Hoje em dia, é comum estar em casa e ouvir alguém na rua gritar: “Olha a entrega!”. Com frequência, se vê entregadores com inúmeros pacotes em bicicletas, motos e até mesmo carros, cruzando sempre as mesmas ruas e nos mesmos horários. Por trás desse movimento, uma intensa rotina de trabalho acontece dentro da própria comunidade. Com o galpão localizado na Rua Praia de Inhaúma, a Bolt Transporte conta com cerca de 60 entregadores para realizar aproximadamente 5 mil entregas por dia, somando produtos da Shopee e do Mercado Livre.

Expandido para o Brasil entre 1999 e 2000, o Mercado Livre só iniciou sua operação de entregas em 2013. Apesar da possibilidade de moradores de favelas comprarem no site, nem todos os endereços eram atendidos e, muitas vezes, até mesmo moradores de endereços aceitos não recebiam o pacote em casa, tendo que ir até Bonsucesso retirar a encomenda na agência dos Correios. Atualmente, cada vez mais vem crescendo o número de entregas de e-commerces dentro da Maré. Em menos de dois anos de atuação, a Bolt Transporte já realizou mais de um milhão de entregas dentro do território e agora  busca atingir a meta de 1,5 milhão de entregas só neste ano de 2026.

Dentro do galpão, as encomendas são separadas por comunidade. Foto: Ana Cristina da Silva.

BOLT TRANSPORTE

Nascidos e criados na Baixa do Sapateiro, Rafael Machado e sua esposa, Ana Caroline, começaram a fazer entregas em 2021, atuando como MEI. Passaram por dois espaços na Baixa e, então, começaram a contratar outros funcionários. Foi somente em abril de 2024 que a Bolt Transporte nasceu oficialmente, com a criação de um CNPJ próprio. Localizada na Rua Praia de Inhaúma, entre comunidades como Baixa do Sapateiro, Morro do Timbau e Bento Ribeiro Dantas, a empresa aluga hoje dois galpões para conseguir estocar a grande quantidade de encomendas que recebe diariamente.

Em entrevista para o jornal O Cidadão, Rafael e os sócios Thiago Lucena e Ruan Machado contaram como funciona a empresa responsável por entregar todos os pacotes do Mercado Livre e da Shopee no Conjunto de Favelas da Maré.

Da esquerda para a direita: Ruan Machado, Rafael Machado e Thiago Lucena. Foto: Ana Cristina da Silva.

“Hoje, a gente tem por volta de 60 funcionários de forma direta e alguns de forma indireta também. Hoje, a maioria é homem, mas está entrando bastante mulher também, o que é algo bem positivo (…) Estamos contratando desde o financeiro até o pessoal da limpeza. E a relação de trabalho que eles têm com a gente aqui é bem amigável, bem tranquila. Eles trabalham como MEI, então fazem o próprio horário, com autonomia.”

— Thiago Lucena


Rafael Machado explica que a maioria dos entregadores possui veículos próprios, como bicicletas, motos ou carros. No entanto, a Bolt disponibiliza duas motos para novos entregadores que não possuam veículo. As pessoas que buscam trabalhar como entregadores passam por uma entrevista com ele, Thiago ou Ruan. Preenchendo os requisitos, o candidato passa por um período de teste com duração de três dias, no qual realiza entregas sob supervisão. “A gente dá uma ajuda de custo nesses três dias e, após esse período, se a pessoa for aprovada e também gostar, dá continuidade. É assim que funciona.”

É importante ressaltar que, embora aceitem entregadores com bicicleta, se entende que o percurso para entregar os pacotes se torna mais demorado. Por isso, esses entregadores tendem a ficar com menos pacotes e atuar em regiões próximas ao galpão. “O pessoal de bicicleta fica um pouco mais lento em comparação à moto. Porém, eles podem entrar na parte de apoio. Então fazem menos entregas, mas conseguem solucionar o nosso problema e fazer um dinheiro legal também”, conta Rafael.

Com exceção do Piscinão de Ramos, a Bolt faz entregas em todas as outras comunidades da Maré, chegando também a algumas partes de Ramos e Bonsucesso. Divididos por regiões e por clientes, como Mercado Livre e Shopee, os entregadores costumam atender sempre os mesmos locais, como explica Rafael: “Cada comunidade aqui tem em média três entregadores. Algumas mais, outras menos, mas podemos dizer que são cerca de três entregadores por cliente”.

LOGÍSTICA DA BOLT

Antes da encomenda chegar à casa de quem fez a compra, há toda uma logística. Enquanto o galpão do Mercado Livre fica localizado em Cordovil, o da Shopee fica na Penha. A primeira tarefa da Bolt é ir até esses galpões com um caminhão 3×4, ou seja, um caminhão de porte médio, e recolher os pacotes que deverão ser entregues no mesmo dia ou até o dia seguinte. Quando os pacotes chegam ao galpão da Rua Praia de Inhaúma, são separados manualmente por regiões, como Nova Holanda, Rubens Vaz, Parque Maré e todas as outras áreas. Em seguida, uma nova separação é feita entre os entregadores, determinando quais endereços cada um atenderá naquele dia.

Antes de serem levadas pelos entregadores, as encomendas passam por diferentes processos. Foto: Ana Cristina da Silva.

Os pacotes maiores e mais pesados, como um ar-condicionado, por exemplo, são chamados de “volumosos” e são coletados apenas por entregadores que possuem carros, como Flávio Aquino, de 47 anos.

Faz dois anos que Flávio deixou Jacarepaguá para morar na Maré, na comunidade Rubens Vaz. Na Zona Oeste, ele trabalhava como pizzaiolo, mas precisou deixar o emprego para cuidar do filho. Quando chegou à Maré, passou um ano desempregado, mas em 2025 descobriu o galpão da Bolt e buscou uma oportunidade. Como já possuía um carro, Flávio se ofereceu para trabalhar fazendo entregas com ele, tornando-se responsável por pacotes mais pesados, principalmente os do Mercado Livre.

Atualmente, trabalha exclusivamente com entregas e demonstra estar satisfeito com o que faz. Contratado como MEI, Flávio considera justa a forma de pagamento oferecida pela Bolt: “Somos prestadores de serviço, temos um MEI. A remuneração é feita por pacote, então acho até muito justa. Porque não dá para dizer: ‘o fulano ganhou mais do que eu’. Se ele ganhou mais, é porque trabalhou mais”, conta o morador da Rubens Vaz, explicando também que a gasolina e a manutenção dos veículos ficam por conta de cada entregador.

Flávio Aquino realiza entregas na Nova Holanda e Parque União utilizando seu carro. Foto: Ana Cristina da Silva.

DESAFIOS NA MARÉ

Apesar de toda a estrutura e planejamento da Bolt e de seus entregadores, esse ainda não é um trabalho fácil dentro das comunidades. Além dos dias de operação policial, que inviabilizam as entregas por questões de segurança, as fortes chuvas também podem gerar atrasos devido a alagamentos em determinadas vias. Mas o grande desafio está nos becos e ruas inacessíveis ou com numerações incorretas.


“O meu maior desafio foi conhecer a Maré. Como falei, eu não sou daqui e me colocaram para trabalhar em áreas que acho difíceis. Era como achar uma agulha no palheiro. Eu fazia a Baixa do Sapateiro, Morro do Timbau, Parque União e Nova Holanda (…) e é muito complexo encontrar alguns endereços. Os números não batem. Uma casa pode ser o número 78, mas existem vários 78, embaixo, em cima, no beco, no sobrado. Então minha maior dificuldade até hoje é essa: a má sinalização das casas e, muitas vezes, o endereço errado. As ruas mudaram de nome e, andando por elas, não se vê uma placa.”

— Flávio Aquino, entregador da Bolt Transporte.


Um local que tende a gerar muitos problemas de acessibilidade para os entregadores da Bolt é o Morro do Timbau e a Baixa do Sapateiro, por conta de seus inúmeros becos. Rafael Machado relata a dificuldade de uma entrega na Rua Oliveira: “Já aconteceu de termos que entregar um compressor ali. Era enorme, vinha numa caixa de madeira. Como subir com isso? Não sobe. Nem moto acho que sobe, porque tem uma ladeira de cinco metros e depois começa uma escadaria. Tivemos que usar quatro pessoas, revezando para carregar”.

Hoje, o trabalho é mais fácil para Flávio, que já se familiarizou com a região onde atua: Nova Holanda e Parque União. Sua rotina começa cedo: às 8h, ele vai até o galpão na Rua Praia de Inhaúma e inicia a separação dos pacotes por região, junto com outros entregadores. “Aí passa por uma bipagem para selecionar a quantidade de pacotes que cada um vai levar. Tem dia que saímos com 30, tem dia que a gente sai com 50, tem dia que a gente sai com 100”, conta Flávio.

Por volta das 11h ele deixa o galpão e começa a entregar os pacotes em seus respectivos endereços. Como tudo depende de quantas entregas ele pegou para fazer, seu horário de trabalho varia bastante, tendo dias que trabalha por 10h e outros apenas 3h.

Morador da Rubens Vaz, Flávio trabalha para a Bolt Transporte há um ano. Foto: Ana Cristina da Silva.

Como mareenses, Rafael Machado, Thiago Lucena e Ruan Machado afirmam que o objetivo da Bolt sempre foi fazer uma ponte entre grandes empresas do e-commerce e a comunidade. “A Bolt nasce trazendo essas grandes empresas do e-commerce para a porta das pessoas. Esse processo é feito, como o Rafael falou, desde a coleta, a roteirização, a organização e a estratégia de como fazer isso chegar mais rápido às pessoas”, conta Thiago.

Para eles, um dos requisitos fundamentais para um trabalho de qualidade é a contratação de moradores da Maré, como explica Rafael:


“É de fundamental importância termos entregadores que sejam moradores daqui. Primeiro, pelo compromisso que temos com a comunidade. A gente saiu daqui, a gente cresceu aqui, então a gente conhece, viveu as dificuldades que existem na comunidade — de crescimento e de oportunidades. É um compromisso nosso empregar pessoas daqui. Além disso, quem mora no local conhece a região. Com essa logística de priorizar moradores, também se gera confiança. Pessoas que antes não compravam passam a confiar. Elas chegam e dizem: ‘A gente não comprava, não confiava, mas quando eu vi o Walter, quando eu vi o Bruno, o filho da Dona Maria…’. Isso gera confiança, e a pessoa acaba comprando e fazendo uso desse direito de receber em casa.”

— Rafael Machado


No entanto, para que consigam trazer cada vez mais empresas do e-commerce para dentro da comunidade é preciso compreensão. Afinal, para muitas dessas empresas é mais fácil não entregar na favela do que se preocupar em montar um plano para atendê-la. Uma surpresa positiva foi a reunião com a alta cúpula da Shopee, que ao visitar o galpão da Bolt em uma quinta-feira, se deparou com uma operação policial no território e pôde compreender um pouco dos desafios da região, se propondo a pensar estratégias. “Foi gratificante para a gente eles virem aqui entender o território. Eles entenderam a operação e se propuseram a ajudar. Seria muito fácil falar assim: ‘ah, a gente fecha lá ou deixa ele se virar lá naquela comunidade’. Não, eles vieram aqui e entenderam. Eu acredito que isso mostra um olhar social, um respeito pela comunidade que até então a gente ainda não tinha experimentado”, conta Thiago Lucena.

Ao longo desses quase dois anos de atuação, eles também observam um grande aumento no número de compras online feitas na Maré por meio da Shopee e do Mercado Livre: “Quando a gente iniciou, eram duas rotas por dia, uma média de 140 pacotes. Ao longo do tempo, observamos um crescimento médio de 30%. Só no último ano, chegou a 35%. É um aumento muito significativo”, diz Rafael, que é complementado por Thiago, ao informar que, atualmente, em determinados dias, a empresa chega a realizar cerca de 5 mil entregas.

Buscando aprimorar ainda mais esse sistema de entregas na Maré, agora eles se organizam para abrir duas novas bases: uma no Pinheiro e outra na Nova Holanda. Inicialmente, essas unidades funcionarão como teste, mas a ideia é que, no futuro, cada comunidade tenha sua própria base da Bolt. Isso permitirá que moradores retirem suas encomendas diretamente nesses locais, caso não estejam em casa no momento da tentativa de entrega.

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