobaik, psicóloga e coordenadora técnica do Miriam Makeba, explica que lá o olhar da instituição é para o usuário: “O foco não vai ser na substância, mas vai ser no sujeito, no contexto que ele tem nessa história, muitas vezes vulnerabilizada, ligada à violência do Estado. A ideia da redução de danos é poder proporcionar ao usuário um cuidado que não seja estigmatizado (…) O cuidado é comunitário”.

Da esquerda para a direita: Karoline Nascimento, Jéssica Motta, Sarah Hobaik e Márcia Cristina de Bezerra Tavares. Foto: Ana Cristina da Silva.

Mais do que um serviço que pode oferecer desde um banho, uma hidratação, alimentação, curativo e medicamentos, o CapsAD prevê um cuidado em que é fundamental compreender o que levou a pessoa até ali e que ausências na sua vida podem ser sanadas a partir deste trabalho. Como um equipamento do SUS, o Centro se mantém em contato com demais unidades de saúde da região sejam Clínicas da Família, CMS, hospitais públicos e até outros CAPS. Existe um diálogo direto e tanto as unidades de saúde podem encaminhar pacientes para lá, quanto o inverso.

O paciente também pode chegar por conta própria ou acompanhado por familiar, o que muitas vezes acontece. Esse momento, chamado de “acolhimento de primeira vez”, pode demandar cuidados primários, como soro de hidratação, banho e café, ou, caso a pessoa consiga se comunicar, esta será recebida por dois profissionais que vão ouvir sua história.

Karoline Nascimento, responsável técnica de enfermagem do Miriam Makeba, explica que lá é um serviço de média e alta complexidade, então geralmente quem chega já está fazendo uso prejudicial das substâncias. Na sua experiência, ela observa que os casos ligados a álcool, principalmente, apresentam outras doenças relacionadas, e condições de saúde em geral mais graves. Todos os usuários do espaço fazem atendimento periódico com médicos lá mesmo.

Trabalho em conjunto com família

Um aspecto destacado por várias profissionais foi o atendimento estendido à família e a importância de sua participação naquela trajetória de cuidado, desde ajudar a equipe a identificar que contextos e situações levaram ao uso prejudicial do álcool, até também compreender que o afeto pode ajudar na recuperação. Porém, o convívio com um familiar adoecido pode também adoecer esta pessoa, portanto, ela tem livre acesso à equipe para conversas individuais e também para o grupo de família. A psicóloga Maria Eduarda Valentim comenta: “A gente tem tentado minimamente cuidar também da família, porque a gente sabe o quanto isso é difícil, e tentar aproximar essa família no sentido de não sobrecarregá-la ainda mais”.

Maria Eduarda Valentim é psicóloga no Miriam Makeba. Foto: Ana Cristina da Silva.

Convivência e lazer como tratamento

Além da convivência diária entre os frequentadores do local, que as profissionais afirmam ser uma oportunidade para cada um se compreender, também existem atividades programadas e realizadas pela própria equipe, como o Respira e Não Pira, que é um momento de relaxamento, com técnicas de respiração, e o objetivo de que cada um possa acalmar os pensamentos e se observar. Outra atividade, que acontece sempre às sextas-feiras, é o Batuque Makeba. Composto por usuários e profissionais do CapsAD, instrumentistas, o Batuque Makeba é uma roda de samba, na qual todo mundo pode dançar e cantar livremente, entrando no clima do “sextou”.

As paredes do CapsAD também foram preenchidas através da oficina Arte Cria. Foto: Ana Cristina da Silva.

Existe também um momento de criação artística, seja de frases, desenhos, pintura, entre outras expressões. Trata-se da oficina Arte Cria. Um dos participantes é Jonas Guimarães, de 38 anos, compositor e mestre de cerimônias (MC). Jonas frequenta o CapsAD há alguns anos e hoje está como acolhido. Significa que ele dorme lá e também faz suas refeições. Jonas conta que começou a beber e usar drogas na adolescência, mas quis parar e quando ouviu falar do tratamento no CapsAD e da disponibilidade de remédios que combatem a abstinência, ele se interessou.

Foto: Ana Cristina da Silva.

“Aparentemente, quando você está bebendo, as coisas que você não quer lembrar, que trazem tristeza, depressão, solidão, desaparecem. Mas depois parece que volta tudo pior, em dobro. Os problemas não desaparecem. Então, na verdade, é ilusão a bebida”.

— Jonas Guimarães, frequentador do CapsAD Miriam Makeba


Hoje, Jonas acredita que está melhorando a cada dia, não somente pelas medicações, mas também pelas oficinas e atividades coletivas. Escrevendo letras de música quase diariamente, ele sonha em poder viver do seu talento.

Foto: Ana Cristina da Silva.

O tratamento do uso abusivo de substâncias, tradicionalmente chamado de Redução de Danos, na perspectiva do CapsAD adquire novas metodologias. Em atendimentos específicos, como o serviço noturno para usuários que ficam na rua, e expõem-se a riscos para além dos efeitos das drogas, a equipe proporciona kits de redução de danos, como canudos, kit alimentação, preservativo e kit de higiene. Porém, trabalha-se também com a “redução de danos ética”, nas palavras de Karoline Nascimento, que é sobre entender a vulnerabilidade dos usuários atendidos e poder cuidar desses aspectos, reduzindo os danos gerados pelo consumo. Isso vai desde acesso a benefícios a que têm direito, como BPC e Bolsa Família, passando pelo tratamento no CapsAD até o próprio acesso a espaços de lazer, resgatando dignidade.


“Nós somos um serviço que vem para substituir um cuidado que era mais isolado, manicomial mesmo, então a ideia é poder pensar esses usuários na vida, nas relações sociais. Isso produz melhoras, produz cuidado também”.

— Karoline Nascimento, responsável técnica de enfermagem do CapsAD Miriam Makeba


Geração de renda e gestão do dinheiro

Muitos frequentadores do Miriam Makeba se encontram em situação de vulnerabilidade financeira, e têm dificuldade para acessar renda. Neste sentido, eles podem ser encaminhados para o programa de “emprego apoiado” da Superintendência de Saúde Mental, da Secretaria Municipal de Saúde, que consiste em acessar oportunidades de emprego através de parcerias com empresas. São lugares como farmácias, fast-food e lojas de roupa que recebem essas pessoas como novos funcionários, porém este trabalho tem horário limitado para que não seja um obstáculo ao tratamento no CAPS. São os próprios profissionais do CapsAD que identificam as habilidades daquela pessoa e ajudam no encaminhamento para oportunidades disponíveis.

Uma das salas de oficinas do Miriam Makeba permite a livre expressão na paredes, em ocasiões específicas. Foto: Ana Cristina da Silva.

Karoline Nascimento comenta, também, sobre as oficinas de geração de trabalho e renda que eles mesmos realizam, que são o Silk Metamorfose, de estamparia de camisas, e o Makeba Bijus, com a produção de bijuterias. Os próprios usuários criam e escolhem as artes para as camisas e confeccionam as bijuterias, além de participar da venda em eventos e assim se desenvolver na administração de um pequeno negócio.

Dos 11 anos de existência do Miriam Makeba, há 10 conta-se com a presença de André Luiz, de 54 anos. Ele gosta de ir até lá toda manhã, tomar café e “conversar com a técnica”, que no caso é a profissional de referência que acompanha seu cuidado. Ele também toma medicamentos no local. Quando perguntado sobre como recomendaria o local a alguém que precisasse de ajuda, ele responde: “Você vai ter que falar os seus problemas pra eles”. Demonstra, assim, que cada um tem seus problemas e também suas soluções, sem fórmula pronta para alcançar a saúde.

Serviço:

CapsAD Miriam MaKeba
Endereço: R. Professor Lacé, 485 – Ramos
Funcionamento 24h

AA Grupo Bonsucesso
Paróquia Nossa Senhora dos Navegantes
R. Luiz Ferreira, 217
Maré

AA Grupo Vila do Pinheiro
Via A1, número 104
Vila do Pinheiro, Maré

AA Grupo Confiança
Rua Evanildo Alves, 83
Nova Holanda, Maré

AA Grupo Reunido de Bonsucesso
Rua Teixeira Ribeiro, 637
Nova Holanda, Maré

AA Grupo Nova Holanda
Rua Sargento Silva Nunes, S/N
Nova Holanda, Maré

AA Grupo Parque União
Rua Tiradentes, 3
Parque União, Maré

Confira todos os grupos do AA pelo Brasil aqui.

Na Maré também existe o Espaço Normal, Espaço de Referência sobre Drogas na Maré, localizado na Rua 17 de Fevereiro, 237.

Deixe um comentário

EM DESTAQUE

Descubra mais sobre Jornal O Cidadão do Bairro Maré

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo