Foto de capa: Ana Cristina da Silva
Texto por Carolina Vaz
Já se passaram 10 anos, mas ninguém esqueceu: a Maré foi ocupada pelo Exército brasileiro durante 15 meses, de abril de 2014 a junho de 2015. Um período de muitas violações de direitos, desde a revista de qualquer morador, a qualquer momento, até invasão de casas, agressão e assassinato. Esta é uma das histórias contadas no documentário Cheiro de Diesel, dirigido por Natasha Neri e Gizele Martins, e lançado esta semana no Festival do Rio. A mareense Gizele Martins é comunicadora popular, tendo atuado no Jornal O Cidadão por cerca de 10 anos.
O filme foi apresentado no Festival do Rio, um dos principais festivais de cinema do país, em três datas: dias 05, 06 e 07 de outubro. No dia 06, foi exibido no Cine Odeon e seguido por debate mediado pela jornalista Cecília Oliveira, fundadora do Instituto Fogo Cruzado. O documentário mostra imagens e depoimentos referentes a ações do exército em favelas nos últimos 11 anos. Além da ocupação da Maré, aborda a Chacina do Salgueiro, em São Gonçalo, em 2017; e uma ação na Penha, em 2018, que levou à prisão e tortura de 10 homens. Grande parte das ações relatadas no filme aconteceram durante a vigência da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) no Rio de Janeiro, decreto que autorizou a atuação das Forças Armadas no estado do Rio.

“Um cheiro forte de diesel”
O início do filme pode parecer “surreal” para quem não viveu a ocupação militar na Maré, e pode até causar arrepios em quem viveu, pois não parece normal ver tanques de guerra numa favela enquanto a “vida normal” acontece. Mas é isso que o filme mostra: os tanques de guerra, soldados armados circulando na favela ou posicionados em becos, sem qualquer ameaça aparente. Neste ponto do filme, pode-se destacar o papel da comunicação comunitária para a manutenção desse registro, tanto pelos comunicadores quanto por demais moradores. Gizele Martins menciona a criação do perfil no Facebook Maré Vive, que denunciava as violações de direitos e também alertava sobre confrontos em curso; com o tempo, os próprios moradores começaram a contribuir também, e somente isso tornou possível haver os registros desta época.

Outro destaque é o caso do músico Vitor Santiago, atingido por tiros do Exército em fevereiro de 2015. Ele e os amigos estavam voltando de um bar para a Vila do Pinheiro quando uma patrulha do Exército atirou no carro. Vitor, atingido por dois tiros de fuzil, ficou desacordado, e no documentário conta ter sentido um “cheiro forte de diesel” quando acordou, lembrando do veículo do Exército. Ele passou 98 dias internado, incluindo períodos de coma, e acabou paraplégico e amputado de uma perna. Sua mãe, Irone Santiago, lutou por justiça para o filho sozinha, enquanto ele estava acamado, mas desta vez ele pôde comparecer ao lançamento do filme.
Outro caso chocante no documentário é o de Jefferson Luiz Marconi, que em agosto de 2018 estava num baile na Penha e foi surpreendido por uma incursão policial. Ele foi um dos 10 homens presos, e foi levado à Vila Militar, em Deodoro, onde foi torturado na chamada Sala Vermelha. Ele descreve tudo que aconteceu lá e, também, o julgamento do caso após a liberação.
Uma vez que denúncias contra militares só podem ser julgadas pela Justiça Militar, os oficiais envolvidos no caso foram absolvidos. Outro entrevistado do filme passou pela mesma situação, mas não se identifica.

Por fim, um caso fatal: o de Lorran Neves, morto aos 18 anos de idade na Chacina do Salgueiro, em São Gonçalo, em 2017. Numa única noite, policiais militares escondidos na mata assassinaram 8 pessoas, entre elas Lorran, e juntaram os corpos num lugar só.
Ainda na presença dos policiais a mãe, Edrilene Neves, que dá seu depoimento no filme, tentou buscar pelo filho no campo onde empilharam os corpos, mas foi ameaçada pelos policiais. Só pôde reconhecer o filho depois, numa foto que circulou na internet. A investigação foi arquivada por “falta de provas”.
O documentário ainda demonstra que, após o período da GLO, continuaram a ser frequentes as operações policiais nas favelas, como são até hoje. Embora sempre haja uma motivação “oficial” para a entrada de polícia na favela, o modus operandi ainda é o mesmo.
No debate após a exibição do filme, as diretoras e personagens do documentário tiveram a oportunidade de falar, respondendo a perguntas da mediadora Cecília Oliveira. Quando questionada sobre como se pode mudar a visão da sociedade sobre a favela, Gizele Martins reforçou que as ações e omissões do Estado são o que leva à criminalização da favela; e o próprio Estado, representado pela polícia, apresenta-se coloca como solução.

“Historicamente colocam a gente como criminoso, violento, marginal. Só que é o contrário. A favela é criminalizada, marginalizada, violentada porque a gente tem um Estado brasileiro que olha as favelas como um problema social. E aí a gente tem uma mídia comercial que coloca a imagem da favela também como um problema. E querem resolver esse problema com polícia. (…) E como mudar essa perspectiva? Educação popular, comunicação comunitária, agora ocupando o cinema! Primeira vez que eu estou como diretora de um filme, num festival tão importante como esse. Trazendo outras narrativas, outras ferramentas de memória, mas também de denúncia. E acredito que a gente precisa mudar o imaginário da sociedade sobre a favela”.
Gizele Martins, diretora do filme Cheiro de Diesel
Vitor Santiago, do mesmo modo, demonstrou seu compromisso em reverter esse movimento em que os favelados se tornam vítimas, como ele foi. “Eu sempre fui da cultura, fiz parte do Corpo de Dança da Maré (…) e aos 29 anos minha vida mudou por conta desse Estado, por conta dessa injustiça que quem mora na favela sabe como é”, ele contou. Mesmo com tantos obstáculos, impostos pela mobilidade por cadeira de rodas, ele acredita que pode colaborar para denunciar as ações violentas do Estado.

“A minha vida mudou, mas essa minha garra continua. De poder falar, de poder ajudar. Agradeço muito por estar no filme, ter minha história contada, e o que vier para a frente aí, puder falar, puder ajudar, é o que tem mais peso. Eu entendo que a gente não pode ser criminalizado assim. Tem muita gente de bem, tem gente que torce pelo outro, que faz por onde”.
Vitor Santiago, sobrevivente de ataque do Exército
Edrilene Neves, também presente no debate, comentou sobre o fato de os executores de seu filho não terem sido punidos, e o caso ter sido arquivado. Ela destacou o desgaste em se dedicar ao processo e ver esse resultado: “A gente chega com provas. Eles mesmos, na própria sentença, eles mesmos mostram as provas e ignoram as provas que eles mostram, que são produzidas, eles mesmos ignoram. E assim o nosso caso vai continuando sem justiça”.
Memória para o futuro
A jornalista Natasha Neri, também diretora do filme, comentou sobre o papel da documentação de violações na reparação às vítimas e na “reescrita da história”, nas palavras da mediadora. Segundo Natasha, documentar as violências ao longo do tempo colabora para mostrar que há um plano do Estado em curso: “Não foi por acaso que em 2005 teve exército na Providência, em 2010 teve exército no Alemão, em 2014 uma invasão que durou 14 meses. Isso culminou na intervenção federal. O decreto de Garantia da Lei e da Ordem foi decretado em julho de 2017 e a gente teve um decreto com vigência de um ano e meio. Então, documentar no cinema essas violências é mostrar que elas são oficiais. É um plano de Estado. Existe um arcabouço jurídico que permite que isso aconteça“.

Ela destacou o caso do Jefferson, no qual as imagens que comprovavam a tortura e os laudos de psicólogos e psiquiatras foram fundamentais para que ele não continuasse preso. Nesse sentido, o documentário é uma tentativa de produzir memórias.
O papel do filme para as mareenses
Em entrevista, Irone Santiago comentou sobre o filme e destacou a força e a coragem das diretoras, uma vez que carregam uma história de denúncia das violações de direitos humanos anterior ao lançamento do filme. Para ela, a importância de Cheiro de Diesel é o reconhecimento das violações: “A importância pra mim é ser reconhecido, não só o caso dele, mas como também de outras pessoas que não tiveram voz, que hoje lá na Maré, nós sabemos que existem muitas mães que sofreram essas violações do Estado, mas que não têm força”.

A comunicadora popular Simone Lauar, de 47 anos, que viveu 30 anos no Salsa e Merengue, também comentou a experiência de assistir o filme. Para ela, ver as cenas do Exército na Maré foi “reviver o inferno”, mas ao mesmo tempo documentar esse fato tem sua importância. “Eu espero que esse documentário rode, eu acho que ele é muito necessário, deveria ir pras escolas, pras faculdades, pra ver como é que a polícia militar, o exército ‘cuidam’ da gente, né? Porque não cuidam, né? Eles dizem que cuidam, servir e proteger é o lema deles, mas isso não cabe pra gente”.

O documentário Cheiro de Diesel é uma produção de Baracoa Filmes e Amana Cine, com coprodução da Rio Filme e Canal Brasil, e distribuição por Descoloniza Filmes. Durante o Festival do Rio, é um dos seis documentários concorrentes à premiação do festival, chamada de Première Brasil Documentário. A produção do filme não divulgou informações sobre novas exibições e como assistir, mas é possível acompanhar pelo Instagram.





