Foto da capa e texto: Christóvão Carvalho
Entrevista: Carolina Vaz
Adriana Kairos, de 49 anos, participou da V Residência Literária Favelofágica para o lançamento de seu primeiro romance: “Maré”. A metodologia esteve em ação por alguns meses, e se encerrou no último dia 11, no Museu da Maré. O evento também divulgou outros cinco títulos da mesma linha narrativa, onde alguns dos escritores marcaram presença.
Em foco, discussões sobre a importância de um projeto de remuneração para autores periféricos e o afastamento do conceito de favela como vítima na literatura foram os temas mais abordados. Além disso, a presença de alunos do curso de teatro Entre Lugares Maré acentuou momentos de aprendizado e inspiração para os jovens.
A autora de títulos como “Clarabóia” e “Obsessão” também estará dia 22 (domingo) na Bienal do Livro Rio 2025 para o lançamento de “Eu, Passarinho” e o relançamento de “Sala de Reforço Escolar”, das 11h às 12h e das 12h às 14h, respectivamente, no Pavilhão 4 – Corredor Literário – Estande do Conexão Queer.
“Eu, Passarinho” e um relançamento na Bienal 2025
A escritora e educadora Adriana Kairos lança neste domingo (22), na Bienal do Livro 2025, “Eu, Passarinho”: uma autoficção que narra o processo de cegueira vivido pela autora durante a pandemia.
A obra marca os 15 anos do projeto ALEPA – A Literatura dos Espaços Populares Agora, coordenado pela autora. E reúne textos publicados originalmente em seu blog, no WordPress, onde ela escrevia com lupa nos momentos em que já não conseguia mais usar plenamente a visão: “era o único lugar que eu conseguia escrever. Eu escrevi um monte de texto ali. E aí depois eu fiquei pensando, ‘porra, vou compilar essa merda’. E claro, não era só relato, né? Era também contos, tinha uma série de contos, uma série de crônicas, uma série de outras coisas. Aí eu comecei a ficcionar, sabe? Aí eu falei assim,’ pô, isso aqui é uma autoficção’”.
Neste livro, seremos levados a uma potente reflexão sobre o corpo, o desejo, a cegueira e a força de quem insiste em narrar o mundo mesmo quando todas as estruturas tentam silenciar. Como afirma em um dos textos: “Para nós, favelados, mesmo quando estamos na mais absoluta merda, e principalmente por isso, escrever tem que ser um ato político.”
Além desse título, Adriana relançará “Sala de Reforço Escolar”, pela Editora Nua, editora feminista e LGBTQIAP+. O livro foi publicado originalmente em 2022 e é uma celebração dos 10 anos do curso preparatório Akairos. Neste livro, a autora abre as portas de seu espaço de trabalho, contando histórias, compartilhando planos de aula, desafios e vitórias. Neste relato, luta e esperança caminham de mãos dadas, a cada criança e adolescente que supera a dificuldade de ler, escrever e entender os números, mesmo diante da pandemia mais terrível de todos os tempos.

Adriana Kairos mostra, em primeira mão, exemplares físicos dos livros que estarão na Bienal. Foto: Christóvão Carvalho.
O lançamento de Eu, Passarinho será neste domingo (22), das 11h às 12h, no Pavilhão 4 – Corredor Literário, no estande do Conexão Queer.
O Sala de Reforço Escolar também será relançado no mesmo dia e estande, porém, das 12h às 14h.
Para completar, o livro “Maré”, lançado no último dia 11, ao qual abordaremos ao longo da matéria, também estará disponível para aquisição.
A origem da autora
Nascida em terras mareenses, Adriana Kairos tem 49 anos e é formada em Letras pela UFRJ. Se identifica como mulher preta, cis e passou pelo processo da cegueira ao longo da vida. Já morou na Vila do João, na Nova Holanda, na Rubens Vaz e está atualmente no Sem Terra, Parque União. Ela ainda trabalhou no Morro do Timbau. Suas raízes estão cravadas e espalhadas por todo o território.
Em entrevista, ela conta que começou a escrever quando estudava no pré-vestibular do CEASM, o CPV, começando com “diários de maternidade” que refletiam suas angústias. Em 2009, lançou seu primeiro livro, “Clarabóia”, um compilado de textos de seu antigo blog chamado Cartografia N’alma. Nesse período, começou a desenvolver um olhar mais crítico sobre a literatura, observando por exemplo o quanto Carolina Maria de Jesus era criticada pela maneira “errada” como escrevia. “Outros autores também tinham essa questão, né? E sempre estavam passando pela tutela do branco, o branco salvador, sabe? E aí, eu comecei a me interessar por linguagem. E foi aí que eu fui parar na linguística”, comenta, complementando que hoje estuda o tema no mestrado.
Ter notado que outros favelados também poderiam se desenvolver como escritores e escritoras, tal como ela, Adriana criou em 2010 a editora-literária periférica: A Literatura dos Espaços Populares Agora (ALEPA). Um projeto que visa incentivar e divulgar a produção poética e ficcional de autores de favelas do país.
Assim, 15 anos de experiência levaram Adriana Kairos a novos desafios, como a criação do seu primeiro romance através da Residência Literária Favelofágica, o lançamento de sua obra mais recente “Eu, Passarinho”, e o relançamento do livro “Sala de Reforço Escolar”.
Sobre a Residência Literária Favelofágica
A Residência Literária Favelofágica é uma plataforma idealizada pela editora Bando Editorial Favelofágico, acolhendo artistas para a criação literária. Com origem em Manguinhos, as residências literárias contabilizam cinco edições concluídas. Durante os períodos, houve publicações de contos, novelas, dramaturgias e romances. Na edição mais recente, ao longo de seis meses seis autores desenvolveram seus romances favelofágicos.
Além disso, o selo Bando contou com o estímulo municipal nessa edição para distribuir bolsas (apoio financeiro) para os autores e outros profissionais dedicados durante os meses em atividade. A ação faz parte do projeto Impulso Carioca. É uma realização da Coordenação da Cooperação Social da Fundação Oswaldo Cruz em parceria com o Bando Editorial Favelofágico, com gestão cultural da Sociedade de Promoção Sociocultural da Fiocruz (SOCULTFio). É patrocinado pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, IBMR, Nova Rio, Grupo Globo e Transegur, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura – Lei do ISS.
O termo “favelofagia” é uma proposta de estética literária conceituada pela editora. Em suma, é um projeto literário coletivo, com autores propondo-se a criarem uma estética enegrecida, popular, de luta e resistência periférica ou equivalências em suas obras.
A Favelofagia está completando 10 anos em 2025. Foto: Christóvão Carvalho.
O livro “Maré”
Para fazer parte da Residência, Adriana precisou enviar algumas laudas como parte do processo seletivo, já antecipando a obra que executaria. Ela comenta: “O que eu mandei não era nem o início da história, já era um trecho de um personagem. E aí eles curtiram, porque eu trato ali naquele livro também de realismo mágico. Você vai encontrar alguns elementos assim, personagens coloridos, que ninguém vai nem ligar para isso. A travessia, a travessia pelo espelho, as árvores da Maré também são personagens”.
Aprovada e selecionada, Adriana Kairos foi desafiada desenvolver essa história, que culminou em seu primeiro romance literário. “Maré” foi o nome escolhido.

Em cor predominantemente roxa, a capa do livro Maré é repleto de detalhes que remetem às inspirações de Adriana para a história publicada. Foto: Christóvão Carvalho.
Ela comenta que nessa época, quando ainda conseguia enxergar, começou a prestar atenção nas árvores da Favela da Maré, o que a inspirou. Além de ser um dos elementos na história, a capa contém plantas no design:“O Allan fez questão de botar a flor da castanheira. São os tamarindos (indicando outro elemento da capa). Entendeu? Que estão em volta e diz que está escrito Maré e aí de um lado e do outro da Maré tem umas flores que são as flores da castanheira”.
A capa recebeu o apoio do designer Bil-Rait “Buchecha”, e do diretor de arte da quinta temporada da série animada Irmão do Jorel, Allan Matias.
Na história, conhecemos Isabel e Rodrigo, personagens que vivem paixões marcadas pelo desejo e pela resistência. Um outro elemento do livro são os lugares com referências ao território da Maré, como a Rua Nova Jerusalém, a Escola Bahia, o Curso Pré-Vestibular do Ceasm e o Jornal O Cidadão.
A V Residência, os livros e os autores
Sendo uma das seis pessoas do grupo, a autora mareense estava “em casa” no último dia 11, já que a V Residência Literária Favelofágica findou com um evento no Museu da Maré.
Na ocasião, Adriana Kairos apresentou o livro de nome homônimo ao da favela (Maré). Junto deste, outros cinco romances foram lançados em conjunto: “A Febre de Momo”, de Diogo Lyra; “Mímesis”, de Isabel Marz; “Mormaço”, de Steffany Dias; “Pequenas Colisões”, de Mauro Siqueira; e “Porque as lágrimas não vertem”, de Daniel de Abreu Brazil. Destes, além de Adriana, estiveram presentes Diogo, Steffany e Mauro.

Expostos em uma mesa, estavam todos os seis livros lançados no encontro. Quatro dos autores marcaram presença. Foto: Christóvão Carvalho.
O coordenador-geral do Favelofagia, Felipe Eugênio, abriu o evento reforçando a importância e os desafios desses 10 anos de selo editorial. Ainda em fala, ele conta que foram cinco residências no total, e que cada autor que passou até hoje construiu a favelofagia. Além disso, fez questionamentos iniciais: “É possível ser crítico sem fazer uma literatura de ‘vale de lágrimas? É possível falar de negritude sem falar de racismo”? Em seguida, os autores se apresentaram, contaram um pouco de suas obras e a experiência de fazer parte do movimento favelofágico.

Felipe Eugênio, Coordenador-geral do Favelofagia fala um pouco do projeto que já dura 10 anos. Foto: Christóvão Carvalho.
Diogo Lyra, autor de A Febre de Momo, é o primeiro dos autores a falar. Ele conta que sua obra se passa em um universo em que a tradição do carnaval de rua se entrelaça com memórias pessoais: “O livro é um realismo fantástico, mistura a ficção com fatos históricos que realmente aconteceram”. Sobre a residência: “Eu nunca me senti tão feliz na minha vida, nunca me senti tão realizado… acho que foi a coisa mais importante da minha vida”.
Na sequência, Mauro Siqueira também expressa gratidão ao projeto. Sobre seu livro de poesia, Pequenas Colisões possui 20 capítulos. No decorrer, somos apresentados a fragmentos da vida cotidiana, através do casal de protagonistas Marcos e Estela. A linguagem minimalista nos convida a refletir sobre as “colisões” que, mesmo pequenas, deixam marcas profundas. Durante sua fala, ele usa uma metáfora para exemplificar o que iremos encontrar em sua obra: “quem nunca deu murro em ponta de faca por conta de um namorado?”.
Adriana foi a terceira a falar. Como dito anteriormente, o livro “Maré” é um romance que entrelaça o cotidiano de moradores do conjunto de favelas com questões sociais e existenciais. Ela também demonstra gratidão pelo reconhecimento recebido pelo projeto.
Em seguida, ela dá detalhes sobre o livro: “Eu acho que eu escrevi o Maré porque esse território é o assunto que eu mais conheço, provavelmente. Mas eu quis fazer ali uma brincadeira, né, e o sonho… eu quis sonhar junto com outras pessoas. E poder imaginar: como seria a Maré no futuro? Como seria a Maré em 2095? Como seria a Maré em 2395? Como seria a polícia se a gente tivesse conseguido vencer? Se a boa e velha revolução comunista e socialista tivesse conseguido vencer? E fabular tudo isso com uma história de amor”.
Para fechar o quarteto de autores, Steffany Dias, autora de Mormaço, contou que seu livro é a história de três adolescentes, se passando em duas partes, a primeira em 2004, a segunda em 2005: “É um romance ‘de formação’, passa pelos desafios da vida com a mentalidade de adolescente (‘a vida é só sobre mim’), mas também tem um viés social. Porque eles começam a conversar sobre política, sobre seu lugar na sociedade como adolescentes negros, também debate a masculinidade negra”.
O evento ainda teve um momento de debate, no qual vários dos alunos do Entre Lugares puderam fazer perguntas e comentários ao grupo de autores. Vários se identificaram com as falas dos escritores, uma vez que também se esforçam em transformar suas vivências e visões de mundo em arte: as cenas e peças teatrais. “Parte da nossa metodologia é a ‘escrevivência’. A gente pega um pouco do que a gente viveu, vivenciou, e traz pra cena também como uma forma política”, comentou Leona Kalí.
Outro assunto, muito abordado neste debate, foi a dedicação à literatura como um trabalho, que ainda é muito difícil para a classe trabalhadora. A própria Adriana comentou sua experiência, enfatizando que há 15 anos vive de escrever e promover ficção de outros autores. Também para Lyra, ter sido remunerado pelo Favelofagia foi essencial. “Eu acho que se eu vivesse de escrever coisas do dia a dia ia ser a melhor coisa da minha vida”, ele comentou.

O público presente participou ativamente do encontro, que proporcionou momentos de descontração com as falas principalmente de Adriana. Foto: Christóvão Carvalho.
Steffany e Felipe concordaram em suas falas que há muito menos acesso ao mercado editorial por parte de autores negros. No caso do coordenador-geral, ele vai além e explica que autores negros de prosa têm muito menos lugar no mercado editorial do que autores de poesia (e também compositores de música), e isso se relaciona à falta de tempo para se escrever um livro quando se tem que exercer outros trabalhos: “O texto de prosa mais longa, como um romance, exige um fôlego que se você não tiver o tempo para escrever… pra terminar precisa ter fôlego!”
Ainda nesse assunto, Felipe explicou um pouco da dinâmica da Residência que contribuiu para inspirar autores até aqui: “Atividade tipo ir para a Praça Tiradentes, e cada autor teria que seguir uma pessoa até onde der e voltar com uma história… ou pegar um trem até Caxias e cada trio de autores teria que puxar assunto com alguém e perguntar qual era o seu sonho. Então, nessas edições da residência eles já fizeram várias experiências desse tipo pra estimular o ócio criativo… É inspiração de menos e suor de mais”.
As escolhas do lugar, dia e horário do lançamento das obras casaram perfeitamente para contemplar a presença de alunos do curso de teatro Entre Lugares Maré, um projeto executado no Museu da Maré. Os jovens artistas ficaram empolgados durante o encontro e o contato com autores periféricos foi considerado importante para tirar dúvidas, inspirá-los e encorajá-los a aplicar em suas manifestações artísticas.

Alunos do curso de teatro Entre Lugares Maré tiveram contato com autores periféricos. Foto: Christóvão Carvalho.
Após o fim do encontro, os alunos puderam adquirir gratuitamente um exemplar lançado. O momento permitiu ainda mais trocas de ideias com os autores, que distribuíram autógrafos e fotos com a turma.
Veja mais fotos de Christóvão Carvalho:





