Este ano, a Escola Municipal GET IV Centenário, localizada no Morro do Timbau, uma das 16 comunidades da Maré, foi reconhecida como uma das 50 melhores escolas do mundo ao avançar nas etapas de avaliação do prêmio World’s Best School Prizes 2026. O reconhecimento internacional veio por meio do projeto Fábrica de Sonhos: uma Maré de Possibilidades, desenvolvido desde 2023 para fortalecer o protagonismo dos alunos por meio de práticas de acolhimento, educação socioemocional e valorização da identidade. Finalista na categoria Superação de Adversidade, a escola agora disputa o primeiro lugar com outras 9 escolas de diferentes países.

Prêmio Melhores Escolas do Mundo 2026
Criado em 2022 pela plataforma T4 Education, em colaboração com a Fundação Lemann, Accenture e American Express, o World’s Best School Prizes (Prêmio Melhores Escolas do Mundo em português) reconhece escolas que desenvolvem práticas inovadoras e de impacto social, valorizando iniciativas que possam inspirar outras instituições de ensino ao redor do mundo.
O prêmio conta com cinco categorias: Colaboração Comunitária, Ação Ambiental, Inovação, Apoio a Vidas Saudáveis e Superação de Adversidades. Sendo esta última a categoria na qual a Escola Municipal GET IV Centenário concorre. A categoria em questão avalia a capacidade da instituição de ensino em transformar obstáculos e adversidades em oportunidades de aprendizagem. Por adversidades se entende questões como violência, pobreza, escassez de recursos, desastres naturais ou integração de refugiados.

A ideia de inscrever a escola na premiação partiu de Alessandra Cunha Aguiar (52), gestora do IV Centenário desde 2015. Ela conta que no final de março deste ano a escola recebeu a visita de Vikas Pota, fundador do T4 Education e idealizador do prêmio. “Na hora a gente arranjou uma pessoa e a pessoa veio traduzir para a gente. E aí o Vikas depois referendou: ‘essa escola pode ser uma escola que supera a adversidade sim e tem como entrar no prêmio’”.
Localizada na rua Nova Jerusalém, no Morro do Timbau, a escola desenvolve seu trabalho em uma região que sofreu com um aumento significativo de operações policiais nos últimos anos. No entanto, mesmo diante deste cenário, a gestão destaca que registra 0% de evasão escolar, graças ao trabalho de acolhimento e acompanhamento realizado com alunos e responsáveis. Um dia antes da entrevista concedida ao Jornal O Cidadão, por exemplo, 245 crianças estavam na escola enquanto uma operação acontecia na região.
“A operação começou 11 horas da manhã. Já estavam algumas crianças no almoço. Pelo acesso mais seguro, a gente monta, sim, um esquema de planejamento com as crianças, do primeiro ao quinto ano (…) A maioria das salas tem som, data show, televisão. E aí a gente procura, nesses momentos, usar esses artifícios. As crianças vão para o tapetinho. A gente tem os tapetes de grama na sala. Eles sentam naquele tapete, que fica sempre nos lugares menos vulneráveis da sala de aula. Esse tapete tem almofada, tem ursinhos de pelúcia. Liga-se a televisão na mesma hora, num filminho, no YouTube, na música da Fábrica de Sonhos, nos nossos vídeos. Enquanto isso, eu, a Elaine, o Luiz e a Eliane entendemos o território”.
— Alessandra Cunha Aguiar, gestora da Escola Municipal GET IV Centenário.

Quando as escolas inscritas na premiação são aprovadas, assim como aconteceu com o IV Centenário após a visita de Vikas Pota, elas participam de uma entrevista realizada por uma banca de jurados de diferentes países. Para cada uma das cinco categorias do prêmio, são aprovadas apenas 10 instituições de ensino, formando um grupo de 50 escolas reconhecidas entre as melhores do mundo. Entre diversas escolas de 100 diferentes países, o IV Centenário conquistou uma dessas vagas na categoria Superação de Adversidades. Como parte da programação do prêmio, a escola realizou, no dia 25 de junho, uma cerimônia para celebrar o reconhecimento junto à comunidade escolar.
Agora, a escola se encontra em uma nova etapa da premiação. Até o dia 29 de outubro, o público pode votar no IV Centenário como melhor escola. Essa votação faz parte do Community Choice Award, um reconhecimento definido por votação popular entre as 50 finalistas do prêmio. Para votar clique aqui.
Quanto ao prêmio principal, os vencedores de cada uma das cinco categorias serão definidos por uma banca internacional de especialistas em educação.

“A sensação é de recado dado. Nossos alunos hoje entendem que estudar vale a pena, que a gente precisa planejar, se organizar. A gente não precisa ser agora o melhor, mas precisa saber o que quer para poder traçar o futuro”.
— Alessandra Cunha Aguiar, gestora da Escola Municipal GET IV Centenário.
Fábrica de Sonhos
Pouco antes de se tornar GET, a escola já realizava atividades com uso de ferramentas tecnológicas, como a impressora e a caneta 3D. Práticas pensadas para ajudar no desempenho das crianças que vinham sendo afetadas pelas operações policiais no território.

A gestora conta que em 2022 a ideia era usar os equipamentos para fazer um trabalho de leitura e escrita com estes alunos: “As pessoas começaram a trazer que, pós-operação, as crianças ficavam muito mexidas. E aí a gente precisou pensar em algumas estratégias. Eu tinha uma turma muito difícil e uma muito boa. Juntei as duas, comprei uma impressora 3D, comprei caneta 3D e aí a gente já instaurou um projeto. As duas professoras toparam a ideia”.
Com as mobilizações para transformar a escola em GET, nasce em 2023 o projeto Fábrica de Sonhos: Uma Maré de Possibilidades. Pensado dentro da educação 5.0, que tem como objetivo integrar as tecnologias ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais, o projeto é estruturado em três pilares: acolhimento, desenvolvimento socioemocional e protagonismo dos estudantes.

“A Eliane, que é a coordenadora pedagógica, ficou com toda a parte dos responsáveis e alunos. A gente criou uma anamnese, porque a gente achou imprescindível escutar esse pai. Quem é essa família que chega no IV Centenário? Qual é a história de vida dessa família, dessa criança? Como é que ele nasceu? Como é constituída essa família? Essa criança teve algum problema? O pai senta ali com a Eliane, demora uma hora, uma hora e pouca. E a Eliane, além de contar para esse pai tudo que a escola faz, todo o trabalho da escola, essa família conta para a Eliane tudo que aconteceu com essa criança. Após essas entrevistas, ela tem ali um mapa das crianças que entraram na escola”.
— Alessandra Cunha Aguiar, gestora da Escola Municipal GET IV Centenário.

Para além destas entrevistas individuais, a escola faz uma reunião com os responsáveis dos alunos bimestralmente, onde analisam juntos as atividades feitas pelas crianças e discutem sobre o desempenho de cada uma. “Então aí a gente instituiu o pilar acolhimento às famílias, em que a gente trava uma parceria com essa família e faz aquela pessoa entender que a escola está ali junto com ela”, conta Alessandra.
Em 2024 a escola cria o Termômetro das Emoções, uma iniciativa que fortalece o segundo pilar da Fábrica de Sonhos: o pilar socioemocional. Presente em todas as salas de aula, o termômetro serve para que os professores entendam como a turma está naquele dia.
Antes do início das aulas, cada criança informa qual a sua emoção através das cores vermelho, amarelo e verde. Logo em seguida, é aberto um espaço para que desabafem e sejam acolhidas pelos professores e colegas de turma. É a partir daí que cada professor avalia como proceder com as atividades do dia, promovendo exercícios de respiração e momentos de reflexão afim de regular a emoção da turma para que ela siga com sua jornada de aprendizado.
Buscando desenvolver o protagonismo de seus alunos, a escola já começa o ano letivo trabalhando questões de identidade e território. Garantindo que as crianças conheçam o território em que vivem e como, através do estudo, podem transforma-lo em algo melhor. Assim, ao longo do ano, os estudantes desenvolvem projetos ligados à história, cultura e características do Conjunto de Favelas da Maré, o que também colabora para construir o sentimento de pertencimento no espaço.
“O professor vem com um planejamento para o começo do ano. E ele introduz esse planejamento dentro das possibilidades que aquela turma mostrou para ele. Então, a gente tem o primeiro ano trabalhando o indígena. “Timbau” é uma palavra indígena. A criança indígena tem tanto cuidado com a terra dela, tanto amor: ela planta, cultiva, pesca. Então, o nosso aluno de primeiro ano, desde pequeno, vai aprender a ter amor e a cuidar desse Complexo da Maré, dessa terra dele”.
— Alessandra Cunha Aguiar, gestora da Escola Municipal GET IV Centenário.
Participando da entrevista, Elis Maria Machado Neto tem 11 anos e é aluna do 5º ano. Ela destaca felicidade em estudar no IV Centenário, seja pelos amigos que fez no espaço ou pelas aulas e atividades que a ensinam coisas que ela não sabia, mas que gostou de aprender. “Eu diria que aqui é a melhor escola do mundo que você pode ter. Porque aqui tem sala de leitura, colaboratório, tem o auditório. E também tem a orquestra aqui que a gente pode fazer. Quando perguntada sobre os sonhos para o futuro, Elis não pensou nem duas vezes: “Meu sonho para o futuro é melhorar essa comunidade, fazer muitas coisas aqui. Mas o meu sonho que eu realmente quero é cuidar da mente das pessoas daqui”.
A escola
Fundada em 1958 no Morro do Timbau, a unidade escolar iniciou suas atividades com o nome de Escola Serpha, contando com apenas 2 salas de aula. Foi graças à reforma de 1965, realizada pela comunidade com os materiais cedidos pelo Governo, que ganhou o nome que todos conhecem hoje: IV Centenário, em homenagem ao aniversário de 400 anos da fundação da Cidade do Rio de Janeiro, celebrado naquele mesmo ano. No entanto, em 2008, o prédio foi demolido para dar lugar à atual estrutura, inaugurada em abril de 2011.
Em dezembro de 2023 a unidade foi transformada no modelo de Ginásio Educacional Tecnológico (GET) da Prefeitura do Rio e atualmente, neste ano de 2026, atende 9 turmas de horário integral, somando 260 crianças do Fundamental I.








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