
Ancestralidade e cotidiano são temas de exposições no Museu da Maré
Por Ana Cristina da Silva
Foram inauguradas duas exposições no mês de março no Museu da Maré, ambas produzidas por mulheres mareenses. Primeiro, no dia 21, aconteceu a abertura da exposição Sagradas Raízes, de Leona Kalí. As pinturas da artista falam sobre mulheres e ancestralidade, tendo como foco a sua própria vivência. Já no dia 25, Rute dos Santos apresentou para o público o seu conjunto de obras intitulado “Existe Vida Aqui”, que através de cores e pinturas vibrantes mostra o cotidiano de quem vive na Maré.
As duas exposições integram o espaço através do Programa de Exposições Temporária de Artistas Mareenses no Museu.
Sagradas Raízes

Sendo Sagradas Raízes uma exposição muito íntima da artista, é inevitável falar das pinturas e não falar sobre Leona Kalí. A multiartista de 28 anos é moradora da Vila do Pinheiro e é a caçula de 4 irmãs. Seu primeiro contato direto com a arte foi aos 16 anos, quando ingressou no Entre Lugares Maré. Ali despertou o interesse não só pelas artes cênicas, mas pela arte de um modo geral. No entanto, foi só por volta de 2020, pouco antes da pandemia que, com o incentivo de uma amiga, começou a pintar quadros.
“A pintura foi algo que me salvou, mentalmente, da pandemia. Inicialmente, eu comecei muito com um autorretrato de como eu me imaginava, como eu queria ser, um lugar que eu queria estar ou como eu estava me sentindo. E aí, fui começando sem pretensão nenhuma, sem pensar numa coisa muito perfeita, sem simetria. Para mim a pintura é uma forma de terapia também. E nada melhor do que ter a arte como uma terapia, para além de profissão”.
— Leona Kalí.

A arte pintada e exibida nos quadros de Leona falam muito sobre suas vivências. E, para a mareense, tal representação não seria possível se não falasse sobre a ancestralidade feminina. “Minha vida inteira é sobre mulheres, meus atravessamentos como mulher preta, artista e favelada. Eu sou criada apenas pela minha mãe, que é minha mãe e meu pai, desde os 7 anos de idade, eu tenho quatro irmãs e eu tenho seis sobrinhas. Então não tinha como eu não falar de mulheres”, conta Kalí. Segundo a mareense, a parte materna de sua família tem descendência indígena, especificamente do povo Tupinambá. Foi pensando nessa descendência que Leona pintou o quadro Cabocla Coral. Sendo um autorretrato, o quadro expressa o sentimento da artista ao confrontar suas origens.
Sobre o quadro Cabocla Coral:
“Esse foi um autorretrato de como eu estava me vendo naquele momento, porque cada vez que eu me aproximava do povo originário, indígena, como eu sou uma mulher preta, teve um: ‘Calma aí! O que você é?’, e aí eu comecei a me questionar quem eu era de verdade. As pessoas estavam falando, não queriam que eu fosse, ou se eu era mesmo. Porque, é um fato, não tem para onde correr. E aí, eu me pintei daquela forma. Foi um autorretrato querendo mostrar isso, como eu me vejo, como eu sou. Por mais que as pessoas não me vejam dessa forma, o meu íntimo, a minha ancestralidade, afirmam que é isso. Então, eu pintei uma indígena, que era eu, chorando. E a cobra secando a lágrima, como se fosse a sabedoria e a ancestralidade me acalmando, e o caminho que ela vai percorrer até o coração, onde tem um buraco vazio, onde isso vai me preencher”.
Além de atuar e pintar, Leona também divide seu tempo entre o trabalho de carteira assinada, onde cumpre uma carga horária de 8h por dia, e a graduação na Casa das Artes de Laranjeira (CAL). Devido ao dia a dia corrido, a moradora do Pinheiro levou cerca de um mês e meio para concluir as obras e montar a exposição. E, como Sagradas Raízes aborda a sua vivência, o posicionamento da exposição também foi algo pensado pela artista, que expôs suas obras dentro da exposição de longa duração do Museu da Maré, que conta a história da comunidade dividindo-as em 12 tempos. As obras de Leona podem ser encontradas entre o Tempo do Trabalho e o Tempo do Cotidiano. “Eu me sinto lisonjeada por esse convite. Eu amei muito, de verdade. Tem um significado muito especial para mim. Estar no meio de tantas pessoas e poder estar um pouco, também, ali, junto com a Dona Orosina e de toda a história da Maré, me sentindo mais pertencente do que eu já me sinto. Que possam vir outras e outras exposições, que os caminhos estejam abertos, que possamos sempre prosperar e ter saúde”, expressa a artista.
Existe Vida Aqui

Assim como Leona, Rute Santos, de 19 anos, mora na Vila do Pinheiro e começou seu trajeto no mundo das artes plásticas no período da pandemia. Apesar de ter começado a praticar com quadros e telas, utilizando tinta a óleo e tinta de tecido, Rute começou a ser muito requisitada pelas suas pinturas em murais, feitas em residências e em comércios. Tanto no CEASM quanto no Museu da Maré é possível encontrar a arte de Rute nas paredes. Por conta disso, todos os quadros exibidos na exposição foram feitos exatamente para aquela ocasião. “Quando eu fui convidada para a exposição eu não tinha quadro nenhum. As telas que eu tinha eram sob encomenda, então eu fazia e vendia. As telas que eu tô expondo hoje foram todas feitas nesse último mês de março, então foi uma correria. Mas eu também trouxe um pouco desses meus trabalhos em murais”, conta a artista plástica.
Para além dos quadros, a exposição Existe Vida Aqui também conta com pinturas no chão e nas paredes, assim como algumas fotografias que mostram o cotidiano dos moradores da Maré. Segundo a artista, o objetivo é apresentar, através da arte, o cotidiano de quem vive na Maré. Destacando que na favela a vida acontece a todo o momento, desde uma ida à feira até o caminho da escola para a casa, feita na companhia de um parente.
“Eu tentei trazer isso com os meus trabalhos, do que é a natureza, relacionando ela a essa vida que cresce e a gente não vê. Essa vida que o pessoal que não mora aqui dentro acaba marginalizando, taxando aqui (a favela) como se fosse algo sem vida mesmo. Como se fosse um lugar em que podem entrar e fazer mais de 40 operações, que nem no ano passado (…) A gente sabe dessa influência da criminalidade, do lixo… mas ainda assim é um lugar que a gente tem acesso a rede de apoio, tem o CEASM, tem espaços que tentam oferecer essas exposições, dão acesso a arte. Então é mais um grito, né. É sobre ter esperança de ainda assim querer viver aquilo que tentam tirar da gente e da gente continuar crescendo independente do que aconteça”.
— Rute Santos.
Segundo a artista, a inspiração para cada quadro veio a partir da percepção dos espaços que ela mesma frequentava dentro da Maré, das pessoas e do cenário que frequentemente via. Uma das pinturas exibe uma mulher segurando a mão de uma criança vestindo uniforme escolar. A inspiração para essa pintura foi a capa da última edição impressa do jornal O Cidadão, distribuída em 2024 na comunidade. Tanto na foto de capa, quanto no quadro de Rute, se encontra a figura de Marilene Nunes, moradora da Nova Holanda e seu neto Asafe Lucas voltando para casa.

“Conforme eu fui fazendo esse experimento de observar por onde eu passava e quem eram as pessoas que passavam por mim, eu percebi que era tudo muito íntimo, todo mundo se conhece, todo mundo acaba tendo as mesmas experiências, todo mundo acaba tendo os mesmos espaços. Então, por exemplo, a obra que todo mundo falou que parece a Marilene e o neto dela, é uma obra que todo mundo bate o olho e vê o que você vê quando tá, por exemplo, num fim de tarde, com a mãe tia ou avó indo buscar a criança na escola. Então assim, é sempre aquela imagem que a gente acaba vendo. Quando a gente deixa isso centralizado numa obra, a gente representa essas pessoas que estão o tempo todo ali e a gente acaba não percebendo”.
Sagradas Raízes e Existe Vida Aqui ficarão no Museu da Maré até o dia 25 de abril e podem ser visitadas de terça a sexta, de 10h às 13h e de 14h às 18h. Aos sábados o Museu da Maré abre para o público no horário de 10h às 14h.
Endereço: Avenida Guilherme Maxwell, 26 – Maré.