Foto da capa: Ana Cristina da Silva.
Era véspera de Natal, a temperatura registrava 35 graus. Na Nova Holanda e entorno, mercados estavam com filas longas e a movimentação entre as principais vias era mais intensa que o comum. Com os preparativos para a ceia de Natal, muitos já estavam em clima de festa. Porém, por volta de 12h o som que normalmente anuncia celebrações chegou trazendo medo e desespero. Quando fogos de artifício foram acionados acidentalmente dentro da quadra do G.R.E.S. Gato de Bonsucesso, pôde-se ouvir ao longe o som dos gritos e das explosões. O acidente causou uma morte, danos a uma casa próxima e a destruição de 70% das alegorias de carnaval da escola de samba.
O ACIDENTE
Sediada na quadra da rua São Jorge, s/n, a Escola de Samba Gato de Bonsucesso estava fechada para recesso. No entanto, sem o conhecimento da agremiação do Gato, a quadra estava armazenando centenas de fogos de artifício quando uma ferramenta caiu, gerando o acionamento dos dispositivos pirotécnicos. Estourando simultaneamente, os fogos começaram a explodir contra o telhado de alumínio causando uma fumaça densa e escura que podia ser vista à distância. Pelas brechas entre o muro e o telhado, alguns fogos escaparam, fazendo com que uma casa de esquina fosse atingida na varanda do segundo andar.

Na hora do acidente apenas uma pessoa estava dentro da quadra, sem relação com a escola de samba, ele era conhecido na comunidade como Senhor Pisca. Quando os fogos foram acionados ele se encontrava no segundo andar. Atingido por uma lona em chamas que estava pendurada no teto, ele não sobreviveu. Os bombeiros foram acionados e tiveram que aguardar o término das explosões — que duraram longos minutos — para que pudessem conter o incêndio. Com a repercussão do acidente por toda a comunidade e até mesmo nos telejornais, muitos dos integrantes da escola de samba — que moram fora da comunidade — só ficaram sabendo do acidente quando o fogo já havia se espalhado, como foi com Bruno Soares, presidente da Escola.
DANOS À ESCOLA

“Eu estava no meu comércio, na minha loja, trabalhando. De repente, eu vi meu celular apitando muito (…) Quando eu fui olhar, já era quase 12h45. Vi o grupo do Gato de Bonsucesso sendo muito movimentado. Quando abri e vi as imagens minhas pernas começaram a tremer e eu não tive nem condição de sair da loja que estava para poder vir (para a quadra)”.
— Bruno Soares, presidente da escola.
Quando chegou até a quadra naquele mesmo dia, Bruno encontrou o presidente interino e o diretor de patrimônio do Gato dando suporte para os bombeiros, mas o dano já havia sido causado e uma vida já havia sido perdida. Nos cômodos internos da quadra se encontravam 70% dos materiais para o desfile de Carnaval de 2026 já prontos, infelizmente foram todos destruídos ou danificados no incêndio. Com o desfile da Intendente Magalhães marcado para acontecer no dia 17 de fevereiro, a escola agora só possui pronto 10% do material necessário, já que esta parte não pôde ser entregue com as demais devido a falta de espaço no transporte.
Fundada em 1999, a Escola de Samba Gato de Bonsucesso resiste até os dias de hoje, correndo atrás de recursos e dependendo do trabalho colaborativo dentro da agremiação para manter viva a tradição e a paixão carnavalesca na Maré. Com essa tragédia tão próxima do Carnaval, além de correr atrás dos preparativos para o desfile, agora a agremiação tem que lidar com os materiais perdidos e os danos causados à sua sede.

Segundo o presidente interino, Mauro Camilo, o maior dano foi no segundo andar, onde eram guardados os materiais de carnaval: “Eu perdi 30 Baianas ali. Eu perdi uma parte da minha roupa, da minha bateria. Calça, camisa, tudo eu perdi ali em cima. Perdi a minha comissão de frente ali em cima. Tinha 60 chapéus prontos do carnaval, era de duas alas, só não perdemos mais porque o restante está lá no ateliê e tem que trazer para cá. Como que eu vou trazer? Esse é o problema”.
Por conta das explosões e do calor causado pelas chamas, além dos materiais guardados no local, houveram outros danos: a telha de alumínio sofreu várias perfurações e foi deformada em sua extremidade, que cedeu e se curvou para o interior da quadra. Pintadas nas cores branco e azul na metade do ano passado, as paredes internas da quadra também precisarão de manutenção e toda a estrutura interna, onde ficavam os freezers e o depósito de materiais de carnaval foram extremamente abalados e dependem da avaliação da Defesa Civil para saber se estão estáveis. Expostos nas paredes, os banners dos enredos da escola também foram danificados. Com tudo isso, a quadra também se encontra sem água e sem luz.
PRÓXIMOS PASSOS
“Fazia tempo que eu não me emocionava tão fortemente, porque é uma vida, sabe? É muito tempo que a gente dedica a essa agremiação, muitos afazeres que poderíamos fazer e não fazemos para poder estar aqui. Meus filhos me cobram: ‘pai, o senhor fica mais tempo lá no Gato, quando chega no Carnaval esquece da família’. Então assim, são coisas que a gente escuta, mas existe um amor incondicional. (…) Não tenho vergonha de falar que aqui a gente faz de tudo. Todo mundo aqui, cada um tem seu cargo, mas ninguém tem vergonha de falar que a gente varre a quadra, lava banheiro, faz o que tem que fazer, mete a mão. A escola não consegue ter recursos para ser autossustentável. Esse grupo que está hoje aqui na escola é um grupo de resistência, é um grupo que se limita, larga os seus afazeres como falei anteriormente, para se dedicar ao máximo e a gente fica na expectativa que com essa dedicação nossa, a comunidade veja esse esforço de poucas pessoas e entrem também nesse barco. Tem cinco ajudando? Vamos entrar com mais cinco, porque as portas estão abertas”.
— Bruno Soares, presidente da escola.
Antes de todo o incidente, a escola de samba iria se manter em recesso até o dia 2 de janeiro, no entanto, desde o dia 24 de dezembro os membros da agremiação vêm avaliando os danos e discutindo meios de lidar com todas as questões necessárias para a reforma da quadra e os preparativos para o desfile de carnaval. Uma das tantas questões é o ensaio geral que estava marcado para acontecer no dia 9 de janeiro na quadra e agora precisará ser realocado para outro espaço ou até mesmo para a rua por questões de segurança. “A gente não sabe como é que está a situação da estrutura. Então a gente precisa aguardar também o laudo da Defesa Civil para poder ter esse entendimento e restabelecer a quadra”, informa Bruno.

Em setembro deste ano, por meio do Projeto de Lei nº 2394/2023, de autoria da Deputada Estadual Renata Souza, a Escola de Samba Gato de Bonsucesso foi declarada Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado do Rio de Janeiro. Segundo Mauro Camilo, além de buscar outras alternativas, a escola irá recorrer à Assembleia Legislativa. “O Gato agora é Patrimônio Cultural do Estado. Nós vamos pedir aos deputados para ver o que pode ser feito para a gente reerguer a estrutura da quadra de novo. Estava todo mundo em recesso, toda a diretoria. Isso aqui é uma comunidade, a gente não pode fazer nada. É lamentável a gente chegar e ver a nossa quadra toda pegando fogo, e quando o bombeiro chega, tem uma vítima ali em cima”, conta o Diretor de Carnaval.
O artigo 2º do Projeto de Lei nº 2394/2023 diz que: “O patrimônio estadual objeto desta lei será protegido e preservado em sua integridade, podendo o Estado contribuir para a manutenção de condições adequadas e voltadas à realização de atividades culturais no mesmo”.
A diretoria do Gato de Bonsucesso segue com reuniões pensadas para a restauração da quadra e a substituição dos materiais perdidos no incêndio. Por segurança, a quadra se mantém fechada por tempo indeterminado.






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