Foto da capa: Ana Cristina da Silva
Jean Lacrot quase seguiu carreira militar por influência de seu tio, que era Tenente da Marinha. No entanto, a virada de chave acontece quando assiste ao filme Norbit e conhece o trabalho do ator e comediante Katt Williams. Primeiro vem o teatro, depois os palcos com shows de stand-up e então, uma parceria com o fotógrafo mareense Diogo Santos faz nascer um dos personagens mais famosos da favela da Maré: Tiro Júnior.
O INÍCIO
Cria da Vila do João e atual morador do Salsa e Merengue, Jean Lacrot lembra que por volta dos seus 17 anos estava estudando e se preparando para simulados, com a intenção de servir o exército. Quando começou a assistir a alguns vídeos do ator e comediante Katt Williams percebeu o que de fato queria fazer:
“Eu vi que ele fazia um negócio que era ficar em pé contando piada pros outros no show. Eu comecei a pesquisar sobre e aí eu falei: ‘pô, acho que é isso, é isso que eu vou fazer’. E aí eu comecei a estudar teatro, eu entrei pro teatro e me formei na primeira turma de jovem aprendiz em teatro”.
— Jean Lacrot
Neste programa de jovem aprendiz que acontecia na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, Jean consequentemente se afastou um pouco da ideia de stand-ups e se dedicou às peças teatrais de comédia. No entanto, uma das exigências para formação na turma de teatro era apresentar um solo. Foi aí que o morador do Salsa viu a oportunidade de se dedicar àquilo que se propôs desde que conheceu o trabalho de Katt Williams: subir em um palco e fazer a plateia rir contando piadas. “Eu lembrei que eu queria fazer comédia, eu queria fazer stand-up. Aí eu fui lá, isso foi em 2018, um pouquinho antes da pandemia. A minha apresentação final seria um show de stand-up, mas eu sou tão azarado que não deu certo. O pessoal cancelou, falou: ‘não vai ter mais solo na apresentação final, vamos fazer uma peça só’”, relembra o humorista.
Acontece que, quando ficou sabendo do cancelamento do solo, Jean já tinha finalizado o texto de stand-up que pretendia apresentar. Ele sabia o que queria para ele, ele tinha estudado e se preparado para isso então não satisfeito ele rodou o Rio de Janeiro até conseguir um lugar para se apresentar. E então, desde o seu primeiro show de stand up, Jean Lacrot nunca mais abriu mão da comédia.

Com 27 anos, Jean é o segundo mais velho entre cinco irmãos: Khiara, Taylla, Kethellen e Leonardo. Todos criados por Elisangela Lacrot, mãe solo. Segundo o morador do Salsa, mesmo quando mudou bruscamente o foco de seus estudos e abriu mão de uma carreira militar para estudar comédia, sua família nunca o desmotivou, muito pelo contrário. “Depois que eles começaram a ver dando certo se empolgaram mais. Eu acho que hoje eu sou o artista da família, sabe?”.

INSPIRAÇÕES E ESTUDOS
Buscando se aprofundar no universo do stand-up, Jean passou a consumir muitos conteúdos internacionais, suas principais inspirações nesse processo de aprendizado foram e ainda são comediantes como Chris Rock, Dave Chappelle e Kevin Hart. Apesar de abordagens diferentes, estes três comediantes têm algo em comum: usam de experiências pessoais para fazer piadas. Enquanto Chris Rock tem um humor que envolve racismo e política, Chappelle diverte o público ao falar sobre liberdade de expressão ao mesmo tempo em que Hart foca em questões familiares e fracassos pessoais.
Foi assim, assistindo conteúdo estrangeiro, que Jean viu a necessidade de aprender uma nova língua: “Consumindo só conteúdo de fora, eu fiquei limitado, porque tinha uns conteúdos que não tinha tradução. E aí, o que que eu fiz? Eu comecei a estudar inglês. E aí eu aprendi a falar inglês sozinho pra poder consumir conteúdo da gringa”. Ele declara ainda que quando há oportunidade ele também apresenta shows em inglês.

“O meu estilo de piada é um estilo crítico. Eu não gosto de fazer a piada só pela piada. (…) Sabe aquela sensação de dever cumprido? É quando tu consegue, de forma leve, de forma brincalhona, botar a galera pra refletir sobre um problema. Eu comecei a viciar nisso, né? Eu tinha umas piadas que eu falava no show, que eu falava sobre as coisas boas que foram inventadas na favela, né? E aí eu falo que festa de 15 anos foi inventada na favela, que é por isso que só a mulher comemora, porque a mulher chega nos 15 anos. E aí tu ri disso, mas depois tu para pra refletir, tu fala: ‘caramba, é… É mesmo’, tu vê, tipo, um monte de mãe solteira, a mina engravida jovem, o menino morre jovem, então tipo, a gente fica nesse ciclo. E tipo, eu vejo graça em dar luz pra esses problemas e conseguir fazer a galera refletir através do humor. Isso é muito gratificante pra mim”.
— Jean Lacrot
Longe de só apresentar, Jean também já mobilizou diferentes comediantes para shows na Maré. Por um período de tempo ele passou a apresentar pelo menos um show por mês no Castelo do Chopp, na Vila do João, chegando a trazer com ele comediantes como Paul Cabannes, Hélio de La Peña, Tiago Santineli e Marcos Castro.
PARCERIA DE SUCESSO
Nessa de fazer shows de stand-up, Jean passou a postar alguns vídeos curtos na internet e alguns deles chegaram a viralizar, em especial, um que ele dizia morar na favela da Maré. Esse vídeo chegou até Diogo Santos, fotógrafo e cinegrafista da Baixa do Sapateiro. Na época, Diogo já havia criado a página Na Favela nas redes sociais e era conhecido no baile funk por gravar vídeos entrevistando as pessoas.

“Eu fazia entrevista no baile já que eu consegui uma autorização pra entrevistar as pessoas lá, fazer uma zoeira, mostrar o baile de uma forma diferente, né? Que o baile não é só bandidagem, mostrar o que tem de legal no baile, né? E os vídeos começaram a ficar um pouquinho famosos, alguns deu bom, outros não. E aí eu vi na internet o Jean fazendo stand-up. Vi ele falando que era da Maré. E aí eu falei: ‘pô, um cara da Maré, eu não conheço esse cara’. E aí eu mandei uma mensagem pra ele, ele me respondeu, a gente se encontrou. E eu chamei ele pra fazer parte do Na Favela. Aí a gente começou a fazer entrevistas juntos”.
— Diogo Santos
Após algum tempo de entrevistas, Diogo e Jean começaram a pensar numa forma nova de gravar no baile. Foi quando, muito influenciados pelo formato do programa Pânico na TV, exibido entre 2003 e 2012 pela Rede TV, eles decidiram criar um personagem que gerasse uma identidade para o trabalho deles. Com a repercussão da época, a dupla resolveu imitar o apresentador do jornal Balanço Geral, Tino Júnior, como conta Diogo Santos: “O primeiro personagem que pensamos foi o Tiro Júnior. Jean falou pra mim que sabia imitar o Tino Júnior e era uma época que ele tava batendo muito na favela com o lance da piscina, falando que a piscina era piscina de treinamento dos caras, uma coisa que tava dando muita audiência. E aí a gente foi pro baile, ele (Jean) de Tiro Júnior e eu de Mosquito Fofoqueiro. E aí foi o vídeo que viralizou”.

A ideia do nome surgiu graças ao adereço que Diogo Santos já usava antes mesmo de conhecer Jean: uma bala de fuzil cenográfica de tamanho grande que usava nos dias de gravação para chamar a atenção das pessoas dentro do baile. Para a caracterização de Tiro Júnior, Jean passou a vestir um blazer e usar a bala como cordão. Juntos, os dois seguiram com as entrevistas nesse novo modelo. Diogo, tal como o Mosquito Fofoqueiro, apelido dado ao helicóptero da Record, realizava as filmagens dentro do baile enquanto Tiro Júnior conversava com o público.
Um fato curioso é que a dupla não planejava fazer de Tiro Júnior e Mosquito Fofoqueiro personagens fixos. A ideia é que, assim como no programa Pânico Na TV eles imitassem outros artistas e celebridades, mas isso se tornou inviável com o sucesso do personagem Tiro Júnior: “A gente inventou de fazer o Belo e o Denilson. Aí o Jean botou o terno como se ele fosse o Belo e eu vim de Denilson, só que a galera chegava falando: ‘Ali o Tiro Júnior’. Aí eu falei: ‘mano, o negócio é Tiro Júnior, não tem como fazer outro personagem. Vai em casa, troca o blazer e aí faz o Tiro Júnior de novo’. Acho que agora, o que ele quiser fazer, ele vai ser lembrado como o Tiro Júnior”, conta Diogo.

CANAL NA FAVELA
Apesar do sucesso e de serem chamados com frequência para gravar vídeos em bailes de outras comunidades, a dupla não se resume apenas a esse tipo de conteúdo. Com os vídeos publicados no perfil do Na Favela, uma página voltada para humor e cotidiano na comunidade, eles também produzem esquetes de comédia e seguem com outros projetos, gravando inclusive em outros locais da Maré e nas adjacências.
Um de seus tantos conteúdos é o jornal humorístico onde eles trazem notícias reais e atuais. “É uma coisa que é a gente na bancada, chamando as notícias do que tá acontecendo na favela. ‘Ah, vamos falar do lixo’, a gente fala dos postes que tá pegando fogo, fala da água que tá faltando, mas tudo sempre voltado pro humor”, explica Diogo Santos. Segundo Jean, a ideia é fazer desse projeto um jornal onde de fato as pessoas possam se informar. No entanto, o processo segue lentamente enquanto a dupla vai aos poucos montando um estúdio de filmagem na casa de Diogo Santos.

“O meu humor crítico não se limita só ao stand-up. É claro que no stand-up, eu foco só nisso, mas no canal Na Favela a gente tem humor crítico, mas também tem muito humor besteirol. A gente tem muita coisa que, às vezes, é só pra descontrair com algumas situações que acontecem, tem coisa que a gente faz e pensa: ‘pô, isso daqui a galera vai refletir. Isso aqui é pra conscientizar a galera pra não jogar lixo aqui’, e tem outras coisas que a gente fala: ‘ah, isso aqui é só pra galera rir’, então tem muita coisa misturada lá. Tem entrevistas engraçadas, esquetes, alguns programas… Então, acho que a pessoa, pra ir pesquisar a gente, ela tem que ir de mente aberta, pensando em se divertir. Independente do que for”.
— Jean Lacrot
Com ou sem figurino, Jean é logo reconhecido na rua, principalmente pelas crianças que vêm logo falar com ele. No entanto, o comediante afirma que seus trabalhos são pensados para um outro tipo de público: “O nosso humor tem muito duplo sentido, ele tem muita crítica, e a gente pensa ele pra um público mais maduro de favela. Sendo que o tiro acaba saindo pela culatra, porque as crianças consomem muito (…) Eu aceitei fazer parte de um projeto que era uma web série infantil, e aí eu fiz um vilão. Ela ainda não saiu, ainda tá em produção, mas eu fiz justamente pensando nisso, eu tenho muita criança que me segue, tem muita criança que me acompanha”.
POR TRÁS DO PERSONAGEM
Com muito carisma e simpatia, Jean Lacrot mantém o estilo bem humorado mesmo fora dos palcos e do personagem. Muito apegado à família, ele valoriza os momentos em que passam juntos e declara que são todos muito unidos. Apesar do que muitos podem pensar, a profissão escolhida por Jean também exige muito estudo e isso é uma das coisas que ele gosta de fazer, tanto que por conta própria aprendeu a falar inglês.
Apesar das dificuldades, hoje o mareense consegue seu sustento apenas com os shows de stand up e seus trabalhos ao lado de Diogo Santos no canal Na Favela, através, principalmente, da monetização do Facebook. E, quando perguntado sobre o futuro, Jean diz que se enxerga fazendo a mesma coisa, só que com projetos ainda maiores que, além do humor, também agreguem com a comunidade.
“E eu acho que quando tu trabalha com internet, tu tem que aprender a se adaptar. Mas, tipo assim, por enquanto eu me vejo com tudo isso aqui no futuro. Melhorado, mais estruturado, mas mantendo a mesma coisa. (…) a gente tem ideias de transformar o Na Favela numa emissora, numa ONG pra ensinar cinema pra galera da favela, ensinar sobre rede social, fotografia. Então, a gente tem vários projetos, vários pensamentos que podem crescer, mas a gente ainda tá só no campo da imaginação”.
— Jean Lacrot.
Para acompanhar os trabalhos de Jean Lacrot e Diogo Santos acesse os seguintes perfis:






Deixe uma resposta