Foto de Capa: Ana Cristina da Silva
Texto por Christóvão Carvalho
Entrevista: Ana Cristina da Silva e Christóvão Carvalho
Na Maré, o futebol é mais do que lazer: é identidade, memória e ponto de encontro. Há 60 anos, o Centenário Futebol Clube mantém viva a tradição do futebol de várzea, reunindo gerações, fortalecendo laços e promovendo inclusão social. Formado por moradores da Maré, ex-moradores e outros que se identificaram com o time, é no campo ao lado do Parque União que o clube preserva sua história.
Fundado por familiares e amigos, o Centenário resiste ao tempo e às dificuldades, preservando o espírito amador e comunitário que moldou sua história. A equipe do Jornal O Cidadão esteve na Sede Náutica do São Cristóvão Futebol e Regatas para conhecer de perto essa paixão que atravessa décadas.
A tradição do futebol de várzea no legado de uma família
O Centenário FC é uma iniciativa fundada por Claudionor Cassiane, Bento Mendonça, Luis Tavares e José Severino, e está ativo desde 1965. O nome nasceu em referência ao antigo Hospital IV Centenário, no Catumbi, bairro onde foi fundado. Ao longo dos anos, as cores também mudaram: do uniforme original azul, amarelo e vermelho, para o modelo usado hoje, azul, amarelo e branco.
Irmãos mais novos de José Severino, na gestão atual, Antônio Fernandes da Silva, conhecido como Nandes (67), Paulo Luís da Silva, conhecido como Lalo (65) e Arnaldo Batista da Silva (61) são diretores do time, que além de disputar torneios de várzea com o quadro principal, conta ainda com as categorias veterano e master, e já possuiu escolinha de futebol.
Da esquerda para a direita: Paulo Luís da Silva (Lalo), Antônio Fernandes da Silva (Nandes) e Arnaldo Batista da Silva. Irmãos e diretores do Centenário. Foto: Ana Cristina da SilvaO futebol de várzea reúne times formados por moradores e amigos, funcionando como espaço de lazer, convivência e inclusão nas periferias. O termo “quadro” é relacionado ao time em campo, ou seja, um número determinado de jogadores formando uma equipe para a partida. Já as categorias principal, veterano e master, e a escolinha de futebol, estão ligadas à idade e condição física que um jogador possui.
A rotina que mantém o Centenário unido
Em um domingo, logo cedo pela manhã, Nandes, estava à beira do campo, comandando os quadros de master, que disputavam um jogo interno. O sol já estava por ali. Entre trocas de passes, chutes, divididas e defesas, terra e grama subiam a todo instante. A vontade de vencer gerava broncas, gritos, discussões e chegadas mais firmes. Ninguém queria ser substituído. “Aqui tem café no bule!”, gritou um dos jogadores após vencer uma dividida.
Apesar de toda a intensidade, com o fim da partida, os jogadores foram para o vestiário e, logo depois, se reuniram para uma resenha com cerveja e churrasco, ali mesmo, na Sede Náutica.
Para manter a união dos jogadores toda semana, Nandes (e o Centenário) conta com o poder da rede social, que facilita o alcance: “Hoje é mais fácil com o WhatsApp, né? O grupo de WhatsApp faz tudo. Então, durante a semana, nós ficamos nos comunicando”. Por lá, os integrantes do Centenário acertam as datas das partidas e combinam uma lista de contribuição para o churrasco pós-jogo.
Acontece que nem sempre foi assim. O Centenário existe antes mesmo da internet.
60 anos valorizando amizade, família e união
Para sobreviver ao tempo, desde sua criação, a instituição conta com a contribuição financeira de gestores e atletas. “A maioria, todo mundo contribui. Principalmente aqui, o master, todo mundo contribui, mensalmente, pra se manter o clube”, revela Nandes que ainda apontou Arnaldo como principal responsável pela área financeira atualmente: “Ele é o articulador das compras de materiais. Ele busca o patrocínio que nos ajuda a comprar o material”. Uma das fontes de receita do time é a venda de camisetas do Centenário.
Arnaldo comenta sobre a longevidade do clube: “Várias equipes vieram e pararam. De tradição, que tinha uma rivalidade, parou. Nós fomos o único que demos continuidade. Com toda dificuldade nossa. Não é fácil você administrar durante tanto tempo”. O irmão caçula completa reconhecendo o apoio dos frequentadores: “Existe a época boa e existe aquela… aí naquela época ruim é que você sabe com quem você pode contar. É igual esse pessoal que nunca nos abandonou”.
Em destaque, a regata comemorativa lançada em 2025. Nela, uma frase estampada diz: Eu faço parte dessa história. Foto: Ana CristinaPara comemorar mais uma década, em março deste ano, Nandes conta que uma festa especial marcou o aniversário do clube: “Tivemos uma grande festa aqui que começou pelo futebol sete horas da manhã e a festa começou a partir das onze e fomos até seis da noite com um conjunto de pagode”.
Identidade mareense: o trabalho social do Centenário
Com 50 anos de história apenas na Maré, o clube gerou a empatia dos moradores. Nandes explica que quando o Centenário chegou aqui, os primeiros participantes dos quadros foram mareenses: “Devido ao tempo que nós temos, a Maré abraça a gente. Se você for lá dentro do Parque União, você vai ver várias pessoas com essas camisas comemorativas de Centenário. Por quê? Ou já foi ex-jogador, ou que gostam do Centenário, torcedor”.
Arnaldo vai além, e acredita em uma abrangência ainda maior: “Entre outras localidades, igual Vila do Pinheiro, Vila do João, todo mundo usa a nossa camiseta. Independente de guerra ou qualquer coisa, o Centenário é respeitado aqui e em outras comunidades”.
Além de manter viva a tradição e a popularidade, o Centenário atua para ser ponto de apoio para jovens da Maré. Seja oferecendo um espaço para desenvolver o bom futebol ou apenas um incentivo para ocupar o tempo e afastar do mundo do crime, ao longo dos anos, histórias de ex-atletas que encontraram no esporte a motivação para mudar de vida se repetem — e é justamente esse retorno que emociona a diretoria.
“Eu me sinto muito satisfeito em ver aquela pessoa que estava ali e hoje está aqui (…) num patamar melhor de vida. Ou bem empregado, de certa maneira. (…) Isso, pra mim, é muito gratificante”, completa Nandes.
Permanência: uma vida dedicada ao que ama
Um bom exemplo do trabalho do Centenário é André Guedes, que foi morador do Parque União e é jogador do clube desde os 14 anos. Na época, ele começou a se juntar com amigos da comunidade para assistir aos jogos e aprender com os mais velhos. “Eles me viram um garoto, eles são mais velhos do que eu, me viram um garoto. O Arnaldo ia na minha casa, pedia a minha mãe pra eu ir jogar”.
Hoje, aos 54, André já passou por todas as categorias do Centenário, e mesmo residindo fora, não esqueceu as origens: “Moro hoje em Magé e tenho o maior prazer de vir aqui ver o pessoal”. Para ele apenas um sentimento o acompanha: “Amor. Simplesmente amor. E a maioria que aqui vem, acaba se tornando isso: amor. Fica aqui por identificação, realmente, com amor ao clube”.
Antigo morador do Parque União, hoje André Guedes vem de Magé para jogar pelo clube. Foto: Ana Cristina da SilvaNandes, Lalo e Arnaldo, também são bons exemplos, pois foram jogadores da escolinha, passaram por outras categorias e, hoje, integram outros cargos na instituição.
Dinheiro não é tudo para o Centenário
Atualmente, a escolinha de futebol não está em funcionamento devido à baixa procura de alunos.
Nandes acredita que a mudança de mentalidade dos mais jovens ao longo das gerações reflete no conflito de interesses para com o Centenário: “A criançada hoje não tem interesse mais pelo futebol de várzea, não existe mais essa paixão da criança dizer: ‘vou acordar e vou jogar o futebol ali (…) Hoje a criança pensa: ‘Eu vou ser jogador para ganhar dinheiro’, isso é muita ilusão, muita ilusão”.
André reforça o verdadeiro significado de vestir a camisa: “A gente tem aqui a presença de colegas mais recentes e colegas antigos que sempre estiveram aqui com a gente. Então, é uma família, realmente é aquilo que a gente falou aqui: É uma família que está sempre unida, sempre em prol do Centenário”.
Quadros da categoria de master do Centenário se enfrentam, sempre com muito respeito e amizade. Foto: Ana Cristina da SilvaPor fim, Nandes faz um convite especial para os leitores do jornal O Cidadão: “venha hoje, que é o mais fácil aqui na Maré em frente ao BRT aqui no Clube São Cristóvão, procure os diretores aqui e procure saber da história do Centenário, procura ver a nossa trajetória. Porque não é fácil comemorar 50 e 60 anos de idade num clube de várzea, que não tem recursos financeiros para poder seguir em frente. E nós estamos aí, na luta. Seguindo em frente. E não vamos desistir, até o dia que Deus nos chamar”.





