Tudo começou em 2018, com a ideia de se criar uma espécie de catálogo digital para facilitar o contato com lojas e serviços na região de Manguinhos. Hoje, essa ideia não só se tornou realidade, como também evoluiu para algo muito maior. Desenvolvido por Kayo Victor Max, morador do Mandela, o aplicativo Lojas das Comunidades atende mais de 30 favelas cariocas, fortalecendo o comércio periférico e facilitando o acesso dos moradores a serviços locais, sem que precisem sair de casa.
Tendo começado como um site, foi somente em 2023 que o Lojas das Comunidades se tornou um aplicativo. As primeiras regiões atendidas foram Manguinhos e Jacarezinho. Hoje, o aplicativo se encontra disponível de forma gratuita — tanto para Android quanto para Iphone — e além de contemplar as lojas da Uruguaiana, já se encontra ativo em 42 localidades. Entre elas, 10 das 16 favelas da Maré.
De início, a proposta era reunir os comércios e serviços de cada favela em um só lugar, de forma que eles fossem separados por região, facilitando com que o usuário encontrasse restaurantes, farmácias, manicures e demais serviços perto de casa. No entanto, o aplicativo acabou se tornando um ecossistema pensado para a favela, apresentando ferramentas que auxiliam na pesquisa por vagas de emprego, na venda de produtos novos e usados e que agora vêm digitalizando os serviços oferecidos pelas associações de moradores.

“A ideia era colocar uma loja seguida por comunidade, então não era tão difícil, era só ir organizando. Só que o sistema foi crescendo, crescendo, crescendo. Chegou uma hora em que comecei a colocar vaga de emprego, comecei a colocar o Joga pra Rolo. Hoje o sistema está mais complexo. Hoje eu consigo competir com grandes startups por aí. Só não tenho o dinheiro que os caras têm. Mas o Lojas das Comunidades nasceu de uma necessidade de facilitar a minha vida e solucionar o problema de algumas pessoas”.
— Kayo Victor Max.
COMO FUNCIONA?
Ao baixar o aplicativo, o usuário irá fazer um cadastro e informar em qual favela mora. Por exemplo, se ele informa que mora na Nova Holanda, o aplicativo automaticamente irá exibir lojas desta comunidade em específico, dividindo-se entre as categorias comidas, produtos e serviços. Também de forma gratuita, esse mesmo usuário pode cadastrar sua própria loja ou oferecer ali o seu serviço, onde pode colocar fotos, descrição, horários de funcionamento, número de WhatsApp e redes sociais. Com um único clique a pessoa que tiver interesse será redirecionada para falar com a loja ou pessoa que está oferecendo o serviço.
“Para ser realmente acessível, o aplicativo é 99% gratuito. O lojista baixa o aplicativo gratuitamente e coloca a loja dele gratuitamente. Se estiver interessado em ter um destaque maior, paga por um anúncio, uma propaganda, um serviço por fora (…) E, se o lojista quiser se tornar Premium, ele passa a ter espaços melhores para colocar mais informações. Mas isso não tira a credibilidade de quem está no gratuito. A diferença é que, no Premium, a gente vai ter mais informação para agregar dentro do perfil dele”.
— Kayo Victor Max.

Dentro do aplicativo também há uma área voltada para a troca e venda de produtos. Funcionando como uma espécie de OLX, o Joga pra Rolo permite que os usuários façam anúncios de serviços, eletrônicos, imóveis, veículos e muito mais. Segundo Kayo, assim como na parte das lojas, o Joga pra Rolo filtra a localização do usuário e o notifica quando novos itens são anunciados perto dele: “Se você faz uma divulgação no Joga pra Rolo, as pessoas da sua comunidade recebem a notificação, mas gente de outras comunidades também consegue visualizar o mesmo anúncio”.
No entanto, para o empreendedor de 38 anos, o que mais se destaca hoje no aplicativo é a área voltada para vagas de emprego. Ali o usuário pode criar um currículo com facilidade, fornecendo algumas informações como nome completo, escolaridade, experiência profissional e etc. Em poucos minutos é gerado um currículo em PDF que pode ser baixado ou salvo no aplicativo. Com isso, é possível não só visualizar as vagas de emprego disponíveis no app, como também se candidatar a elas com apenas um clique.

“A gente molda o aplicativo com base nos cliques. Tudo tem um sensor para entender onde a pessoa clica mais. Tudo que não gera valor, que não gera recurso para quem mora, a gente vai substituindo por novos algoritmos e novas funções que possam agregar valor. O aplicativo está sempre se reinventando”.
— Kayo Victor Max.
INTEGRAÇÃO COM DIFERENTES COMUNIDADES
Apesar de ter sido o responsável pelo desenvolvimento do aplicativo, Kayo Victor conta com o apoio e participação da esposa, Ediliane Araújo, desde quando tudo não passava de uma ideia. Juntos, eles são responsáveis por localizar novos negócios e empreendedores para ampliar o alcance do Lojas das Comunidades, fazendo com que cada vez mais favelas sejam inseridas no aplicativo.
A presença do Conjunto de Favelas da Maré no app, por exemplo, só foi possível após a parceria firmada com o ator e comediante Jean Lacrot, no ano passado. Famoso na Maré por interpretar o personagem Tiro Júnior, Jean facilitou o contato com comerciantes e empreendedores da região, tornando possível a presença de 10 das 16 comunidades da Maré. “Na hora em que o Kayo me explicou e eu vi o aplicativo pela primeira vez, eu vi essa mesma necessidade do morador achar uma loja sem precisar sair de casa para conseguir contato. Eu vi essa facilidade e falei: ‘Pô, é uma ideia interessante’. Claro que hoje ele está muito mais trabalhado, com muito mais ideias que agregam à comunidade”, conta Jean.

No aplicativo já se encontram cadastradas lojas e serviços da Nova Holanda, Parque União, Salsa e Merengue, Baixa do Sapateiro, Vila Pinheiro, Vila do João, Morro do Timbau, Piscinão de Ramos, Conjunto Esperança e Kelson’s.
O trio destaca que hoje contam com um grupo de WhatsApp com cerca de 20 integrantes que atuam como representantes das comunidades ativas no aplicativo:
“A pessoa decide o que quer ser. A gente não oferece um emprego, oferece uma oportunidade de crescimento. Por exemplo: a gente chega para a pessoa e fala que tem uma plataforma que alcança determinada quantidade de pessoas, que não tem nenhum influenciador local vendendo um serviço. Se ela quiser, pode gravar o vídeo e o dinheiro que fizer é dela. Então ela vira uma influência daquela comunidade, divulga as lojas, fala com os lojistas e as parcerias que fizer são dela”.
— Kayo Victor Max.
O FUTURO DO APLICATIVO
Segundo Jean, atualmente eles vêm buscando um diálogo com as associações de moradores, com o objetivo de digitalizar os serviços ali oferecidos. A ideia é implementar no aplicativo uma área em que o morador crie uma carteirinha digital com todas as informações que a associação precisar. Sendo possível a solicitação de um comprovante de residência válido, a abertura de uma ordem de serviço para problemas de água e luz, tudo através do próprio celular.
“A associação também pode usar a ferramenta para comunicar coisas que estejam acontecendo no território. A ideia é melhorar essa conexão do morador com a associação. Eu vejo que, hoje em dia, pelo fato de a associação ser toda analógica, tem uma distância do morador com a associação. Ninguém é sócio da associação de moradores, porque ninguém sabe o que a associação faz. Então, acho que levar o morador a conhecer uma pouco mais do trabalho da associação levantaria o desejo do morador de virar um sócio, apoiar a associação e se comunicar mais”.
— Jean Lacrot.
Atualmente, esse serviço está funcionando apenas na comunidade do Mandela. Enquanto isso, o diálogo com os presidentes das associações de demais favelas vem acontecendo.

“O meu sonho é que o Lojas das Comunidades se torne o Gov das favelas. Quando falo isso, quero que ele seja a plataforma central para solucionar quase todos os problemas que a comunidade tem. Esse lance de loja, a gente já transcendeu essa necessidade (…) tudo vai sendo englobado dentro do próprio Lojas das Comunidades. Como não existe programador local, eu acredito que essa é a nossa chance de criar esse grande sonho. Seria o Gov das Favelas”.
— Kayo Victor Max.
DA VENDA DE YAKISOBA A DESENVOLVIMENTO DE SISTEMAS
Antes de se dedicar ao Lojas das Comunidades, Kayo ficou famoso no Mandela por outro motivo: a venda de yakisoba. Aos 21 anos, ele largou o emprego de pizzaiolo e decidiu começar o seu próprio negócio. Comprou uma carrocinha e começou a vender yakisoba no Mandela, comunidade de Manguinhos, o negócio foi batizado de Yakisoba de Elite. Em 2012, ele se inscreveu e foi selecionado para participar do Mandando Bem, um dos quadros do programa Caldeirão do Huck, que tinha como objetivo apoiar pequenos empreendedores.
Ali Kayo ganhou R$ 30 mil em dinheiro, além de um trailer personalizado para a venda do Yakisoba de Elite, um carro e duas motos para que pudesse atuar com delivery. No entanto, as coisas não deram muito certo: “A falta de conhecimento financeiro fez eu cair em menos de dois meses. Fui levando o Yakisoba de Elite aos trancos e barrancos até que, em 2018, surgiu a ideia de criar um sistema”, conta o morador do Mandela.
Percebendo que estava sempre compartilhando com os amigos os contatos de lojas e serviços que anotava, ele decidiu criar um site para agrupar essas informações. Aquele foi o primeiro passo para o que viria a se tornar o Lojas das Comunidades.
Trabalhando ao seu lado desde o Yakisoba de Elite, sua esposa, Ediliane, conta que a grande virada de chave da família foi durante a pandemia:
“A gente está junto há 14 anos. Antes do Lojas das Comunidades, a gente vivia 100% para o Yakisoba de Elite. A nossa virada de chave foi por conta da pandemia. A gente trabalhava em frente à UNISUAM, o nosso sustento vinha da rua. Quando falaram: “Ninguém mais pode ficar na rua”, a gente ficou: “E agora? Vai sobreviver de quê? Vai fazer o quê?”. A gente só sabia fazer yakisoba. O yakisoba sobrevivia de evento, sobrevivia da rua. Então foi uma virada de chave muito grande. A gente falou: “Vamos para o digital”. Como já conhecíamos muitas lojas, fomos batendo de porta em porta nos mais íntimos: “Posso cuidar da sua rede social? Me dá uma chance. Vou cuidar por um precinho básico”.






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