Foto de capa: Christóvão Carvalho
Texto por Christóvão Carvalho
Entrevista: Ana Cristina da Silva, Carolina Vaz e Christóvão Carvalho
Hoje (25) é Dia Nacional do Feirante. E o Jornal O Cidadão preparou uma matéria especial, em homenagem a esses profissionais que, por meio de suas vendas, alcançam tantos lares da Maré.
Nossa equipe esteve em feiras no território e descobriu gerações de famílias feirantes que fazem carreira e mantêm viva uma tradição com suas barracas cheias de cores, cheiros e sabores.
Te convidamos também a compreender a importância das feiras livres para a comunidade e a conhecer histórias de feirantes que talvez você possa até ser cliente.
Alô, freguês. Alô, freguesa. Vem chegando!
Por que 25 de agosto?
Na história, as feiras livres são tão antigas que não há consenso sobre quando elas começaram a surgir. No Brasil, a prática existe desde o período colonial.
Mas foi em um 25 de agosto, há 111 anos, que o então prefeito de São Paulo, Washington Luís, oficializou a regulamentação das feiras livres no estado, proporcionando mais organização e dignidade entre os feirantes. Posteriormente, o ato tomou proporções nacionais. Assim, a data ganhou um valor especial para esses profissionais.

Feiras de rua na Maré
Aqui na Maré, as feiras de rua também existem. Na verdade, elas estão tão enraizadas em nossa cultura que é improvável que algum morador já não tenha passado por pelo menos uma dessas no território. Afinal, as feiras estão por aqui há várias décadas, e abrangem diferentes lugares e dias da semana. Alguma delas é perto da sua casa e, muito provavelmente, alguém na sua casa vai lá garantir produtos frescos, gostosos e mais em conta.

Na feira, encontramos barracas (geralmente) de madeira e cobertas com lona. Todas sempre coloridas. Muitas repletas de frutas, verduras, hortaliças, legumes, temperos, peixes, ovos e tem até as de pastel com caldo da cana. Outras embelezam a comunidade vendendo roupas, calçados e acessórios. E sempre tem aquela barraca que vende de tudo e atende todas as necessidades.
Abaixo listamos as feiras da Maré das quais temos conhecimento:
– Quartas-feiras, o dia inteiro – Feira do Parque União, com foco em alimentos, na Rua Ari Leão, próximo à Rua Portinari – CEP 21040-005;
– Quintas-feiras, a partir das 14h – Feira da Vila do João, com ampla variedade, na Rua Quatorze – CEP 21046-575;
– Sextas-feiras, à noite – Feira do Parque União, com foco em roupas, na Rua Roberto da Silveira, na Praça do Parque União – CEP 21044-180;
– Sábados, o dia inteiro – Feira da Nova Holanda, com ampla variedade, na Rua Teixeira Ribeiro – CEP 21044-251

Ser feirante…
“Está no sangue”, define Sara Ferreira, de 23 anos. Ela é filha Gilson Nunes e Fátima Ferreira, que também são feirantes (vendedores de frutas). A jovem ainda tem seu esposo, Caio Rodrigues, como parceiro de profissão (vendedor de alho). Entre outros lugares, a família marca presença na feira do Parque União.
Essa tradição, segundo Sara, começou com seu pai, que está para completar 30 anos de experiência. Desde nova, a moradora de Maricá dividiu sua rotina entre estudar e acompanhar seus pais nas feiras. E há pelo menos 5 anos está com sua barraca própria de temperos. Mas sempre se organizou para manter um dia ou outro vendendo em família.

Perguntada sobre o motivo de gostar tanto da profissão, ela explica: “Eu acho que é o público, sabe? O público abraça muito a gente. É um carinho. E é tanto criança, idoso… Não importa a idade. Fico até emocionada, juro. É muito bom”.
Ainda no Parque União, conhecemos Samuel Soares (42). Feirante desde a juventude, hoje o experiente vendedor divide barraca com seu filho, Breno Soares (19).
Curiosamente, Samuel não é a primeira geração da família no ramo: “Começou com meu pai, já tem 40 anos (de experiência). Aí, depois veio eu com 25 anos que eu já tô aqui. Ele (Breno) já deve ter uns 5 anos que trabalha comigo”. O que aumenta ainda mais o fator ‘tradição’ é que a família buscou exclusivamente a venda de bananas por todos esses anos.

Mantendo a rotina de vendas por pelo menos 5 dias na semana, em feiras diferentes, Samuel revela: “Eu não faria outra coisa a não ser isso, porque tipo, trabalhar num lugar fechado, eu não gostaria. Gostaria daqui, porque aqui é coisa que lida com muita gente, conversa bastante, a gente troca ideia…”
A arte de fidelizar clientes
A declaração de Samuel faz bastante sentido, pois é possível perceber que além de existir uma rede de apoio familiar, o clima entre os vendedores também é de amizade e confiança.
O contraste se torna ainda mais interessante na hora de disputar a atenção do público. Nessas horas, a criatividade é valiosa.
No grito, no preço baixo, no bom atendimento, na agilidade… são várias as estratégias possíveis. No caso de Bernardino Vieira Neto (66), o segredo é outro: “Tem muito cliente que chega assim: ‘Essa verdura é diferente’, (…) porque sente até pelo cheiro: ‘Essa verdura é diferente, olha o cheiro dela, olha o jeito dela”.

Seu Bernardino trabalha em frente à barraca de sua filha, Bárbara Vieira – que vende alho, legumes, ovos e outras variedades. Ele é feirante ‘praticamente desde que nasceu’, como diz. Mas foi em 2016 que conheceu a feira da Maré e resolveu montar sua própria barraca, no Parque União.
Desde então, Bernardino conta com suas próprias plantações de verduras e hortaliças, em Petrópolis, para manter uma clientela rigorosa. “Tem uma senhora que ela vem lá de Ramos. Ela vem comprar aqui, que ela fala assim: ‘eu não encontro verdura igual a tua, então eu vim’, agora ela vem toda quarta-feira”, conta, orgulhoso.
Partindo para a feira da Vila do João, conversamos com João da Costa (63) e Heidy Almendro (35). Pai e filha trabalham juntos, só de feira, há 15 anos, vendendo calçados fabricados artesanalmente. “Isso aí é de família do meu pai. O meu avô era sapateiro, aí meu pai cresceu dentro do ramo, aí eu e meu irmão também crescemos dentro do ramo”, explica Heidy.

Assim como Bernardino, a família de sapateiros também aposta na qualidade de suas mercadorias para fidelizar clientes. “Tem cliente que vem, compra pra família toda… É porque já são muitos anos, né? Já conhece… graças a Deus, não é porque é nosso, mas é uma qualidade muito boa”, conta Heidy.
Também na Vila, outra dupla de pai e filha: Bruno Jovino (39) e Lavinia Jovino (20). Eles também começaram vendendo calçados. Mas, por estratégia, mudaram o foco para roupas femininas. O empreendimento rende melhores vendas, chegando até mesmo a terem clientes ‘de caderno’, que fazem uma encomenda e buscam na feira seguinte.
Acompanhando o pai desde nova, Lavinia cresceu inserida no ramo de vendas, tanto de loja quanto de rua. Sobre isso, a jovem conta que, em termos de atendimento, não muda muita coisa. Mas que a flexibilidade de horário da feira é uma vantagem: “aqui não é tão privado igual é loja com horário e essas coisas assim. A gente faz nosso trabalho”.

Bruno revela que a rotina não é fácil, podendo chegar a até 12 horas de trabalho por dia. E que além disso, que precisam viajar semanalmente para buscar mais mercadoria, pois as roupas são de origem do Brás – um bairro de São Paulo conhecido pelas lojas de roupas e confecções bastante conhecidas e frequentadas entre mercadores.
Mesmo com o lado mais trabalhoso da profissão, ele concorda com a filha: “eu trabalho pra mim mesmo. Não tenho patrão, faço meu horário, pra mim é bom. Dá pra ter um retorno maneiro”.
Da Maré para a Maré
Para a favela, as feiras livres trazem benefícios que vão além do acesso a alimentos frescos e a preços acessíveis. São espaços de: diversidade de produtos, cultura, tradição e identidade popular.
No caso de Joelson do Nascimento, de 41 anos, também significam geração de trabalho e circulação de renda local. Vendedor de frutas e legumes há 25 anos, ele é morador da Nova Holanda, e começou trabalhar em feiras após receber uma oportunidade: “Eu vim, eu trabalhava com um amigo, entendeu? Aí esse amigo… até hoje eu tô na feira”.

Graças a essa oportunidade, hoje, Joelson tem a companhia da esposa, Helena do Nascimento, e de seus filhos — Clarice Vitória, Rejane, Ester e Davi — nas vendas.
Por fim, falando brevemente, ele expressa gratidão: “É bom trabalhar com o público, filha. E graças a Deus que as pessoas elogiam a minha mercadoria”.
A equipe do Jornal O Cidadão tem o imenso respeito e apreço a todos os feirantes, principalmente aqueles que tornam o nosso território da Maré um lugar de ainda mais destaque e lazer. A todos esses trabalhadores, neste dia 25 de agosto, expressamos nosso agradecimento e os nosso mais sincero: parabéns e boas vendas!





