Foto da capa: Ana Cristina da Silva
Nascido na Praia de Ramos, em 1959, quando as casas ainda eram feitas de madeira e ficavam sobre a água, Lindemberg Cícero da Silva acordava por volta das 6h, seu despertador era o chorinho do violão que seu pai tocava. Por mais que sua mãe o proibisse de encostar no instrumento musical, há certos amores que são impossíveis de se evitar. Talvez, o simples ato de pegar o violão escondido tenha sido o ponto de partida de tudo o que viria depois. Conheça agora a história do músico, compositor, coletor de óleo de cozinha usado, idealizador do projeto Cineminha no Beco e dono de uma bicicleta que já levou mais anúncios que muitos carros de som: Bhega Silva.
A INFÂNCIA NA PRAIA DE RAMOS
No início da década de 50, Seu Cícero Benevenuto e Dona Maria das Graças deixaram a cidade de Remígio, na Paraíba, em um caminhão chamado de Pau de Arara, que era adaptado para transportar passageiros. O destino? Rio de Janeiro. O casal de nordestinos formou raízes na Praia de Ramos, hoje conhecida pelo nome de Piscinão, onde Bhega nasceu e foi criado ao lado de outros 7 irmãos. “Brinquei muito na Praia de Ramos. Joguei bola, namorei, pesquei. E na época, na década de 70, tinha um lance da gente rapinar na praia. Era uma gaiola, um pedaço de pau que você puxava. Num dia de sorte, podia vir um cordãozinho, uma pulseirinha, ou até umas moedinhas”, conta o mareense.

Com uma história marcada pela pesca, a Praia de Ramos teve um aumento significativo no número de pescadores na década de 60. Algumas das lembranças afetivas e vívidas na memória de Bhega, hoje aos 67 anos, é a de buscar os peixes que eram distribuídos pela Colônia Z11, quando ainda era apenas uma criança. “Tinha que chegar cedo, 5 horas da manhã. A minha mãe acordava 4h30: ‘Bhega! Pega peixe’. Aí eu ia correndo, com a bolsinha de couro, ia para lá e levava. Aí os pescadores falavam assim: ‘é para levar o peixe, não é para estragar o peixe não’. Aí era peixe de manhã, peixe de tarde, peixe de noite, peixe com pão, peixe molhado, peixe seco, peixe frito”, ri ao se lembrar.
BHEGA E A MÚSICA
Dentre suas inúmeras lembranças da Praia de Ramos está o balneário que existia onde hoje se encontra o EDI Armando Salles de Oliveira. Bhega lembra que naquele balneário as pessoas se reuniam para tomar cerveja, conversar e tocar serestas, como era o caso de seu pai, que era músico. “O repertório dele era mais chorinho. Ele fazia violão de sete cordas, violão de seis cordas. Então ele era muito convidado para tocar na Rádio Nacional, nas outras rádios, acompanhava os artistas. Ele não cantava, ele fazia baixo e solo”.
Apesar de acordar com o pai dedilhando o violão todas as manhãs, vê-lo se apresentando na rua e tocando em rádios, Bhega não aprendeu com ele. Na verdade, sua mãe, Dona Maria, proibia os filhos de tocarem no instrumento. Medo de quebrar? Não! Como diz Bhega, era “o medo de virar Cícero Benevenuto também: virar boêmio”, mas no fim do dia, isso não impediu o mareense de atender ao chamado da arte. Foi com 13 anos que ele começou a aprender por conta própria o instrumento que viria a se tornar um de seus grandes companheiros.

“Naquela época, boêmio era considerado vagabundo, não queria trabalhar, não queria nada. Aí minha mãe falou assim: ‘Aqui ninguém vai pegar violão’. Aí eu pegava escondido (…) eu comecei a aprender a afinar o violão, porque eu podia afinar o violão de outros amigos e aí não precisava pegar o de casa”.
Em meados da década de 70, a escola de Bhega participou de um festival de música na Suam, hoje conhecida como Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM). A professora estava à procura de alguém que tocasse violão e logo alguns dedos apontaram na direção de Lindemberg. Na época, a mãe de Bhega já havia falecido há algum tempo, por conta de um câncer de mama. No entanto, seu pai continuava sem saber que ele pegava o violão escondido para tocar. Foi então que a professora apareceu em sua casa para pedir pessoalmente a Seu Cícero que emprestasse o violão para Bhega se apresentar.
Aí ela pegou um coral com três meninas fazendo a primeira, a segunda e a terceira voz. Pegou um menino tocando pandeiro e um surdo. Cara, ensaiamos dois dias pra apresentar no festival na Suam (…) Quando me chamaram eu tremia muito, mas eu cantei a musiquinha. Aí o pessoal me deu um reforço, porque eu abria e eles faziam o coral. Ficamos em terceiro lugar. Eu tinha Entre 15 a 16 anos”.

Depois disso o mareense pegou gosto de verdade pela música. Sem nunca ter feito aula de violão ou canto, ele se inspirava nas vozes que, através da rádio, preenchiam os ambientes da sua casa na infância. Vozes como as de Luiz Gonzaga, Alceu Valença e Nelson Gonçalves. Para aprender a tocar violão ele lia revistas que mostravam as cifras das músicas e pegava muita coisa vendo artistas na televisão: “ficava vendo um programa do Chacrinha. Quando os cantores tocavam eu ficava na frente da televisão pra ver as notas que eles estavam fazendo. Aí eu escrevia rapidinho, assim, né? Dó, ré, fá”.
Em 1981, Bhega, que já escrevia as próprias músicas, participou de um festival na Escola Bahia. Apresentando a música Rosa Morena, escrita em homenagem à sua esposa, Rosangela da Silva, Bhega disputou com aproximadamente outras 20 músicas em um festival que durou três semanas. “Aí quando falaram: ‘primeiro lugar… Lindenberg, Rosa Morena!’ A escola quase caiu, cara. Porque eu já tocava em Ramos, a galera já me conhecia, cantava junto. Na época eu ganhei 500 cruzeiros. Eu coloquei a metade da laje da minha casa”.

Bhega, que se mudou para o Parque União, onde vive até hoje, passou a se apresentar nas ruas, bares e festas. Compôs diferentes músicas e se tornou conhecido na região da Maré. Foi quando seus amigos começaram a incentivá-lo a gravar um CD, já que músicas ele tinha de sobra. Sem dinheiro para isso, Bhega contou com o apoio da família, de amigos e conhecidos que contribuíram com pequenas doações em dinheiro e venda de rifas. Em 1997, com a ajuda de outros instrumentistas, ele gravou seu primeiro CD: Bhega em Arquivo.
Criando canções a partir de coisas que via, ouvia e vivia, Bhega escreveu a canção A Sete Chaves após ouvir o desabafo de um casal de amigos que havia se separado. Já foi parado na rua por uma senhora inconformada com o marido, o inspirando a criar a música Antônio do Galinheiro. Mas também fez músicas que marcam sua identidade mareense e seu amor pela Praia de Ramos, como as canções Cria da Favela e S.O.S Praia de Ramos. Essa última escrita após o desastre ambiental ocorrido no ano de 2000, quando um oleoduto da Petrobras vazou cerca de 1,3 milhão de litro na Bahia de Guanabara, poluindo a Praia de Ramos.
“Aí o Viva Rio veio fazer o abraço da Praia de Ramos (um protesto exigindo a despoluição da região), aí veio Paula do Vôlei e um montão de artistas, eu já levei o violão e falei assim: ‘posso me apresentar rapidinho pra vocês?’, me perguntaram: ‘Tu é músico?’, respondi: ‘Eu sou músico, faço programa de rádio aqui na rádio comunitária’. Aí eu comecei a cantar pra um monte de gente e o cara falou assim: ‘vamos fazer o seguinte, amanhã, oito horas, posso encontrar você aonde?’ Eu falei: ‘Me encontra aqui na passarela 10, porque eu moro no Parque União’, aí veio o carro da Globo me buscar, perguntei: ‘pra onde vocês tão me levando?’, ‘você vai sobrevoar de helicóptero, vai cantar essa música, fazer a chamada do S.O.S Praia de Ramos’. Aí eu entrei cantando ao vivo no RJTV”.
Assista:
Em 2008, Bhega gravou seu segundo CD: Paz, Amor e Natureza, onde reúne músicas voltadas à conscientização e à educação da população sobre questões de saúde e meio ambiente, como Dia D da Dengue, muito tocada em escolas para ajudar na campanha; Não Soltem Balão, falando sobre os perigos de se soltar balões, como nas festas de São João, além de músicas sobre crimes ambientais e até sobre o Canal do Cunha. Em 2010, gravou seu terceiro CD: Perseverança.

CINEMINHA NO BECO
Bhega, que já trabalhou como office boy, com produção de pedras preciosas, carregando malas no aeroporto e até como segurança de escola, se viu desempregado em 2012. Buscando uma forma de ganhar dinheiro para pagar as contas, ele observou os carros de som que passavam pela favela fazendo anúncios. Percebeu que becos e ruas estreitas eram esquecidos, porque não tinham espaço para que o carro passasse ali, foi então que teve a ideia de colocar uma caixa de som em sua bicicleta para levar todo tipo de informação pelas ruas da Maré, desde anúncios de inscrições do Enem até anúncio de campanhas de vacinação. “O que vinha eu caía dentro”, conta Bhega. Ele ainda aproveitava o trajeto para tentar vender seus CDs e conseguir um dinheiro extra.
Foi quando Bhega, através dos anúncios que fazia, percebeu que muitas pessoas e projetos entravam na favela, faziam eventos, festas e cursos, mas logo abandonavam o local:
“Quem ficava na favela? O Bhega. Aí as crianças me viam passando, falavam assim: ‘ô tio, cadê o palhacinho?’ O garoto lá na Teixeira bateu no meu ombro: ‘Tio, cadê o palhacinho? Cadê o cinema? Cadê o teatro?’ Falei assim: ‘ó, aquele pessoal que mandava fazer isso. O tio só recebia pra fazer a propaganda. Mas quem sabe um dia a gente vai ter o nosso próprio cinema?’”
A partir desse incômodo, Bhega começou a pensar em formas de montar um cinema de rua para as crianças. Foi quando se lembrou que no ano de 2008, para conseguir dinheiro para gravar seu segundo CD, fez coleta de óleo de cozinha usado.
“Eu passava nas lixeiras, via muito óleo jogado fora. Via gente jogando no valão, nos ralos, na pia. Jogavam de qualquer forma. Aí quando chove já viu, né? Fui pesquisar e descobri que 1 litro de óleo polui 25 mil litros de água. Pensei: ‘Vai ser uma forma da gente conscientizar, ajudar a natureza e a natureza ajudar a gente’. Aí comecei a catar o óleo (…) Você pegando de porta em porta, vem resíduo, vem cabeça de frango, linguiça, resto de peixe frito. Aí eu tinha que coar, porque se chegasse lá na refinaria, o cara que recolhia, falava assim: ‘ó, tem tanto de lixo aqui, vamos descontar em cima do óleo’. Aí eu já deixava coadinho, ia limpinho, parecia até mel”.
Com o dinheiro do óleo, Bhega comprou um aparelho de DVD e um toldo branco. Um tempo depois, após ser contratado para fazer uma música para um mercado da Teixeira Ribeiro, Bhega foi presenteado com um projetor. Assim, em novembro de 2013 aconteceu a primeira edição do Cineminha no Beco, em um beco sem saída, lá no Piscinão de Ramos. “Botei o toldo, aí liguei o projetor na bicicleta. Aí as crianças: ‘Que isso aí, tio?’ respondi: ‘Tá nascendo um novo cineminha’”.

Uma das mães das crianças emprestou um bandeirão e o forrou no chão para que as crianças se sentassem para assistir à exibição, que contou com episódios de desenhos como Luluzinha e Pica-Pau. Outra mãe contribuiu com pipoca e refrigerante. Nessa primeira edição cerca de 10 crianças marcaram presença.
Hoje, com mais de 300 edições, dentro e fora da Maré, Bhega chega a reunir até 100 crianças em uma única exibição. Sendo elas as responsáveis pela escolha dos filmes que serão exibidos. Elas já chegam animadas, pois já sabem que, como anuncia Bhega: a entrada é um sorriso.
O projeto ficou tão famoso, que após parar no site da UOL chegou até a produção do programa de Xuxa Meneghel, na Record TV. Eles gravaram com Bhega em um galpão na rua Gerson Ferreira, no Piscinão de Ramos.
“Eles trouxeram um ventilador, parecendo aquele ventilador de Hollywood. Aí daqui a pouco eu tô vendo aquele portão abrir, eu pensei que era um carrinho da Kibon aí era a Xuxa Meneghel. O pessoal começou a gritar. Aí ela falou assim: ‘ô Bhega, que coisa linda o teu projeto. Olha, olha o que eu trouxe pra você. A Motocar gostou do teu projeto e nós estamos doando’. Aí veio caixa de som, projetor, tela, pipoqueira. Até gasolina veio. Tenho até hoje”.
Assista:
Atualmente, um de seus tantos sonhos é poder passar o bastão para a própria família. Afinal, houve um tempo em que era apenas ele e a esposa Rosangela da Silva, sua eterna Rosa Morena, mas hoje ele se enche de orgulho ao falar da filha, Thainá da Silva, que o deu dois lindos netos: Caleb, de 3 anos, e Aurora, de 1 ano.
Bhega lembra dos tempos em que trabalhava como segurança de escola, ele se apresentava com o violão para as crianças durante o recreio. Com intenção de contribuir com a campanha, sempre tocava a música da Dengue. Para que as crianças não tivessem medo, levava Thainá, com apenas 6 aninhos, vestida de mosquito, para o ajudar na apresentação. Hoje, aos 24 anos, ela o ajuda com as redes sociais e também com o Cineminha, um trabalho que ele adoraria que fosse continuado pela filha, quando ele não puder mais conduzir o projeto. “Deus me deu dois presentes: A música e minha filha”.
UM DOS MAIORES PERSONAGENS DA MARÉ
Aos 67 anos, Bhega ainda é visto por aí pra cima e para baixo em sua bicicleta, levando informação através de sua caixa de som pelas ruas da comunidade. Ainda é motivo de festa para as crianças que o encontram pelas ruas, ansiosas por mais uma edição do cineminha. Suas músicas ainda podem ser escutadas por aí e seu violão ainda é seu fiel companheiro. Você ainda o vê coletando óleo e hoje ele conta até com um ecoponto no Piscinão de Ramos.

Ao longo dos anos, Bhega Silva atravessou a Maré distribuindo amor e histórias, o resultado foi um grande número de amigos e apreciadores de seu trabalho. Como dito no início deste texto, não é possível afirmar, mas talvez tudo isso só tenha acontecido, pelo simples ato de ter pego um violão escondido dos pais, quando era apenas um garoto de 13 anos.
Em sua longa trajetória, o mareense já participou de projetos, como a gravação do CD Forró na Estrada, onde cantou a música Jura, dos compositores Sinhô e D.P, famosa na voz de Zeca Pagodinho. Deu entrevista para inúmeros jornais e programas de rádio e televisão. Se apresentou para diferentes públicos e numa dessas, recebeu até um abraço de Gilberto Gil, que na época era ministro da Cultura. Recebeu o Prêmio Extraordinários, uma iniciativa do jornal EXTRA, em parceria com a ONG AfroReggae, que homenageia e reconhece projetos sociais de destaque e transformação nas comunidades e também foi homenageado no quadro Relíquia, do RJTV.

Pelo Jornal O Cidadão, Bhega também já marcou presença algumas vezes, onde foi apresentado como trovador e compositor da Praia de Ramos, na edição impressa de número 27. Desta vez, porém, não registramos uma notícia, mas um pedaço da história de um dos maiores personagens do Conjunto de Favelas da Maré. Uma singela homenagem ao defensor do meio ambiente, mensageiro da alegria, promotor da arte e, principalmente, um grande e querido amigo da favela da Maré.






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