Foto de capa: Ana Cristina da Silva.


Para muitas pessoas, 27 de setembro é lembrado como o dia de sair à procura dos tradicionais saquinhos de doces de Cosme e Damião. Na Igreja Católica, porém, a memória litúrgica dos dois santos acontece no dia 26. As duas datas ajudam a contar uma história que, no Brasil, ultrapassou os limites de uma única religião e ganhou formas próprias na cultura popular.

Na Maré, essas diferentes maneiras de lembrar Cosme e Damião aparecem não apenas nas ruas, mas também em espaços religiosos do território. Na Nova Holanda, padre Pedro Henrique Rodrigues Ribeiro, de 34 anos, ordenado em 2022, atuante na Maré desde 2021 e pároco da Paróquia Sagrada Família desde julho de 2024, apresenta a história e o significado dos santos dentro do catolicismo. Na Baixa do Sapateiro, Cida de Oxum, de 64 anos, com 34 anos de trajetória religiosa e zeladora da Tenda Espírita Cabocla Jurema da Mata, explica a relação da celebração com a Umbanda, os erês, a linha das crianças e a distribuição de doces.

Para compreender como, no Brasil, a história de dois médicos cristãos martirizados no século III passou a se relacionar com crianças, doces e diferentes tradições religiosas, o Jornal O Cidadão reuniu as perspectivas das duas casas e buscou referências sobre a presença de Cosme e Damião na cultura popular.

Dos médicos à devoção brasileira

Na tradição católica, Cosme e Damião são apresentados como irmãos gêmeos cristãos que viveram no século III. Segundo o Vatican News, eles nasceram na Arábia, estudaram medicina na Síria e ficaram conhecidos como anárgiros, expressão de origem grega associada à ideia de “sem prata”. Os irmãos foram martirizados — isto é, mortos por causa da fé que professavam — durante as perseguições aos cristãos no período do imperador romano Diocleciano.

Padre Pedro explica o sentido da expressão ligada aos irmãos. “Muitos até os chamavam por uma expressão: ‘sem prata’, porque eles não cobravam dinheiro para cuidar dos enfermos”, conta. Para o pároco, essa disposição para servir gratuitamente ajuda a resumir uma das principais mensagens deixadas pelos santos: a caridade.

Padre Pedro Henrique Rodrigues Ribeiro destaca a caridade como um dos principais ensinamentos deixados por Cosme e Damião. Foto: Ana Cristina da Silva.

Em uma série de vídeos dedicada a Cosme e Damião, o historiador, professor e escritor Luiz Antonio Simas, mestre em História Social pela UFRJ e autor de As três estrelas do céu: Cordel para Cosme e Damião, aponta Igarassu, em Pernambuco, como um ponto fundamental para a disseminação do culto aos santos pelo Brasil.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registra que a Igreja dos Santos Cosme e Damião, construída na cidade a partir de 1535, é considerada a igreja mais antiga ainda existente no país. A devoção permanece marcante em Igarassu. A matriz conserva relíquias atribuídas aos santos — pequenos fragmentos de ossos que, segundo a prefeitura da cidade, foram enviados pelo papa João Paulo II — e as celebrações locais incluem missas, procissões, pagamento de promessas e distribuição de doces.

Foi em território brasileiro, entretanto, que essa devoção também se encontrou com tradições africanas e ganhou características próprias.

Ibejis, erês e Doum

Entre os povos africanos trazidos à força para o Brasil durante o período da escravidão estavam os iorubás, povos da África Ocidental, sobretudo de regiões que hoje fazem parte da Nigéria, do Benim e de países vizinhos, que compartilham referências culturais e uma língua também chamada iorubá.

Nessa tradição aparecem os Ibejis, figuras sagradas ligadas aos gêmeos. O próprio nome remete à ideia de “nasceram dois”. Simas explica que, no Brasil, Cosme e Damião passaram a ser associados aos Ibejis no encontro entre diferentes tradições culturais e religiosas.

Essa aproximação é um exemplo de sincretismo religioso, nome dado ao processo em que elementos de religiões diferentes entram em contato, são associados e podem adquirir novos significados. Isso não quer dizer que os santos católicos e os Ibejis sejam simplesmente a mesma coisa, mas ajuda a explicar como referências distintas passaram a conviver na religiosidade brasileira.

Na Umbanda praticada pela Tenda da Baixa do Sapateiro, Cosme e Damião são relacionados à linha das crianças e à energia dos erês. Simas explica que a palavra erê tem origem iorubá e está ligada à brincadeira, à diversão e ao jogo. No Brasil, o termo passou a ser fortemente relacionado à criança. Na Umbanda, pode designar entidades infantis. Já no Candomblé, segundo o historiador, erê não é entendido como um espírito de criança, mas como um estado de consciência brincalhão entre o transe do orixá e o retorno da pessoa ao seu estado habitual.

Detalhes da Tenda Espírita Cabocla Jurema da Mata compõem a decoração preparada para a celebração dedicada à linha das crianças. Foto: Ana Cristina da Silva.

Outra particularidade encontrada em muitas imagens brasileiras é Doum, a terceira criança representada junto aos gêmeos. Doum não faz parte da tradição católica e, portanto, não é um terceiro santo. Sua presença está relacionada às tradições afro-brasileiras e à forma como referências de origem africana ganharam novos significados no Brasil.

Simas relaciona a figura ao Idowu da tradição iorubá, nome dado à criança que nasce depois de um parto de gêmeos. Essa referência ganhou novos contornos durante a diáspora africana — processo de dispersão de povos africanos por diferentes partes do mundo, que no Brasil foi marcado principalmente pela chegada forçada de pessoas escravizadas e pela preservação e reconstrução de suas culturas longe de seus territórios de origem — e passou a aparecer no país como Doum. Para Cida de Oxum, zeladora da Tenda Espírita Cabocla Jurema da Mata, ele representa o irmão caçula e está ligado à pureza e à inocência infantil.

Afinal, dia 26 ou 27?

A existência de duas datas costuma provocar uma dúvida: afinal, qual é o dia de Cosme e Damião? A resposta depende da tradição observada.

Na tradição católica, é comum que a data da morte de um santo seja tomada como referência para sua celebração. No caso de Cosme e Damião, porém, não há uma referência histórica segura sobre o dia em que os irmãos morreram. Simas explica que o 27 de setembro, na verdade, ficou tradicionalmente relacionado à dedicação da Basílica dos Santos Cosme e Damião, em Roma.

Luiz Antonio Simas ajuda a contextualizar a presença de Cosme e Damião na cultura popular brasileira. Foto: Beta Bernardo.

No fim da década de 1960, o papa Paulo VI promoveu uma reforma do Calendário Romano Geral. Como o dia 27 também era dedicado a São Vicente de Paulo, Cosme e Damião passaram a ser celebrados pela Igreja no dia anterior. A reforma foi promulgada em 1969 e atualmente o Vaticano registra a memória litúrgica dos santos em 26 de setembro.

A mudança, entretanto, não retirou o dia 27 da cultura popular brasileira. A data continuou relacionada à distribuição de doces, às celebrações de tradições afro-brasileiras e a diferentes formas de devoção popular. Na Maré, as duas referências também aparecem nesta reportagem: padre Pedro aponta o dia 26 como a data adotada pela Igreja Católica, enquanto a Tenda mantém sua celebração em 27 de setembro.

Não se trata, portanto, de decidir qual das duas datas está “certa”. O dia 26 corresponde atualmente à celebração litúrgica católica; o 27 permaneceu fortemente enraizado na cultura popular e em religiões de matriz africana.

Por que os doces?

A ligação entre Cosme e Damião e os doces também não possui uma explicação única.

Simas recupera uma narrativa da tradição popular segundo a qual os irmãos, além de tratarem crianças doentes gratuitamente, ofereciam doces a elas para trazer alegria durante o processo de recuperação. É uma história transmitida pela tradição, e não um acontecimento histórico comprovado, mas ajuda a entender uma das explicações populares para a associação dos santos aos doces.

Distribuição de doces e brinquedos para crianças integra a celebração de Cosme e Damião realizada pela Tenda Espírita Cabocla Jurema da Mata. Foto: Ana Cristina da Silva.

No Brasil, outras tradições se somaram a essa relação. Cida aponta uma delas ao explicar que a distribuição também pode surgir para “pagar promessas”. Nesse contexto, pagar uma promessa significa cumprir um compromisso religioso assumido anteriormente, muitas vezes como agradecimento por uma graça ou por um pedido considerado atendido. A pessoa pode, por exemplo, prometer distribuir doces às crianças. O compromisso religioso está em quem fez a promessa e realiza o gesto de agradecimento; receber o saquinho não exige que a criança compartilhe daquela crença.

O projeto Doces Santos, desenvolvido desde 2013 pelo Laboratório de Antropologia do Lúdico e do Sagrado (Ludens), do Museu Nacional/UFRJ, mostra como a prática vai além de uma única explicação religiosa. No Rio de Janeiro e em municípios vizinhos, a distribuição dos saquinhos remonta pelo menos à primeira metade do século XX e envolve diferentes religiões, relações de vizinhança e formas de convivência nas ruas. A própria pesquisa trabalha a distribuição como uma forma de generosidade e mostra como crianças e adultos colocam a cidade em movimento no dia da celebração.

Memórias de Cosme e Damião na Maré

Na Maré, essa movimentação também marcou gerações de crianças. Antônio Carlos Vieira, pesquisador da história da Maré há mais de 30 anos, um dos fundadores do CEASM e do Museu da Maré e integrante da diretoria colegiada das duas instituições, lembra que o dia 27 de setembro era muito aguardado e que havia diferentes formas de conseguir os tradicionais saquinhos. Algumas distribuições eram feitas “com cartão”: moradores entregavam antecipadamente pequenos cartões com o dia, o horário e o local da entrega, garantindo os doces a quem os apresentasse. Nas distribuições “sem cartão”, não havia aviso prévio e a notícia corria entre as crianças assim que a entrega começava.

Segundo Antonio Carlos, naquele dia era comum ver crianças andando em grupos pelas ruas, carregando bolsas e passando horas “caçando” doces. Os saquinhos costumavam ser de papel, com imagens de Cosme e Damião, e reuniam balas, doces variados, bolos e, algumas vezes, pequenos brinquedos. Algumas casas também preparavam mesas com bolo, refrigerante e outras guloseimas, enquanto famílias com mais recursos chegavam a distribuir bolas, bonecas, petecas e peças de roupa.

Antonio Carlos Vieira, em registro de arquivo. Pesquisador da história da Maré, ele relembra como crianças percorriam as ruas do território em busca de doces no dia de Cosme e Damião. Foto: Ana Cristina da Silva.

Outra prática lembrada por ele era o chamado “avanço”, quando doces e até dinheiro eram jogados para que as crianças disputassem o que conseguissem pegar. Antonio Carlos recorda ainda que, embora o dia 27 concentrasse a festa, algumas distribuições continuavam até 12 de outubro, Dia das Crianças.

Antes de chegar à Maré, Cida de Oxum morava em Campo Grande, na Zona Oeste. A zeladora também guarda lembranças da tradição desde a infância. “Sempre corria atrás de doce”, recorda. “Na minha época, amarrávamos os saquinhos de doces no barbante.” Ao comparar aquele período com o presente, ela percebe uma mudança: “Hoje se distribui bem menos doce do que antigamente”.

Cida de Oxum relembra a tradição de buscar doces de Cosme e Damião desde a infância e percebe uma redução na distribuição ao longo dos anos. Foto: Christóvão Carvalho.

Antonio Carlos também percebe uma transformação. Segundo ele, hoje são menos comuns as mesas preparadas nas casas e diminuiu o número de pessoas que distribuem doces, além de os antigos saquinhos de papel terem sido substituídos, em grande parte, por embalagens plásticas.

O Jornal não possui um levantamento que permita afirmar o quanto essa prática diminuiu especificamente na Maré. A percepção de Cida e Carlinho, porém, encontra paralelo no Doces Santos, que registra que há analistas que apontam uma redução da distribuição e investiga como as relações entre diferentes crenças e as formas de convivência no espaço urbano atravessam a festa. Cida também ressalta que o costume não pertence exclusivamente à Umbanda: católicos e pessoas com diferentes relações com a religião também podem distribuir doces. Nesse ponto, a prática ultrapassa os limites de uma única crença e passa também a integrar a cultura popular.

Na Maré, a tradição continua

Na tarde deste 27 de setembro, a Tenda Espírita Cabocla Jurema da Mata, localizada na Rua da Proclamação, nº 27, na Baixa do Sapateiro, realizou uma distribuição de doces e brinquedos para as crianças da comunidade, dando continuidade a uma ação já promovida anteriormente pela casa. A entrega começou às 15h e foi seguida, às 16h, por uma gira de erê dedicada à linha das crianças.

A Tenda, na Baixa do Sapateiro, mantém sua celebração de Cosme e Damião em 27 de setembro. Foto: Ana Cristina da Silva.

A Tenda existe há três anos e reúne atualmente 26 filhos da casa. Em agosto, o Jornal O Cidadão contou a trajetória do espaço e de Cida de Oxum, que define a caridade como princípio de sua atuação. Nas celebrações de Cosme e Damião, a casa também dedica cantos e alimentos aos erês. “Cantamos para os erês, cada erê tem sua comida preferida”, conta a zeladora.

Na Nova Holanda, padre Pedro apresenta a perspectiva católica a partir da Paróquia Sagrada Família. Ele explica que a memória dos santos integra o ano litúrgico da Igreja e que as celebrações podem envolver missa, leituras próprias e ladainhas e, nos lugares onde a devoção é mais forte, novenas, tríduos e procissões.

Paróquia Sagrada Família, na Nova Holanda, integra a presença católica no território da Maré. Foto: Ana Cristina da Silva.

Para o padre, a lembrança de Cosme e Damião está principalmente ligada ao exemplo deixado pelos irmãos e à maneira como colocaram seus conhecimentos a serviço dos outros. Ao falar sobre o ensinamento dos santos, ele destaca “a caridade, de um serviço gratuito, desinteressado, de amor pelo próximo, seja ele quem for”.

Um saquinho de doces pode ter sido preparado para cumprir uma promessa, pode estar relacionado aos erês ou aos Ibejis, pode manter um costume familiar ou simplesmente partir de alguém que deseja fazer uma criança feliz. O significado religioso não precisa ser o mesmo para todas as pessoas para que exista um gesto concreto de partilha.

Séculos depois de Cosme e Damião terem vivido, a tradição construída em torno de seus nomes permanece viva e continua ganhando novos significados. Na Maré, neste fim de setembro, ela volta a encontrar as ruas, as casas religiosas e, principalmente, as mãos das crianças.

Feliz Dia de Cosme e Damião.

Saquinhos de doces mantêm uma tradição associada a Cosme e Damião que atravessa diferentes crenças e gerações. Foto: Ana Cristina da Silva.

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