Foto de capa: Christóvão Carvalho
Texto por Christóvão Carvalho, com informações da pesquisa de Cláudia Rose e G1
Entrevistas: Carolina Vaz e Christóvão Carvalho
No dia 8 de outubro, celebramos a existência de um povo reconhecido por sua resiliência, alegria e acolhimento, além de ser festivo e possuir um tempero inconfundível.
Na história, o fluxo nordestino se intensificou no Rio de Janeiro com a chegada de famílias que migraram, resistiram e se adaptaram em busca de melhores condições de vida numa cidade com grandes projetos urbanos e pouca mão de obra disponível.
Hoje, a Maré é moradia, trabalho e lazer para um povo que enriquece e diversifica a cultura do território.
No Dia do Nordestino, entenda melhor essa relação com a favela e conheça alguns dos rostos e comércios que mantêm viva a tradição do Nordeste nas vielas mareenses.
A data comemorativa e a realidade no século XX
Desde 2009, é oficialmente considerado o Dia do Nordestino, no dia 8 de outubro. A data homenageia o centenário do poeta popular cearense Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, como foi conhecido. O artista era frequentemente referenciado por sua capacidade de recitar cada um de seus poemas apenas de memória. Um dos nomes mais populares do Nordeste no século XX.
Agricultor desde pequeno, Patativa se viu na necessidade de ajudar sua família no cultivo de terras ainda na juventude. Após ser alfabetizado, ele começou a produzir músicas improvisadas e a se apresentar em festivais. Assim, seu talento foi notado e ele conseguiu manter a vida de sua família em Assaré, no Ceará.
Historicamente, o clima árido e as longas secas impossibilitam o cultivo de terra e comprometem a qualidade de vida no Nordeste. Na década de 40, com a situação agravada, o baixo salário e condições de vida precárias, muitas famílias não tiveram outra alternativa senão deixar suas raízes, rumo — nesse caso — a um Rio de Janeiro em pleno processo de modernização urbana.
Esse fluxo se intensificou a partir de 1950, com a inauguração da Rodovia Rio-Bahia (BR-116), que substituiu o transporte marítimo e popularizou o acesso terrestre.
“Na década de 60, meu pai veio para cá e trabalhava aqui. Antigamente, (chegou) com o caminhão pau de arara, que ele conta a história para a gente”, lembra André Luiz (48), da época em que seus pais saíram da Paraíba para o Rio de Janeiro.

Com a força da migração, em 1991, o número de moradores em áreas urbanas no Brasil havia ido de 36,2% para 75,2% em apenas 40 anos.
Uma Maré de nordestinos
A presença nordestina na Maré se inicia nos primórdios da fundação da favela, que em 1950 já comportava seus primeiros residentes, como a dona Orosina Vieira.
Com a abertura da Avenida Brasil, os pontos mais estratégicos da favela foram inicialmente utilizados por forças militares, instituições e empresas. Em outros locais, eram realizadas atividades navais e de pesca.
Por causa da proximidade com a Baía de Guanabara, o solo do território é instável e sujeito a alagamentos. Devido ao alto custo da drenagem, não houve qualquer investimento. O terreno ficou vazio e acabou sendo ocupado para moradia.
Assim, surgiu a favela da Maré, como o próprio nome sugere. E desde a época das palafitas, temos não só a presença de pessoas removidas de outras favelas, mas também de nordestinos, que aqui permaneceram e hoje representam cerca de 25% da população.

Moradia, trabalho e lazer
Além de moradia, muitos encontraram também um meio de sustento, lançando negócios que estão hoje espalhados por todo o território mareense. O Parque União, por exemplo, é um dos polos nordestinos mais populares, com restaurantes, bares e shows ao vivo, trazendo toda a temática nordestina.
Já na Vila do João, Adenilson Rocha (35), apesar de ter pais cearenses, mora na Maré desde jovem. Inicialmente, ele trabalhou em restaurante, mas mais tarde surgiu a possibilidade de abrir a própria loja de produtos nordestinos: “meu primo veio com essa ideia em 2014, perguntando se não seria uma boa ideia botar aqui na Maré, uma comunidade, bem dizer, nordestina. Aí a gente viu que seria legal”.
Assim a Casa do Norte foi inaugurada, e hoje conta com o apoio de Helena Rocha (58), mãe de Adenilson, e mais dois funcionários. A iniciativa não é inédita para a família, já que Adenilson viu seu pai e tio encontrarem meios de ganhar a vida em empreendimentos no Rio.

A loja faz sucesso na venda de tapioca e possui ampla variedade de outras mercadorias de origem nordestina, como ervas medicinais, bebidas, bolachas e até temperos e perfumes com nomes curiosos, como Pega Marido, Conquista Mulher e Perfume do Boto.

Também seguindo um legado de família, André Luiz é dono de uma loja de produtos nordestinos, mas o empreendimento começou com seu pai e já existe há cerca de 70 anos. O espaço, localizado no Parque Maré, possui uma variedade de adereços e itens à venda, como sinetes, canecas e miniaturas de bois, além de lamparina e produtos de couro. Do lado de fora, há uma pintura na parede que remete ao sertão nordestino, com desenhos de cactos, um fundo cor de areia e a representação de Lampião e Maria Bonita, figuras populares do cangaço.
André também aposta na qualidade dos alimentos comercializados na Pais e Filhos, como a farinha, o feijão e a rapadura. O pescado é outro destaque da loja. “A gente vende a piaba, a sardinha, a curimatã, o bagre, o avoador (peixe-voador)”.

Herança que dá vida à favela
Mais do que ingredientes e produtos, a herança nordestina manifesta no espírito festivo, na culinária e no modo de vida que se enraizaram na Maré.
Nesse caso, o Bar do Ceará é um excelente exemplo que une bebida, música e uma variedade de comidas, todas preparadas pelos donos. Entre os pratos disponíveis, encontramos a tilápia, a carne de sol, o sarapatel, o baião de dois e o famoso caldo de mocotó, campeão de vendas.
A cearense Maria do Socorro (48) e o paraibano Antônio Freire (63) vieram ainda jovens para a Maré. E foi na Vila do Pinheiro onde se conheceram e montaram o próprio negócio. “Depois de 10 anos morando junto, né? A gente tinha um sonho de trabalhar pra gente mesmo. E surgiu esse ponto. Já vai fazer 23 anos que estamos aqui. Foi quando tudo começou. O nosso sonho, né?”, conta dona Socorro.

O Bar ganhou mais notoriedade após a participação na edição de 2024 do Festival Comida de Favela. Na ocasião, eles precisaram escolher um prato para concorrer. E a cearense não pensou duas vezes: “Veio logo em mente o caldo de mocotó, que é o mais conhecido, o mais procurado”.
Dedicado ao bom atendimento, seu Antônio divide a responsabilidade na cozinha, e está sempre de olho na opinião dos clientes. “Eu escuto eles falarem que por aqui, pra ter igual, é difícil! (…) Às vezes eu chego perto deles, ‘vem cá vocês… tá bom isso aí?’. ‘Pô Ceará, igual o teu não tem não”.

Um pedacinho de Nordeste
Às vezes, por necessidade, indivíduos — ou até famílias inteiras — precisam sair de suas terras para viver uma nova realidade no Rio de Janeiro. E sendo algo tão comum, a saudade acompanha o coração dessas pessoas. Para muitos, o reencontro com as origens acontece em meio às vielas da favela, seja no sotaque familiar, no tempero ou nas músicas que remetem o sertão.
André mora no Rio, enquanto seus pais residem em João Pessoa, na Paraíba. Mesmo viajando para visitá-los, a saudade sempre aparece. Mas acredita que estar dentro de sua loja traz boas lembranças de sua terra natal: “Quando chega aqui, já fala: ‘caraca, parece que eu tô na Paraíba, eu tô lá na casa de mainha’. Já lembra: ‘já comi isso na casa de mainha, já comi no painho”.
Mãe de Adenilson, dona Helena também viveu uma situação parecida com uma cliente: “Eu atendendo ela, e ela chorando. Aí eu perguntei para ela, ‘você está sentindo alguma coisa?’, ela riu. Falou assim, ‘não amiga, eu estou chorando de emoção. Tanta coisa aqui, parecida com a minha terra (…) eu vou levar isso, isso, isso, não sei para quem, não sei para quem”.
A relação dos nordestinos com a Maré pode dividir o coração entre o lugar onde nasceram e o território que os acolheu. A verdade é que, apesar da distância, o Nordeste permanece vivo, seja nos bares ou nas vendas de produtos nordestinos.

E como bem define André, ao falar do legado deixado por seu pai, a história continua:
“Eu era muito… O orgulho dele, né? ‘Meu filho vai seguir o meu caminho aqui’, né? Ele sempre pediu isso pra mim e hoje eu tô fazendo o que eu posso fazer o que ele fazia antes. Continuar a nossa caminhada”.
Visite os lugares mencionados na matéria:
- Bar do Ceará: Rua Edson Eloi, em frente ao Bloco 22 – Vila do Pinheiro
- Casa do Norte: Esquina da Rua Quatorze (principal) com Rua da Vitória – Vila do João
- Pais e Filhos: R. Teixeira Ribeiro, esquina com a R. Flávia Farnese – Parque Maré
Um Feliz Dia do Nordestino, do Jornal O Cidadão.





