Foto da capa: Christóvão Carvalho

Nas últimas décadas, a Maré perdeu campos, quadras e praças para clínicas, escolas e outras ocupações públicas. O que restou enfrenta a falta de manutenção e o abandono. O resultado é uma disputa silenciosa por espaços de lazer, onde famílias precisam improvisar e projetos sociais tentam ocupar o que o poder público não alcança.

Brinquedos quebrados, campos abandonados e praças deterioradas transformaram áreas que deveriam garantir momentos felizes em lugares vazios. Enquanto alguns equipamentos se deterioram, outros desaparecem para dar lugar a obras e serviços públicos.

Brinquedos que chegam, brinquedos que caem

Num primeiro momento, a equipe do jornal esteve na Vila do Pinheiro para conhecer o enorme espaço da Ciclovia do Pinheiro, localizado ao lado da Clínica da Família Adib Jatene, entre a Avenida Bento Ribeiro Dantas e a Avenida Canal. 

No cenário, um caminho de asfalto é utilizado para caminhada e passeios de bicicleta. Em outra parte, um campo de futebol está em estado crítico de conservação. Mais adiante é possível notar o abandono físico, com balanços arrebentados, escorregos com buracos e outros pedaços de ferro que um dia foram algum tipo de brinquedo. Além disso, mesas e bancos de concreto podem ser vistos tombados, desencaixados e quebrados.  Há também porcos e cavalos circulando, além de carros estacionados – ou abandonados.

Na Maré, brinquedos infláveis se tornam a única via em meio à falta de opções gratuitas. Foto: Ana Cristina da Silva.

Luiz Lourenço é mareense, mestre em Geografia e educador. Ele comenta mudanças que aconteceram no local. “A quadra de vôlei virou a clínica da família que tem ali no Pinheiro. Os dois campos do início da ciclovia viraram oficinas. Então, a gente foi perdendo uma série de equipamentos públicos, de espaços públicos de lazer, sobretudo futebol, e esses espaços foram transformados em unidades de saúde ou escolares”.

Há 15 anos morando na vizinhança, Marcelo Lopes (50) costuma levar seus filhos Paolo, Pedro e Claudia para brincarem no local. Ele relata não notar manutenções significativas na ciclovia. “Não sei se é a noite… porque eu não vejo! Aí com o tempo o desgaste vai quebrando, né? A última reforma aqui… bota tempo nisso aí! Nem lembro! Botaram foi refletor no campo aí.”

O pai lamenta a falta de brinquedos e observa a preferência das famílias por outros espaços. “O pessoal vai muito no Pontilhão… final de semana que botam um negócio inflável aí. Assim é difícil trazer, tem pouco brinquedo. O escorrega não dá porque tá quebrado ali. Tinha mais outros brinquedos, quebrou e não colocaram mais”.

Claudia, Paolo e Pedro. Tentam se divertir em meio a falta de opções na Ciclovia do Pinheiro. Foto: Christóvão Carvalho.

O abandono público não é novidade – e evitando esperar uma reforma que não chega, alguns moradores buscam alternativas próprias, como os brinquedos infláveis, que podem ser encontrados principalmente em praças, oferecidos para que crianças brinquem por alguns minutos em troca de um valor de entrada.

 

No Pinheiro, jovens encontram meios de se divertir no espaço reduzido que ainda resiste à deterioração. Foto: Christóvão Carvalho.

Soluções com projetos sociais

Daniel Ribeiro Moraes (43), fundador do coletivo Skate Maré e dono da Maré Skate Shop, é morador do Pinheiro e há quase 30 anos desenvolve iniciativas voltadas ao esporte no território. Conta com a parceria da esposa, Cristina Maria. 

Tanto a loja quanto o projeto do Skate Maré que promove aulas de skate para crianças ficam no Pontilhão Cultural, localizado na rua Praia de Inhaúma, abaixo da Linha Amarela. Hoje, a região conta com comércios, brinquedos, bancos para sentar e opções esportivas.

Daniel Ribeiro realiza trabalhos sociais voltados ao skate desde os anos 90, na Maré. Foto: Ana Cristina da Silva.

Mas nem sempre foi assim. Daniel relembra como era antes do projeto. “Eu lembro da época que o Pontilhão no início, antes de tudo… isso daqui era tudo largado, era lixo, carro velho largado, muita coisa ruim aconteceu”.

Desde 1998, ele busca parceria política e recursos públicos para promover o skate na comunidade. Começou em 2009 com uma mini ramp para os skatistas locais, ali no Pontilhão. O coletivo foi fundado em 2015,  e em 2019 eles buscaram órgãos responsáveis como a Prefeitura do Rio e a LAMSA, empresa da Linha Amarela, para realizar uma obra maior, um skate park, com muito mais espaço. 

A busca não deu resultado, mas a intenção de fazer a obra chegou ao conhecimento de uma ONG dinamarquesa, que por sua vez buscava apoiar iniciativas voltadas ao skate em lugares de vulnerabilidade social. A partir daí, a parceria resultou em apoios financeiros e artísticos, gerando a construção de uma nova estrutura, um skate park, que pode ser considerado um dos primeiros numa favela carioca. Foi atraídos apoiadores de diversos países, e após a conclusão da obra e crescimento do público local, o comércio ao redor também se desenvolveu. Ainda hoje, o Skate Maré promove aulas para crianças e adolescentes entre 08 e 17 anos, sempre aos sábados pela manhã. 

Esta foi uma conquista não só para o coletivo, mas para a cultura do skate na Maré. Para Daniel, em sua juventude, a comunidade do skate na favela nunca teve espaço próprio. “Você começava a andar de skate e alguém chegava, aí você saía. Uma pessoa não gostava e você tinha que sair (…) então a gente ficava migrando. Então assim, a cultura sempre teve, só que não tinha essa oportunidade que a gente teve em 2019”.

Daniel Ribeiro Moraes dá voltas de skate na pista conquistada pelo projeto em 2019. Foto: Ana Cristina da Silva.

Na época, a equipe do Jornal O Cidadão noticiou a inauguração da nova pista. Conheça em detalhe como tudo aconteceu e o trabalho realizado pelo coletivo, acessando a matéria aqui.

Preservar, proteger e progredir

Em outra parte, na Nova Holanda, o Instituto de Arte Joias do Futuro está há 2 anos na Maré através do mareense Elon Souza (50) e sua esposa, Débora Joia, para desenvolver habilidades físicas e cognitivas de crianças e adolescentes no período fora da escola, através do circo.

Elon Souza, Débora Joia e a filha caçula. O casal toca o projeto na Praça da Nova Holanda, enquanto a jovem participa das aulas com o restante dos alunos. Foto: Christóvão Carvalho.

Elon comenta que quando chegou na Maré, ainda nos anos 1980, não existiam projetos sociais nesse sentido. Na época, mesmo sem espaços próprios de lazer, as crianças brincavam pelas ruas, sem muita preocupação. “A gente não tinha muitas praças, não tinha muito isso, mas tinha areias, né? (…) Não tinha conflito de ficar na rua. A gente ficava na rua até tarde brincando, fazia fogueira, comia batata no quentão, na época de festa junina…”

Luiz Lourenço entende que, com o passar do tempo, o aumento da insegurança na favela causou uma mudança geracional no modo em que os jovens se divertem e na abordagem dos pais em relação a isso. Para ele, a insegurança alterou profundamente o modo como crianças e jovens se relacionam com as ruas. “Meus amigos falam assim: eu compro um videogame pro meu filho. Eu pago pra ele jogar online, mas ele não vai ficar circulando pela rua, porque tem tiro, tem carro voado, tem moto voado, não tem espaço. As calçadas estão ocupadas. Você não consegue correr, não consegue brincar… então, pra segurança do meu filho, eu prefiro que ele fique em casa jogando videogame online”.

Como exemplo, a Praça da Nova Holanda, local onde as atividades do Instituto acontecem, antes era pouco movimentada e não atraía muitos moradores. E acabou sendo ocupada por pessoas em situação de uso abusivo de drogas.

O cenário mudou quando Elon procurou o presidente da Associação de Moradores da Nova Holanda, Juninho, para apresentar sua ideia. “Quando nós conversamos, aí eu trouxe a possibilidade de trazer um evento dessa natureza pra cá, cultura pra cá, né? No caso, a arte do circo, que é o carro-chefe. E aí ele se encantou com a oportunidade de receber um novo projeto aqui”.

Esse movimento culminou com a dispersão dos antigos ocupantes e o processo de renovação do local. Atualmente o projeto social conta com cerca de 30 crianças ativas, entre 8 e 15 anos.

Crianças do Instituto de Arte Joias do Futuro praticam atividades como andar de monociclo, fazer malabarismos e outras práticas circenses. Foto: Christóvão Carvalho.

Nossa equipe também já produziu uma matéria dedicada ao Instituto de Arte Joias do Futuro. Conheça mais esse trabalho acessando a matéria aqui. 

Projeto de melhorias para a Maré

No momento desta matéria, a Secretaria Municipal de Habitação (SMH) está à frente das obras de revitalização de duas áreas de lazer e prática de esportes na Maré: a Praça do Parque Rubens Vaz e a Praça da Nova Holanda, onde está o projeto do Elon e da Débora.

Na Praça da Nova Holanda, as obras de revitalização começaram em outubro. Foto: Ana Cristina da Silva.

Em resposta ao nosso contato, a Coordenadoria de Comunicação da SMH informou que as obras começaram em outubro deste ano e que visa melhorar a qualidade de vida dos moradores. Ao todo, estão sendo investidos cerca de R$1,2 milhão para revitalizar os locais.

A Praça da Nova Holanda terá a quadra e o alambrado reformados e pintados, além de novos banheiros e vestiários. Como novidade, haverá a implementação de academia para a terceira idade, área infantil e melhorias no entorno.

No Parque Rubens Vaz, haverá a reforma da arquibancada e uma nova arquibancada. Também contará com espaço infantil, área de ginástica, academia para a terceira idade, pavimentação e a implementação de paisagismo.

A previsão de entrega é para o primeiro semestre de 2026. Essas obras prometem devolver parte do que se perdeu ao longo dos anos. Enquanto isso, projetos sociais seguem ocupando o território para garantir que o lazer continue existindo, apesar do abandono.

 

Foto: Ana Cristina da Silva.

“Quando a gente não perdeu para o Estado e transformou o lazer em espaços de saúde ou de educação, o que é um problema, porque a gente não está fazendo escolha se quer saúde, quer lazer ou educação, a gente quer todos (…) a gente perdeu para o setor imobiliário da favela”


– Luiz Lourenço, mareense e mestre em Geografia

 

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