Nova Holanda sedia lançamento de campanha Jovem Negro Vivo

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Carolina Vaz e Thaís Cavalcante

A favela Nova Holanda, na Maré, sediou o lançamento oficial da campanha Jovem Negro Vivo, da Anistia Internacional, no dia 09 de maio. O evento foi realizado pela Anistia, a ONG Redes de Desenvolvimento da Maré e a Escola Popular de Comunicação Crítica (ESPOCC).

A Anistia Internacional descobriu, pelo Mapa da Violência 2014, que em 2012 no Brasil ocorreram 56 mil homicídios, e em mais da metade dos casos as vítimas eram jovens (entre 15 e 29 anos). Todo ano, trinta mil jovens são assassinados, e 77% deles são negros. Segundo a Anistia, o Brasil é o país em que mais assassinatos acontecem, superando países em situação de guerra como Iraque e Afeganistão. .

A partir das 13h, jovens voluntárias e voluntários da Anistia já estavam na feira de sábado da rua Teixeira Ribeiro abordando as pessoas para informar esses números, explicando a campanha, distribuindo panfletos e adesivos sobre a Jovem Negro Vivo, e coletando assinaturas para um manifesto. Segundo Mariana Vita, da equipe de comunicação da Anistia, o manifesto será levado para alguma autoridade de segurança pública, e as assinaturas poderão mostrar quantas pessoas se importam com os dados da violência no país. Após a panfletagem, ainda na Rua Teixeira, aconteceu uma performance de jovens da Escola Livre de Dança da Maré. Eles chegaram ao som de tambores, se alinharam e gritaram “Jovem… negro… vivo!”. Em seguida, vestiram roupas manchadas e furadas, como se tivessem sido atingidos por balas. Ainda na rua Teixeira, logo após, houve uma apresentação de passinho com dançarinas e dançarinos da  Rua C Cia de Dança. A companhia procura aprofundar e experimentar possíveis caminhos de construção cênica a partir de suas danças.

 

Passinho no meio da feira da Teixeira chamou a atenção. Foto: Thaís Cavalcante.
Passinho no meio da feira da Teixeira chamou a atenção. Foto: Thaís Cavalcante.

Roda de conversa

Depois, o evento seguiu no Centro de Artes da Maré, onde aconteceu uma roda de conversa com representantes de movimentos sociais, eventos e instituições relacionadas ao tema da juventude. MC Succo, representando a ESPOCC, apresentou as ações da campanha Juventude Marcada para Viver, desenvolvida pela Redes da Maré no ano de 2012. Uma das atividades foi a pintura de 4 mil corpos no chão do Largo da Carioca, no centro da cidade, e um flash mob no mesmo local para sensibilizar a sociedade e o governo que constroem valores culturais sobre o contexto social e racial. Essa campanha, até hoje, faz parte de um programa permanente de enfrentamento dos homicídios da juventude negra (Análise de contexto Homicídio de Jovens Negros).

Dudu do Morro Agudo, do movimento de hip hop Enraizados, falou sobre o surgimento da fundação, seu método de funcionamento hoje, o contexto da violência na Baixada Fluminense, e o hip hop como oportunidade. “A gente tem contado com a própria sorte todos os dias. E a nossa única arma é o hip hop”, afirmou.

Levando em consideração que a violência hoje atinge principalmente jovens negros homens, Giordana Moreira, do Festival Roque Pense, afirmou que Nova Iguaçu e Duque de Caxias são as cidades mais violentas para mulheres. E no contexto do homicídio em massa de homens, mulheres ficam abandonadas: “A gente discute a morte em vida. Quando um jovem é assassinado, e ainda é culpado por isso, a mãe morre em vida. A jovem grávida que perde o pai do filho precisa sair da escola, fica naquela incumbência de criar a criança”, concluiu.

Binho Cultura, fundador da Feira Literária da Zona Oeste, destacou a necessidade dos jovens hoje de terem oportunidades. “Viver, sendo preto e favelado, é contrariar as estatísticas. Nós precisamos protagonizar a nossa história. O jovem só precisa de uma oportunidade. A gente precisa criar uma rede de oportunidades de qualificação e emprego”.

Várias pessoas da roda de conversa destacaram a necessidade de haver comunicação em todas as atividades. David Amen, do Instituto Raízes em Movimento, afirmou que a comunicação é fundamental para as favelas terem seus potenciais estimulados e visibilizados, e a mobilização deve sempre partir de dentro.

Gilmara Cunha, uma das fundadoras do grupo Conexão G, destacou que também a população LGBT de favela tem morrido cada vez mais, e essas mortes não são divulgadas. Sugeriu, ainda, uma campanha voltada só para o combate à homofobia.

O evento finalizou com uma apresentação do grupo musical Los Chivitos, e a Cia Marginal na performance teatral.

 

Roda de conversa trouxe à tona diferentes lados do extermínio da juventude negra. Foto: Thaís Cavalcante
Roda de conversa trouxe à tona diferentes lados do extermínio da juventude negra. Foto: Thaís Cavalcante

Continuidade da campanha

Segundo Mariana Vita, da equipe de comunicação da Anistia Internacional, além desse evento de lançamento da campanha e o manifesto, a Anistia realiza ações urgentes quando acontecem fato relacionados ao tema. Algumas delas foram a carta ao governador do Pará quando ocorreu a Chacina de Belém , a carta ao governador da Bahia quando a Polícia Militar de Salvador assassinou doze pessoas  e quando um jovem de 16 anos desapareceu em uma ação policial, também em Salvador.

Assine o manifesto da Anistia Internacional, e confira o Mapa da Violência 2015, já disponível aqui.

 

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