Texto por Carolina Vaz
O estilista Betto Gomes é conhecido por duas características em suas peças originais: referenciar a Maré, onde foi criado, e fazer escolhas sustentáveis, utilizando tecidos excedentes de outras marcas. Agora, estas características lhe renderam uma nova conquista: o prêmio Voto Popular de uma competição nacional com outros nove designers de todo o país. A premiação aconteceu em 21 de agosto em Blumenau, Santa Catarina.
O Concurso Brasil Fashion Designers teve cerca de 64 candidatos de todas as regiões do país, que enviaram o projeto de suas peças para o Verão 2026 dentro do tema: “Terra – Planeta Água”. Além do tema, o concurso desafiava os candidatos a apresentarem peças confeccionadas com matérias-primas sustentáveis, que seriam fornecidas por empresas parceiras do evento. Assim, Betto Gomes desenhou quatro looks, nomeou a coleção de Futuro Submerso, enviou e foi aprovado entre os 10 finalistas do concurso. O desfile dos 10 escolhidos aconteceu em 19 de agosto na Febratex Summit 2025, a maior feira têxtil das Américas, que reúne profissionais e empresas ligados a confecção e moda. Futuro Submerso conquistou o prêmio do voto popular, ou seja, após 2 dias em exposição no evento foi a que mais agradou os frequentadores da feira.
Maré e o Futuro Submerso
Segundo Betto, após descobrir que seria um dos finalistas, selecionar as empresas fornecedoras de matéria-prima e receber todo o material, a equipe do ateliê na Vila do João teve apenas 15 dias para produzir as peças. Foram três costureiras, uma crocheteira e uma assistente de estilo, além dele próprio, trabalhando intensamente para produzir os 4 looks que, na verdade, são muito mais do que 4 peças de roupa.
A coleção Futuro Submerso foi pensada, então, como algo vislumbrando as mudanças climáticas e, também, partindo do lugar de Betto, criado na Maré do lado de um canal. Literalmente, na rua Canal 2, onde hoje tem o ateliê. Nas 4 composições ele traz a perspectiva de aumento do nível do mar e consequente inundação das comunidades periféricas, como a própria Maré, mas a população vai resistir e se reinventar. “Eu trago um ar poético de um futuro onde a água vai emergir, então as áreas costeiras vão desaparecer (…) a coleção fala sobre essas resiliências, que o povo que vive na periferia não vai fugir, vai se reinventar”.
Assim, as roupas levadas para a passarela contêm peças que podem ser sobrepostas e removidas, como a calça que fica por baixo de uma saia, bolsas a tiracolo, capuz para proteger a cabeça, também removível, referências a raízes e vários bolsos. A versatilidade permitiria ao usuário utilizar tanto no calor quanto no frio, ter mobilidade, guardar objetos. Traz uma perspectiva de um “corre” de colapso climático.

O primeiro look do desfile foi costurado todo em crochê e, com as cores em degradê entre o branco e o verde, referencia a imersão da água. No conceito da coleção, representa o aumento do nível no mar devido ao derretimento das geleiras, e consequentemente a água invadindo as áreas costeiras como a própria Maré.
O segundo look traz “o corre” devido à invasão da água nas cidades. Ela conecta passado e futuro, trazendo uma blusa no estilo mergulhador, como uma segunda pele, um moletom que permite movimento, o capuz que pode ser removido. “Ela é versátil, justamente pela questão das mudanças climáticas. O calor, o vento, você pode levar tudo com você”, ele explica. A cor cinza com detalhes em prata também traz o ar futurístico.
O terceiro look já traz a água em sua totalidade, tendo invadido as cidades, e traz ideias de renascimento, mudança, transformação. A costura no colete e na saia referencia as redes de pesca, enquanto o estilo das peças se aproxima também da alfaiataria. O look completo contém o colete, a saia, uma calça justa, a bolsa e o capuz, sendo outro look versátil para as mudanças climáticas.
Por fim, o quarto look é a terra, que representa a esperança, como se dissesse: vamos resistir. O colete oversize traz os “bolsos das sementes”, com costuras que lembram raízes de árvores. Tanto o colete quando a calça, largos, permitem mobilidade. Um detalhe importante dela é ter sido feita com um algodão que já nasce na cor caramelo, dispensando o processo de tingimento que polui a água e gera resíduos sólidos. O look referencia também a Maré, um território aterrado, que é a origem do estilista.
Ainda no desfile, a maquiagem assinada por Rodrigo Britto, simulando um rosto mais bronzeado e uma fina rede em cima também remontam à pesca, uma atividade econômica tradicional da Maré. Segundo o designer, cada look contava uma parte de uma narrativa, no caso a história da Maré do ontem até o futuro. Dentre os elementos de sustentabilidade, além do algodão orgânico em caramelo, foram utilizados tecidos de garrafa pet reciclada e alumínio reutilizado, que confeccionado como folhas e molas dá um ar futurista ao look.
No dia 19 de agosto, tudo isso surgiu na passarela ao som da música que mais levou o nome da favela Brasil afora: Alagados, do grupo Paralamas do Sucesso. Com os versos “Alagados, Trenchtown, Favela da Maré / A esperança não vem do mar / Nem das antenas de TV / A arte de viver da fé / Só não se sabe fé em quê”, o estilista deixou explícita sua referência e também o conceito de sua coleção. Mas Betto ainda levou um “toque carioca” a mais, pois a versão que tocou foi um remix com base de funk dos anos 90, e daí “surgiu um pancadão no meio da passarela, no sul do país”, como ele mesmo descreveu. A plateia vibrou, e ele acredita que essa apresentação foi determinante para a premiação de Voto Popular. Enquanto o primeiro, segundo e terceiro lugares do desfile foram anunciados no mesmo dia, foi na disputa pelo voto popular que as peças dos 10 concorrentes ficaram em exibição no evento até o dia 21, recebendo votos do público. Foi quando Betto levou o prêmio, acumulando 30% dos votos.
“Eu posso dizer que a gente foi com força e resistência, e mostrou que ganhamos pelo voto popular, né? Ganhamos ali pelo público, pelas pessoas que viram, escolheram o nosso como o melhor desfile”.
Planos para o futuro próximo
Futuro Submerso foi produzida já como a coleção Verão 2026 do Ateliê Betto Gomes, e agora que foi apresentada para marcas e profissionais de todo o país tem o potencial de crescer e levar a equipe junto. Segundo o estilista, a empresa parceira Investe Favela está buscando recursos para que a coleção seja desmembrada em novas peças, e possa entrar no e-commerce. O plano é finalizar com pelo menos 16 looks. “É com essa coleção que a gente vai desenvolver todo o projeto para entrar, finalmente, no mercado nacional”, ele explica. Outros planos incluem participar de outro desfile, desta vez no Rio de Janeiro, e ainda levar a marca para a Casa de Criadores, evento de moda anual, realizado em São Paulo, onde novos talentos são lançados.
Veja mais fotos por Christóvão Carvalho:





