LEDA: Documentário sobre moradora da Nova Holanda agrada público em sua primeira exibição

Cultura, Notícias

Texto por Ana Cristina da Silva

Foto em destaque por Romulo Amorim / Observatório de Favelas

Quando as favelas e periferias são representadas em séries e filmes, o foco costuma ser, na maioria das vezes, a violência. Porém, na noite do dia 26 de julho, dezenas de pessoas se reuniram na Praça do Parque União para assistir um longa-metragem sobre uma moradora da Nova Holanda. Exibido em um telão de frente para o trailer da Vera Lanches, o filme de 60 minutos arrancou boas risadas do público ao retratar situações comuns para moradores da Maré. Dirigido por Samuel Fortunato, LEDA foi gravado em 2017 e finalizado somente este ano. Após sua pré-estreia no Parque União, a expectativa é de que o longa passe por diferentes festivais de cinema.

Leda Camillo assistiu a primeira exibição do filme ao lado de família e amigos na Praça do parque União. Foto: Romulo Amorim / Observatório de Favelas.

Leda Camillo, a grande protagonista do filme, é uma mulher aposentada que vive uma vida tranquila na favela da Maré. “Eu não vivo na rua, eu fico só dentro de casa. Quando eu saio eu saio pra médico ou saio pra casa de algum parente”, conta a mareense. Para algumas pessoas uma vida comum como essa não chamaria a atenção em um filme, mas para o diretor Samuel Fortunato, Leda tinha tudo o que um grande personagem precisa. Quanto ao encontro dos dois, foi algo inevitável. Afinal, Samuel é casado com Isabela Souza que, nascida e criada na Maré, também é prima de Leda.  

“Eu conheci a Leda e ela se mostrou essa pessoa totalmente autêntica, uma figura, né. Uma personagem de fato. Porque não adianta você às vezes tentar fazer algo com alguém que não vai te entregar elementos para você explorar, contar uma história… Então ela se mostrou uma personagem muito forte e eu brinquei com ela, falei ‘Poxa, eu vou fazer um filme com você um dia’”.

— Samuel Fortunato, diretor de LEDA.

Apesar da sua ligação com o Conjunto de Favelas da Maré graças ao seu relacionamento com Isabela Souza, produtora-executiva do longa, Samuel Fortunato nunca morou na comunidade, mas já fazia algum tempo que vinha se sentindo atraído pelo Cinema Direto, um estilo de filmagem, visto principalmente em documentários, onde a história é contada da exata forma como as coisas acontecem, sem ensaios, sem a interferência da equipe de filmagem ou a presença de um narrador. Pensando em trabalhar com algo dentro desse parâmetro, Samuel e Isabela sabiam que a ideia era mostrar o cotidiano de Leda, então, pensando de forma estratégica, escolheram a semana do aniversário da mareense para começar as gravações.

Samuel Fortunato e Isabela Souza (blusa rosa) ao lado de Kamila Camillo, filha de Leda e uma das personagens do longa-metragem. Foto: Raysa Castro.

Tendo como base a sua pesquisa sobre o Cinema Direto, Samuel observou alguns pontos. Ele sabia que Leda gostava de receber amigos e familiares no dia do seu aniversário e, por sua vez, Isabela Souza, que já atua no Observatório de Favelas há 11 anos, sabia que na mesma semana também iria acontecer a Marcha Contra a Violência na Maré. Com as datas definidas, um dia antes do início das gravações Leda tentou remarcar com Samuel por ter tido um problema com a bomba e ter ficado sem água dentro de casa. Porém, no final de tudo, a falta d’água não impediu o processo e ainda se tornou importante para a história do documentário. “Era a semana, por isso que a gente não podia abrir mão. Quando ela ligou falando ‘acabou a água’, a gente falou ‘cara, mais um gol pra gente’. E eu falei assim ‘Leda, a gente não vai abrir mão’”, conta Isabela Souza.

Para que as gravações acontecessem de forma natural, Leda precisou abrir sua casa para Samuel Fortunato e Fagner França durante uma semana, de segunda à sábado. Enquanto Samuel registrava as imagens com uma câmera e duas lentes, Fagner fazia a captação do som com um microfone. Durante entrevista no dia 26 de julho, Leda riu ao lembrar da época: “eu ainda brincava assim: ‘isso aqui é igual Big Brother, onde eu vou ele (Samuel) vai atrás’”. Após uma semana de gravações, Samuel voltou para casa com 40h de material. Hoje, com tudo finalizado, o filme apresenta cenas da mareense em sua casa, seja lidando com a falta de água, observando a movimentação da rua pela janela, almoçando com a família ou comemorando seu aniversário em um churrasco na laje. Paralelo a isso, o filme também se preocupou em mostrar mais dos personagens e espaços que cercam Leda, exibindo fotos da Marcha de 2017 e até um passeio pela Mata, feito por sua filha, Camila Camillo.

Um dos tantos momentos do filme é um almoço na pensão da Galega, na rua Principal na Nova Holanda. Foto: Reprodução.

“Eu percebi que ali tinha muitos arcos narrativos, muitas coisas a serem discutidas. Aí também teve essa Marcha Contra Violência na Maré que foi bem histórica e essa fase da vida dela, o filho dela preso, a filha dela ia para a marcha e ela não queria ir. Todas essas questões foram se colocando e aí a gente foi entendendo o que a gente tinha ali. Eu entendi que era um longa-metragem, foi ali que eu entendi”.

— Samuel Fortunato.

Apesar das filmagens terem levado apenas uma semana, a finalização do filme foi longa. No entanto, após 6 anos de espera, todos os processos de edição puderam ser concluídos graças ao apoio do Programa de Fomento Carioca (FOCA). Com isso, no dia 26 de julho, um telão foi montado na Praça do Parque União e nas cadeiras dispostas no espaço se encontravam não só familiares e amigos da protagonista, como também demais moradores da Maré, a equipe realizadora do documentário e uma representante da Secretaria Municipal de Cultura. Apesar das cenas tranquilas de um dia normal, o documentário LEDA fez com que o público se identificasse em diferentes momentos, garantindo boas risadas no processo.

“Eu acho que as pessoas se sentiram reconhecidas, que elas se sentiram respeitadas. E eu acho que esse tipo de história faz muita falta. Faz muita falta as pessoas faveladas poderem ir no cinema e se reconhecerem na tela, não só a partir da perspectiva que insistem em contar nossas histórias, mas a partir de todas as camadas que a nossa vida tem, do amor, da solidariedade, do conflito, da dinâmica da vizinhança. Então eu acho que tem uma alegria muito grande em ver essa história tomando essa forma e as pessoas se sentindo reconhecidas naquilo que elas estão vendo”.

— Isabela Souza, produtora executiva.

Apesar de Samuel Fortunato já ter dirigido outros documentários, como “Corpo que fala”, de 2022 e “Um certo Maralonso”, de 2019, LEDA chega como seu primeiro longa-metragem. Tanto Samuel quanto Isabela se mostraram entusiasmados com o futuro do longa: “a partir de agora a gente vai entrar numa etapa que é tentar distribuir esse filme, principalmente no circuito de grandes festivais. É uma intenção que esse filme tenha uma carreira de festivais, a gente tá comprometido em tentar trabalhar pra isso acontecer”, conta Isabela. No entanto, o casal ainda sonha com a ideia de cinema e streamings para fazer com que mais e mais pessoas tenham acesso a esta história.

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