
Por dentro do Tijolinho
Foto de capa: Kamila Camillo
Texto por Carolina Vaz
No início, lá no início mesmo, era CHP. De CHP virou Duplex, mas a “favela” da Maré da qual estamos falando é o Tijolinho. Com esse nome simpático, mas que também faz pensar em algo pequeno e inacabado, é que começamos uma série de reportagens sobre as favelas dentro das favelas aqui na Maré. Sem compromisso em determinar se esta é uma favela “à parte” ou só um nome para um conjunto de ruas, nosso objetivo é mostrar o que tem nesse lugar, quem mora lá e sua história.
Localização do Tijolinho
Tijolinho é um lugar dentro da Nova Holanda. Compreende aproximadamente as ruas entre a Rua Principal e a Tancredo Neves, limitadas também pela Rua Esperança e a Américo de Oliveira. São ruas que, com o tempo, mudaram de nome. A rua 3 leva o nome hoje de Carlos Lacerda; a rua 4 é a rua Ivete Vargas; rua 5 é 29 de Janeiro; rua 6, José Carlos; rua 7 é Denilson de Souza; rua 8 é Juscelino Caetano. E, em seguida, vem a Tancredo Neves. Porém esta configuração não é exata, ela se baseia em percepções pessoais das ruas que são popularmente chamadas de Tijolinho, mas não há consenso sobre isto.

Um projeto no Tijolinho que podemos destacar é o Espaço Tijolinho, localizado na rua Carlos Lacerda, que atende dezenas de crianças, jovens e adultos com atividades como: oficinas de desenho e leitura; desenvolvimento pessoal e empregabilidade; e artes marciais. Os esportes são luta livre, jiu-jitsu, karatê, wrestling e jiu-jitsu infantil. Mais informações podem ser obtidas pelo Instagram.
O duplex, as casas de madeira e o incêndio
O Tijolinho “vai do Nem até a Pracinha”, como conta uma de suas moradoras, a Solange Conceição de Andrade, de 63 anos. Ela veio com a família morar no local com apenas um ano de idade, por volta de 1963, e ali mesmo cresceu, formou família, teve seus cinco filhos, que hoje já lhe deram 23 netos. Solange gosta muito de morar ali, diz que é tranquilo, ela conhece todo mundo e de tão acostumada com o nome Tijolinho até esqueceu de como se chamava antes. “Eu até esqueci o que que era duplex! Era duplex porque as casas eram todas altas (…) aqui é duplex e ali era casa baixa”.

Outras moradoras já reconhecem que Duplex e Tijolinho são a mesma coisa. “Eu moro aqui desde quando eu nasci, nesse prédio que é o Duplex, que é o Tijolinho”. Quem traz esse relato é a Simone Aragão, outra moradora antiga do local. Ela também formou família ali e gosta muito da Nova Holanda toda, inclusive por ter encontrado perto de casa a oportunidade de fazer cursos como de pedreira e na área elétrica.
“Eu tenho orgulho de morar aqui na Nova Holanda, no Tijolinho, que agora é Tijolinho, que é o Duplex. Eu tenho orgulho, aqui eu aprendi muita coisa, Deus me ensinou a ser uma boa cidadã” – Simone Aragão, moradora do Tijolinho.
De tanto orgulho, ela faz questão que a sua casa permaneça “de tijolinho” como eram todas por ali, quando foram construídas, embora Simone também ressalte que, por dentro, já houve melhorias como trocar o assoalho pela laje, e vai progredir ainda mais. Por enquanto, a família quer ver a fachada da casa de tijolinho mesmo: “A família [fala] ‘deixa assim um pouquinho, pra matar a saudade do tempo que a gente não tinha [condição]”.

E nessa conversa despretensiosa, ela nos aproxima da história não só do Tijolinho, mas da Nova Holanda toda. Sua avó veio para a Maré removida da Favela do Esqueleto e ganhou uma casa no mesmo local de hoje, mas era de madeira. Era um “duplex”, uma casa de dois andares onde morava com um filho e três filhas. Um dia, não sabemos exatamente quando, aconteceu um grande incêndio que pegou muitas dessas casas de madeira. A família sobreviveu e precisou ficar hospedada em outro lugar, mas dentro da favela, até serem construídas as casas de tijolo, que foram entregues aos moradores sem pintura. Ali, acabou ganhando o nome de Tijolinho.
A mesma casa, na antiga Rua 3, atual Carlos Lacerda, carrega muita história. “Aqui minha avó criou os filhos, os filhos tiveram filhos e agora nós que somos neta e temos as bisnetas e bisnetos dela também”, comenta Simone.
Quem também preserva a lembrança de família, do incêndio e da reconstrução, é Dilamar Batista, de 63 anos, moradora há cerca de 50 anos. Sua mãe comprou a casa na Nova Holanda, quando ela era criança, e mais tarde Dilamar casou e foi morar para o lado que chama de duplex. “Quando eu vim para cá, eram os barracos de madeira, que iam até a rua 7. Isso aqui era tudo de tábua. Aí, em algumas casas, lá para baixo, teve um incêndio e pegou nas tábuas. Ficou aquela marca feia (…) depois foi todo mundo se acertando, fazendo sua casa bonitinha, direitinha”. Outra lembrança dela é de quando a água da maré chegava até as casas: “O assoalho enchia d’água (…) uma vez eu acordei com o meu filho pequenininho, quando eu pisei na minha sala a água já estava na casa”.

O passado da Nova Holanda
Talvez muita gente não reconheça o nome Duplex, como a própria Solange já havia esquecido, mas ele de fato está registrado na história da Nova Holanda. Conta a história que, por volta de 1960, sob o governo de Carlos Lacerda, o mesmo que dá nome à Rua 3, houve uma grande remoção de moradores de outras favelas cariocas, enquanto se fazia o aterramento da Baía de Guanabara onde, hoje, é o final da Rua Teixeira Ribeiro. Após o aterramento, iniciou-se a construção de alojamentos de madeira, compondo o Centro de Habitação Provisória (CHP). O nome indica que, depois, os moradores iriam para moradias mais dignas, o que não aconteceu lá. O CHP abrigou famílias oriundas de favelas como Praia do Pinto, Morro da Formiga, Morro do Querosene, Favela do Esqueleto – como a avó da Simone – e desabrigados das margens do rio Faria-Timbó. O projeto se chamava Holanda, por isso o nome Nova Holanda pegou.

No primeiro momento, entre 1962 e 1963, foram construídas 981 casas de madeira em lotes de 5x10m. O chamado “segundo setor”, construído mais tarde, já eram 228 habitações (chamadas de vagões) divididas em 39 unidades. Era o duplex. No térreo tinha sala, cozinha e banheiro e, acima, dois quartos. Com o tempo, seja pelo incêndio, pela invasão da água ou outros fatores de deterioração, as tábuas foram sendo substituídas pela alvenaria, hoje chegando já a até 4 ou 5 andares.
Ressaltamos que esta história está atribuída à favela Nova Holanda, e não há evidências de que o incêndio de 1967 tenha sido exatamente na área hoje chamada de Tijolinho.


O futuro nos muros do Tijolinho
O fato é que, depois de tudo, o Tijolinho resiste, e resiste tanto na memória das avós quanto na expressão artística das crianças. Quem teve a percepção de trabalhar com as crianças nos registros do presente foi a fotógrafa Kamila Camillo, fundadora do projeto Crias do Tijolinho. A fundação foi em 2019, e até lá o projeto atuou para que, através da fotografia e outras artes visuais, as crianças possam contar suas próprias histórias e registrar seu cotidiano.

Ela, que também já foi uma criança da NH, viu no fazer artístico das “crias” a oportunidade de apresentar um lado da favela que a mídia não mostra. “A gente sabe de todas as complexidades do nosso território, mas a gente também sabe o quanto tem pessoas incríveis que saíram daqui ou permanecem aqui dentro das suas profissões, dentro dos seus sonhos, dentro dos seus trabalhos”.
Além do trabalho com fotografia, hoje está em curso a criação da Galeria Tijolinho, que se trata de grafitar os muros da favela, com muitas cores e retratando imagens conectadas à realidade e os personagens locais. Para Kamila, fazer esse trabalho com as crianças é reconhecer que o futuro é hoje, e ele só é possível de ser conduzido através das crianças.

“Hoje a nossa maior função, além de circular a Maré, é circular a cidade do Rio de Janeiro através da arte, da fotografia, do grafite…” – Kamila Camillo, fotógrafa, moradora e ativista social