Foto de capa: Carolina Vaz
Entrevistas: Ana Cristina da Silva, Carolina Vaz e Christóvão Carvalho
No térreo ou em viadutos, a Maré é passagem para muita gente. A Linha Amarela passa por cima do Pontilhão, separando a Vila do João da do Pinheiro, enquanto a Vermelha fica às margens da favela, estabelecendo o limite entre moradores e transeuntes. Nem por isso os mareenses permitem que essas estruturas se mantenham cinzas e estritamente funcionais, e o mesmo acontece com muros diversos na favela. Por trás das pinturas e graffiti que vemos nos muros estão artistas que entregam essa arte à população por motivos diversos. Pode ser para homenagear moradores e personalidades, para “colocar para fora” algo que sente ou até como um tipo de retorno à comunidade. Conheça aqui alguns dos grafiteiros da Maré.

“A missão do graffiti na favela é poder trazer um pouco mais de alívio para a visão das pessoas. Todo mundo aqui sabe que a favela é um improviso. As construções são extremamente irregulares, é tudo muito próximo, tudo muito caótico. E o graffiti vem com a missão de quebrar um pouco dessa coisa sombria. (…) O graffiti traz um certo alívio. Você revitaliza espaços”.
— Tiago Mala, grafiteiro e morador da Vila do Pinheiro
O artista Tiago Mala, de 32 anos, encontrou no graffiti um modo de se expressar sobre tudo que o revoltava na infância e transformar isso em arte para a favela. Ele tinha cerca de 12 anos quando participou do Programa Criança Petrobrás na Escola Bahia e conheceu o graffiti e o hip-hop. Aquela criança de humor ácido, que fazia muita sátira com tudo, ali começou a enxergar um modo de se expressar e se comprometer. Também foi lá que ele ganhou o apelido com o qual hoje assina sua arte, como conta: “Tinha uma senhora da limpeza, aquela pessoa batalhadora de favela que entende a linguagem das ruas, que toda vez que eu pisava na sala de aula ela falava ‘Chegou o mala, cuidado’”.
Participando das aulas de graffiti, ele aprendeu muito mais do que uma manifestação artística: aprendeu a se dedicar a algo e ter disciplina para aprender, a se relacionar melhor com as pessoas e entender que existe todo um processo, de estudo inclusive, até uma arte surgir na parede. Ele explica: “Eu fui vendo que para eu evoluir no graffiti, eu primeiro tenho que evoluir pessoalmente. Se eu não tenho uma dedicação com nada que eu me proponho a fazer, eu não vou evoluir. Então o hip hop foi batendo nisso em mim. Por isso eu acho que é tão importante ações como essa continuarem funcionando pela Maré. Porque às vezes alcança um que mais tarde pode multiplicar isso, sabe?”
Foi o que aconteceu. Já no final da adolescência, Tiago se tornou monitor no projeto, desenvolvendo seu lado pedagógico, e depois secretário. Quanto ao graffiti, o primeiro foi na rua Capitão Carlos, no Morro do Timbau, em 2005. Mas, segundo ele, “ficou muito ruim”, porque ele ainda não tinha estudado o suficiente as bases do graffiti. “Existe um estudo. Graffiti não é só você pegar um spray, pintar e falar que é graffiti. Existe toda uma base que a gente respeita até hoje”, afirma.

Com o estudo, Tiago começou a se identificar com estilos dos anos 90, como Wild Style e Piece, além de reproduzir o estilo do Realismo. Suas obras podem ser vistas em lugares como o Pontilhão, onde ele participou da pintura do Skate Park Maré e fez o registro do evento Festival das Resistências; também num muro próximo dali, na entrada da Linha Amarela; na escola EDI Pescador Isidoro Duarte; na Avenida Guilherme Maxwell, entre outros lugares. Nesses dois últimos, ele pintou personalidades negras do Brasil e da Maré, como parte do projeto Pretos no Branco. O projeto surgiu em 2022, com a representação de personalidades como Luis Gama e Carolina Maria de Jesus no muro da escola. Já em 2024, ele fez uma versão apenas de mulheres, na Guilherme Maxwell, retratando também marenses como Marilene Nunes e Rafaela Lima.

Do adolescente grafiteiro que muita gente achava que pintava só por hobby, hoje o Tiago já tem uma identidade artística definida e é convidado a pintar muros, paredes de estabelecimentos, entre outros trabalhos comerciais, além de atuar como professor de desenho e graffiti em escolas, eventos e oficinas pontuais.
Herança artística expressa nas ruas
Em mais de 15 anos pintando pela Maré, Tiago ganhou alguns admiradores do seu trabalho. Um deles é o Lucas Bento, de 28 anos. Eles se conheciam do Pontilhão, onde o Lucas fazia aula de skate e também se encontravam em alguns eventos. Trabalhando como tatuador há cerca de três anos, Lucas sentiu vontade de se desenvolver no desenho e começou a ter aulas com o Tiago. Logo, os dois começaram a pintar juntos. Aos poucos, ele está conhecendo as técnicas, mas já tem sua assinatura com um estilo próprio, registrada no mesmo muro da Linha Amarela que o Tiago, e agora no muro da Divisa. “Por enquanto, eu estou arriscando algumas coisas que eu vejo que no papel funciona, só que olhando muito na rua também”, ele conta.

No seu caso, a veia artística vem de casa. Os pais sempre foram artistas e a mãe, especificamente, sempre trabalhou com miçanga, madeira, gesso e outros materiais para fazer artesanato. Grafitando há cerca de oito meses, Bento diz que ainda está pegando a manualidade com o spray, mas também já tem suas preferências estéticas. Até agora, o que mais gostou de fazer foi a pintura do “Coragem, o Cão Covarde”, que vem de um desenho dos anos 2000. Não só pelo gosto pessoal, mas pelo efeito na paisagem.

“Eu tento sempre fazer algo bem grande, bem colorido. Tento fazer um personagem porque eu acredito que dá essa memória afetiva, sabe? Tanto para as pessoas mais velhas como para crianças também”.
— Lucas Bento, tatuador e grafiteiro
Empolgado com a nova expressão, Lucas já planeja investir em outras formas de artesanato, como em roupas e tapetes, de modo a colocar sua identidade e comercializar também. Criado no meio da arte, ele se sente contribuindo positivamente para a paisagem da favela: “É mais do acolhimento mesmo. A pessoa se sente bem, se sente feliz, traz uma memória. (…) Ao invés de não ter nada [no muro], fica mais bonito. A pessoa sente algo ali e valoriza muito mais a rua em si”.
Rostos conhecidos nos muros
Foi justamente com essa intenção, de trazer acolhimento na paisagem, que no último dia 1º de fevereiro um grupo de cerca de 30 grafiteiros realizou um mutirão para colorir um muro preto e mal iluminado na favela. Especificamente, o Muro da Divisa, na rua Evanildo Alves, em frente a um valão e à Areninha Cultural. A iniciativa foi do coletivo Maré Crew, grupo de artes visuais atuante há oito anos no território. “A gente quer transformar muito num lugar que as pessoas se sintam confortáveis de passar e olhar os desenhos. Não um lugar que as pessoas passam correndo porque ‘vai dar tiro, é perigoso’… Fica num lugar de ressignificar a Divisa”, conta Larissa Fernandes, membro do coletivo, de 26 anos. Ela conta ainda que eram cerca de oito grafiteiros da Maré.

O Maré Crew já surgiu de uma forma mais parecida com outros grupos de arte urbana: eram mais de 10 adolescentes, moradores das Casinhas, que saíam para pichar. Com o tempo, vários saíram do coletivo e só restaram três: João Pedro Alves, seu irmão, conhecido como Zezo, e a prima deles, Larissa Fernandes. Eles mudaram a direção do coletivo e começaram a fazer pinturas com stêncil, tipo de pintura na qual se usa um molde por onde passa a tinta. Suas artes tornaram-se obras mais coloridas e temáticas. Aos poucos, cada um dos três foi encontrando seu estilo, seja fazer letras, frases, desenho livre ou outras formas mas eles convergem no tema: família e crianças do território.

“A gente gosta de trazer coisas do nosso dia a dia, coisas próximas da gente. Não é à toa que nossa primeira exposição teve o nome Vivências Cotidianas. Então, nós trazemos a vivência da comunidade para a arte. Seja através das pessoas mais velhas, que a gente tem como referência, através das crianças, soltando pipa, jogando bola… Coisas bem de criança e de comunidade mesmo”.
— João Pedro Alves, artista e morador da Nova Maré
Com o tempo, eles foram ganhando o respeito da comunidade e também a experiência de se inscreverem em editais, chegando em mais lugares dentro e fora da comunidade. A primeira exposição exclusiva do grupo foi no Museu da Maré, em 2023, mas no mesmo ano eles também já participaram da Semana de Arte Favelada, no Caju, e do ArtRio, no aeroporto Galeão.

Para eles, são experiências diferentes. Apesar de gostarem de expor dentro da favela, onde as pessoas retratadas vão se ver ou serem reconhecidas pelos amigos, e contam com a presença da família, também enxergam a importância de levar a arte marense para fora. Como expressa João: “Se a gente vai expor uma arte lá no Galeão, pode ter um marense passando por ali e reconhecer alguém [na obra]. Mas também tem o intuito do pessoal que está chegando, ou está indo para outro lugar, ter contato com a nossa arte”. E Larissa complementa: “É muito importante essa ação de evidenciar a Maré nesse lugar, justamente pelo Galeão ser nosso vizinho, ter esse reconhecimento de que ‘olha, na Maré tem uma galera fazendo uma arte muito maneira’ e não só estar passando pela Maré”.
Arte que vem, arte que vai
Utilizando o máximo de sua criatividade, muitas vezes com recursos próprios para comprar a tinta, os bicos de spray e outros materiais, grafiteiras e grafiteiros inserem cores nos muros da Maré. Não só cores, mas frases e desenhos que geram sensações positivas em quem passa, e tudo isso com a consciência de que a arte no muro é transitória e a qualquer momento pode ser apagada e substituída, mas alguém que passou por ali sempre vai lembrar daquela expressão.






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