Foto de Capa: Christóvão Carvalho
Tons de lilás ocuparam a Tenda Espírita Cabocla Jurema, na Baixa do Sapateiro, no dia 25 de julho. Ao som dos atabaques e cantos, visitantes e filhos da casa acompanharam o Chá de Nanã, gira que reuniu diferentes momentos dedicados às entidades e uma mesa preparada para a festa. Com três anos de existência, a Tenda tem recebido cada vez mais pessoas em suas atividades. Esse movimento ganhou ainda mais alcance recentemente, depois que um vídeo sobre a casa viralizou nas redes sociais.
Com 34 anos de trajetória religiosa, Cida de Oxum, de 64 anos, está à frente da casa. Moradora da Baixa do Sapateiro, ela prefere se apresentar como zeladora da Tenda, por entender que sua responsabilidade está no cuidado com a casa e com os trabalhos realizados ali. Ao explicar o que orienta sua atuação no espaço, Cida destaca uma palavra que atravessa sua trajetória: “A minha função é caridade, eu quero fazer caridade, nada mais do que isso”.

Antes de abrir o próprio espaço, Cida passou cerca de 30 anos na casa de sua mãe de santo, Edilza, em Campo Grande, para onde continuou viajando mesmo depois de se mudar para a Maré. Com o avanço da idade da líder e o encerramento das atividades, Cida decidiu iniciar um trabalho próprio. “Minha intenção era abrir uma casinha só pra eu fazer minhas caridades com as minhas duas filhas”, lembra. Ela se refere a Patricia Pereira e Mara Costa. Além delas, a companheira de Cida, que também integra a Tenda, fazia parte daquele núcleo inicial. O espaço, portanto, começou com as quatro e, aos poucos, passou a receber novas pessoas.
A Tenda existe há três anos e, antes de chegar ao espaço atual, funcionou em um local menor nas proximidades. Conforme o público cresceu, houve ocasiões em que pessoas precisaram acompanhar a gira do lado de fora, inclusive expostas à chuva. Cida decidiu então procurar um lugar maior. Hoje, a casa funciona na Rua da Proclamação, número 27, em frente ao Bar do Manel, na Baixa do Sapateiro, mas o aumento da procura já volta a desafiar o tamanho do espaço. “Eu vim pra cá pra ficar maior, mas aqui também já está ficando pequeno”, conta. Atualmente, a Tenda reúne 26 filhos da casa.

Uma Tenda de Umbanda
O próprio nome do espaço ajuda a apresentar a maneira como Cida compreende a casa. Ela explica que escolheu “Tenda” por associar a palavra a um ambiente menor e mais familiar. “Espírita”, por sua vez, está relacionado à espiritualidade e ao trabalho com as entidades. Ao ser perguntada se a casa segue alguma vertente específica, Cida afirma que segue “a linha da Umbanda mesmo” e usa a expressão “Umbanda pura” para definir a prática adotada no local.
A Umbanda é uma religião brasileira de matriz africana, formada também por referências indígenas, católicas e espíritas. Suas práticas podem variar de uma casa para outra, e as giras são os momentos em que acontecem os trabalhos religiosos. Orixás e entidades ocupam lugares diferentes dentro da religião: os orixás são divindades ligadas às forças da natureza, enquanto as entidades, também chamadas de guias, são espíritos que se manifestam durante os trabalhos.
Já a Cabocla Jurema, entidade da linha dos caboclos que dá nome à Tenda, ocupa um lugar central na trajetória de Cida. Na Umbanda, os caboclos são guias ligados à ancestralidade indígena. “Ela é a chefe da casa. Foi a primeira entidade que veio em mim, foi ela”, explica Cida. Ao falar sobre a espiritualidade presente nos trabalhos, ela também cita Vovó Catarina, uma preta-velha, Seu Marabô, entidade da linha dos exus, e Seu Cobra Coral, também caboclo. Os pretos-velhos são ligados à ancestralidade negra e ao aconselhamento, enquanto os exus exercem funções de guarda e proteção durante os trabalhos espirituais.

A organização das atividades envolve diferentes responsabilidades. Cida cita a mãe pequena, que auxilia na condução dos trabalhos da casa, e as cambonas, que dão suporte às entidades e ao andamento dos trabalhos, além dos outros filhos da Tenda. Como muitos trabalham durante a semana, nem todos conseguem participar da arrumação antes das giras. Quem não pôde chegar antes ajuda depois a reorganizar o espaço. O cuidado também aparece na recepção: Cida orienta os filhos a receberem com atenção e acolhimento quem chega à casa.
Ana Bella Sampaio tem 22 anos e é moradora da Vila do João. Ela chegou à Tenda há pouco mais de dois anos, por indicação de uma amiga. Já se considerava espírita desde criança, mas estava sem frequentar uma casa naquele período. Em sua primeira visita, ainda no endereço anterior da Tenda, participou de uma gira de erê, dedicada às entidades da linha das crianças, e se recorda principalmente da forma como foi recebida. “Era de erê e fui muito acolhida, assim, desde o começo. Eu acho que é o essencial, né? Você como visitante, você gosta de se sentir acolhido”, conta. Depois daquela experiência, passou a estar presente nas giras e tornou-se filha da casa.
Ana Bella resume sua participação dizendo que existe uma relação de ajuda entre todos que integram a Tenda. Ao falar sobre as mudanças que percebe desde que começou a frequentar a casa, destaca o amadurecimento e a maneira como passou a lidar com situações do cotidiano. “Eu acho que, além da maturidade, obviamente, eu melhorei muito na questão de não levar tantas coisas pro coração”, relata. Entre os aprendizados que associa à convivência no espaço, também destaca a importância de ajudar o outro e da caridade.

Lara Maria, de 17 anos, é moradora da Baixa do Sapateiro. Na Tenda, ela é cambona de Vovó Catarina, função em que auxilia durante os trabalhos da entidade e dá suporte ao andamento da gira. Sua relação com a religião começou ainda criança, aos nove anos, e a dedicação e a vontade de aprender a fizeram assumir novas responsabilidades. “Eu acredito que eu fui escolhida pra poder ter esse cargo, que é muito importante, mas que também traz muita responsabilidade, muito aprendizado. Mas eu amo, amo o que eu faço”.
Ao falar sobre o que significa pertencer à Tenda, Lara relaciona a experiência à sensação de ter um lugar de referência. “Resumindo em uma palavra só, eu acho que é você ter uma direção sempre. Você tem pra onde ir, você tem pra onde ser acolhida.” A convivência também mudou sua maneira de enxergar a ajuda ao próximo. “O que eu aprendi, que eu admirei muito, que até hoje eu quero levar pra minha vida, é a caridade que aqui dentro tem”.

Salubá, Nanã!
Atualmente, Cida realiza uma gira por mês, dedicada a diferentes orixás. Na celebração acompanhada pelo Jornal O Cidadão, foi a vez de Nanã. O lilás, apontado pela própria zeladora como a cor relacionada à orixá, estava nas roupas, nas flores e na decoração da casa. Os filhos da Tenda também vestiam camisas no mesmo tom, com a saudação “Salubá Nanã” e uma representação da orixá. Uma mesa preparada para a festa reunia um bolo feito especialmente para a celebração e outros alimentos compartilhados entre os presentes.

Na tradição descrita por Cida, Nanã ocupa um lugar ligado à ancestralidade e ao acolhimento. A zeladora também associa a orixá, no catolicismo, a Sant’Ana. Ela apresenta Nanã como a orixá mais velha e compara sua presença à de uma avó que ocupa um lugar de respeito dentro da família. “Ela é acolhimento. Ela é como se fosse mãe de todos nós. Ela é, entre os orixás todos, a mais velha. É ela que acolhe”, explica.

A gira passou por momentos dedicados a Nanã e Omolu, orixá associado à saúde, à doença e à cura, além da incorporação de entidades cultuadas pela casa, como caboclos, pretos-velhos e erês. Alguns visitantes que já eram iniciados na religião também receberam entidades ao longo dos trabalhos. Eles foram acolhidos pelos integrantes da Tenda e participaram de alguns momentos da gira, enquanto outros visitantes acompanhavam a celebração no espaço reservado à assistência, ao som dos atabaques e dos cantos.

Desde que as primeiras giras começaram, elas foram abertas aos visitantes. Aos poucos, novas pessoas foram chegando à casa e ampliando o público que acompanhava os trabalhos, movimento que levou a Tenda a deixar o primeiro espaço e buscar um local maior.
A divulgação pela internet também passou a aproximar novos visitantes da Tenda. Lara administra parte dessa presença nas redes e lembra especialmente de uma publicação que teve grande alcance. “Naquele vídeo que viralizou, que eu fiz, deu 200 mil visualizações. Eu atendia mais de 100 pessoas por dia no Instagram”, conta. O reflexo da publicação apareceu na gira seguinte, dedicada a Ogum: “Era tanta gente que você não conseguia andar aqui dentro”.
Segundo Lara, boa parte das mensagens recebidas naquele período vinha de moradores da própria Maré que não sabiam da existência da Tenda. Para ela, a visibilidade tem um significado que ultrapassa o crescimento do público. “No geral, a gente que é de religião de matriz africana, é muito difícil a gente ter voz. Mas isso, dentro de uma comunidade, sendo exposto assim, eu acho que é muito importante”.

Ana Bella também vê com satisfação a chegada de visitantes e se reconhece na experiência de quem conhece a Tenda pela primeira vez. “Eu fui essa pessoa há dois anos atrás, sabe? Eu fui muito acolhida”, lembra. Ao falar diretamente com quem tem interesse em conhecer o espaço, acrescenta: “Se sentiu bem, se arrepiou, se sentiu o coração bater forte, por que não? (…) Se permite. A vida é uma só, né? Tem que se permitir pra ver se vai dar certo, se não vai dar”.
O aumento da procura fez a casa crescer além do que Cida imaginava quando começou. Mas, na maneira como ela descreve seu trabalho, acolher quem chega continua sendo parte do princípio que deu origem à Tenda. “As pessoas veem e se sentem acolhidas”, diz. Para Cida, é uma forma de responder a um cotidiano que ela considera cada vez mais individualista: “O que eu puder acolher, fazer carinho, eu ajudo as pessoas”.
A caridade destacada pelas integrantes da Tenda também aparece em uma nova atividade preparada pela casa. Na manhã de 16 de agosto, acontecerá a limpeza de Omolu. O ritual de purificação ligado ao orixá, segundo Cida, é realizado todos os anos. Ao meio-dia, 100 quentinhas serão entregues ao público que comparecer à Tenda, com arroz, feijão, frango, batata e farofa. Esta será a primeira edição da distribuição, e a intenção é ampliar a quantidade nas próximas ações conforme a procura.
Próximas atividades e como chegar
No dia 16 de agosto , a Tenda realizará a distribuição de 100 quentinhas à comunidade, a partir de 12h . As refeições serão entregues no próprio espaço.
A próxima gira da Tenda será dedicada a Omolu e está marcada para o dia 22 de agosto às 16h.
A Tenda fica na Rua da Proclamação, nº 27, em frente ao Bar do Manel, na Baixa do Sapateiro. Para quem for de carro por aplicativo, a orientação é utilizar como referência o endereço Orquestra Maré do Amanhã, 140 – Maré.
Para mais informações sobre as giras e demais atividades, acompanhe a Tenda no Instagram: @tenda.caboclajurema_.







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