Entrevista: Ana Cristina da Silva e Carolina Vaz
Texto: Carolina Vaz
Foto de capa: Ana Cristina da Silva

Psicóloga de formação, Márcia Cristina de Bezerra Tavares é diretora do CapsAD Miriam Makeba, em Ramos, há quase quatro anos. Em entrevista, complementar à reportagem sobre alcoolismo do Jornal O Cidadão, ela fala sobre a estrutura e rotina diária da unidade de saúde, e comenta sobre os fatores que levam ao uso abusivo de álcool e outras drogas e como compreender o contexto de vida pode ser fundamental para o cuidado.

O Cidadão: Como acontece o primeiro atendimento a uma pessoa alcoolista aqui? Ela vem espontaneamente ou ela é necessariamente encaminhada por uma unidade de saúde?

Márcia Cristina: Acho que são várias formas, né? Às vezes ela vem espontaneamente ou com algum familiar, mas é mais raro vir espontaneamente. Geralmente vem com algum familiar, trazendo. Ou encaminhado de alguma unidade de Saúde da Família, mas que a gente também precisa fazer algum movimento para poder ir lá, atender no território, até conseguir trazer pra cá. E aí, principalmente os alcoolistas, ou vêm de alguma internação, porque aconteceu, ou porque foi atropelado. (…) Geralmente mais internações clínicas.

O Cidadão: Qual é a equipe que vocês têm aqui, em termos de profissionais que trabalham aqui dentro?

Márcia Cristina: Em termos de equipe multi, a gente tem a equipe de Enfermagem: enfermeiro, técnico de enfermagem. A gente tem musicoterapeuta, assistente social, psicólogo, educador físico, redutor de danos, dois médicos clínicos, um psiquiatra, profissional de arte de nível superior, oficineiro.

O Cidadão: E você falou de psiquiatra, eu gostaria de saber também se aqui trabalha-se com medicamentos.

Márcia Cristina: Sim, tem uma farmácia, tem farmacêutico. Porque quando você tem um uso de droga, ninguém é “puro”, só é usuário de droga e ponto. Você tem aí algumas coisas mescladas com o uso, pode ser psicótico, então tem aí um caminho que é outro. Às vezes a gente precisa cuidar da psicose e o uso de droga secundário nesse momento, e aí a gente precisa articular com outros serviços também do território que cuidam mais dos casos de psicose.

Há casos em que a gente entende que, para ele como psicótico grave, estar neste serviço é prejudicial. Que a gente acha que o quadro dele agravou mais estando aqui com os outros usuários graves do que se ele estivesse num CAPS de transtorno, por exemplo. Então a gente fica aí pensando nesses casos em que seria melhor estar em um CAPS de transtorno para o quadro estabilizar mais rápido do que estando num CapsAD.

O Cidadão: E como você vê que a socialização entre as pessoas que frequentam aqui pode ajudar elas no desenvolvimento, no tratamento?

Márcia Cristina: Eu acho que é o caminho pelo cuidado com o corpo primeiro, né? E a gente está ali junto dizendo, “cara, olha como é que você tá”, né? Eu acho que cuidar do corpo é o início. Poder comer, poder descansar o corpo, poder pensar sobre o que aconteceu com ele durante a semana que ele chegou daquele estado.

Poder ter um lugar de pouso, sabe? Pra ele poder depois conseguir dizer. Porque pode ser que ele não consiga dizer nada naquele momento, ele só precisa de um banho, de uma comida e de um descanso para no dia seguinte poder dizer o que aconteceu, por exemplo. Acho que participar dos grupos de redução de danos, poder entender que não é só com ele que aquilo está acontecendo, que tem outras pessoas também dividindo uma história… Acho que isso é importante porque se reconhece nos pares. E também poder estar participando de atividades, de grupos, estou pensando aqui no grupo do Makebas Tour. Muitas dessas pessoas nunca conseguiram acessar lugares no Rio de Janeiro.

O Cidadão: São passeios?

Márcia Cristina: São passeios, eles já foram ao Pão de Açúcar, e como aquilo foi impactante! Porque eles veem aquele cartão-postal, mas nunca acessaram, nunca conseguiram chegar. Tem gente que nunca foi à praia, nunca conseguiu sair de dentro da comunidade. Então, de como é que isso muda um pouco a visão deles do que pode ter lá fora, por exemplo. De estar com as mulheres, no grupo de mulheres, e poder proporcionar outras histórias para elas, com suas crianças. Acho que isso faz a diferença nesse momento.

O Cidadão: Nesse mesmo sentido, queria que você falasse também qual é o papel da família no decorrer do tratamento da pessoa, qual é a importância de a família levar a sério, apoiar.

Márcia Cristina: Quando tem família, a gente tem um trabalho enorme com a família também. Nenhuma família de alcoolista, especificamente, passou impune pela vida dessa pessoa. Tem muitos atravessamentos que eles fazem com a família. E aí, eles vão envelhecendo e vão adoecendo mais, principalmente no corpo. E trabalhar essa família pra ter essa pessoa de volta, por exemplo, tentar com que ela entenda esse caminho da doença, não é uma tarefa fácil. A gente tem aí usuários que são idosos e que a família não quer nem chegar perto. E aí, a gente vai ali só convidando a família, convocando a família pra vir aqui pra gente poder pensar junto e dizem “Não quero, não quero. Me bateu muito a infância inteira”.

O Cidadão: São traumas, né?

Márcia Cristina: Isso, tem muitos. E aí, a gente vai ali tentando dizer que aquela pessoa não é mais aquela que se encontra aqui. Nem o corpo é o mesmo, nem a vida é a mesma, não tem nem mais aquela força física. Então, é um outro trabalho com a família. É um trabalho muito específico de suporte mesmo. Até a família dizer assim “vou cuidar”. Ou então dizer, “não, vou arrumar um lugar, ele fica lá, eu levo comida, mas não quero contato”. Isso vai variando. Tem famílias que estão apostando ainda, mas tem outras que jogaram a toalha nessa. E aí, a gente vai ali tentando ver se a gente consegue tirar essa toalha do chão, se pode fazer alguma coisinha ali, outra coisinha aqui, mesmo que seja alugar uma casa e levar comida.

Atividades do Miriam Makeba levam à reflexão sobre as condições sociais que levaram ao adoecimento. Foto: Ana Cristina da Silva.

O Cidadão: Em relação à variedade de público do Miriam Makeba, aqui atende a muitos bairros, não é? Quais você observa serem os fatores que levam as pessoas ao vício, dessa população daqui?

Márcia Cristina: Eu acho, assim, que esse território da 3.1, se eu não me engano, é o território que tem mais comunidades. É um território que reúne muitas comunidades. Desde o Jardim América, que tem Vigário Geral, Cidade Alta, Cordovil, Parada de Lucas, são muitas comunidades. A Kelson, a Maré inteira, os dois maiores complexos, Alemão e Penha. E a Ilha (do Governador), que tem Barbante, tem as outras comunidades. Eu acho que a 3.1 é o lugar que mais tem comunidade no território. E aí, assim, a vulnerabilidade, com certeza, é um grande fator. Acho que a gente pode dizer que a entrada da polícia nas comunidades, do jeito que entra, truculenta e assassinando as pessoas que passam na frente, isso também é um grande fator de adoecimento dessas pessoas que estão na comunidade.


“Existe a insalubridade do ambiente, a falta de recursos, porque quando você entra na comunidade, entra de verdade, você vê que o que é público não chegou muito. (…) Você vê escola, você vê equipamentos de saúde, mas você não vê assistência, você não vê cultura, esporte, lazer. Você tem coisas que acontecem, sim, mas são um ali, outro aqui, não é um ‘boom’, como é de cobertura de saúde, por exemplo”.


A gente vem discutindo muito isso nas reuniões da RAPS (Rede de Atenção Psicossocial), o quanto de território que a gente tem aqui que é um deserto. Um deserto cultural, um deserto de tudo para as pessoas. Jardim América e Vigário Geral, você não tem lugares para aqueles adolescentes fazerem alguma coisa. Você tem uma praça onde as pessoas se reúnem ali para se encontrarem, usarem… Você não vê grandes praças, por exemplo.

O Cidadão: Como você resumiria o trabalho que vocês fazem aqui dentro? Se você pudesse resumir como que a pessoa que é adicta, está em uma situação de vício, de dependência, como que essa pessoa passa pelo tratamento aqui?

Márcia Cristina: Eu acho que, primeiro, a gente tem que se apartar completamente das comunidades terapêuticas. Eu acho que isso é um ponto principal, porque a gente não tem o trabalho nessa direção. (…) A gente tem o trabalho de redução de danos, de reinserção dessas pessoas na sociedade. Elas estão à margem mesmo, à margem do trabalho, à margem da vida, à margem da cultura, à margem de tudo. Eu acho que não é pensando no uso da droga. “A gente vai trabalhar que você pare de usar drogas”. Não é sobre a droga.

Eu acho que essa é a grande diferença, a gente está aqui pensando no sujeito e por que esse uso entrou, e por que ele precisou estar nesse uso abusivo e o que a gente pode fazer para ajudar ele apesar do uso. (…) Ele pode aprender a viver, a trabalhar e continuar usando, mas está na vida, está trabalhando, está tocando a vida, voltou a ter laços com a família.

Eu acho que é essa a grande diferença e a grande importância do trabalho do CAPS. Não é ficar ali em cima da droga, porque não é sobre a droga, é sobre o sujeito e o que ele vai fazer na vida dele apesar do uso, como é que a gente pode fazer com que esse uso seja um pouco menos prejudicial para ele, como é que ele pode viver, tocar a vida dele de um jeito mais saudável, mais seguro para ele, não se colocando tanto em risco, porque é isso, eles se colocam em risco, eles vão para lugares muito arriscados. O que é que a gente faz para esse sujeito? Não é excluindo ele, não é brigando com ele, e sim cuidando dele, acho que é isso.

 

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