Rafaela Lima: professora nas telas e na sala de aula

Educação, Notícias

Por Carolina Vaz

Foto de capa: José Bismarck

O Youtube premiou, em metade de agosto passado, nove canais de educação, com seu inédito Prêmio YouTube Educação Digital, e dentre esses nove um que muitas mães e pais de crianças conhecem: o Mais Ciências , da professora Rafaela Lima. O que muita gente não sabe é que a Rafaela, bióloga de 36 anos, é mareense, criada na Vila do João.

A Rafaela mantém, desde 2015, um canal com conteúdos de Ciências em vídeos de até 20 minutos voltados para quem está no Ensino Fundamental. Hoje, cresceu muito o consumo de conteúdo educacional na plataforma de vídeos, mas quando ela começou era um espaço “pouco ocupado”, como ela mesma define, predominando vídeos de maior complexidade para quem estava no Ensino Médio ou se preparando já para vestibular e ENEM. Para entender a motivação de criar o canal e seu curso até hoje, é preciso entender a história da Rafaela.

Antes de tudo, educadora

Rafaela Lima é uma das filhas de Zenaide, uma cearense que no Rio se tornou Auxiliar de Serviços Gerais, e do falecido Lino, natural de Vassouras (RJ), que era porteiro. Ela caracteriza: “duas pessoas que cresceram em família grande, sem estudo, mas que valorizaram demais que eu e minha irmã tivéssemos esse acesso”. Ela estudou todo o Ensino Fundamental na Escola Bahia, fez o Ensino Médio numa escola estadual do Largo do Machado, e o pré-vestibular no CEASM. Em 2006, entrou para o curso de Ciências Biológicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), depois fez mestrado em Biologia Vegetal e, logo após, passou para um concurso estadual e um municipal, de Queimados, sendo até hoje professora em duas escolas.

Foi a experiência como educadora que a levou a pensar nos vídeos. Há exatos oito anos, em setembro de 2015: vendo que no cotidiano da escola ora tinha livro, ora não tinha, ou não tinha para todo mundo, ela pensou em gravar as aulas e deixar no Youtube para seus alunos verem. Mas ela logo percebeu que não seria tão fácil assim chegar neles por esse caminho; apesar de ela sempre os ver com celular, eles tinham poucos dados de internet para usar a plataforma. Por outro lado, os vídeos começaram a chegar em outras pessoas, e o canal foi crescendo lentamente. Aos poucos, o Mais Ciências começava a aparecer nas buscas de conteúdos da área.

Foi lento, mas num ritmo suficiente para chamar a atenção do Youtube: em 2017, o canal foi incluído no selo Youtube Edu, que certifica canais de conteúdo educativo. No mesmo ano, ela foi chamada para um evento no Youtube Space, aqui no Rio, onde pela primeira vez conheceu outros “EduTubers”, e se sentiu fortalecida a continuar. Até ali, ela tinha aprendido sozinha a editar vídeo, ajustar luz, gravar na posição correta, ajustar o som, aplicar estratégias de marketing digital para o canal crescer. Mas o contato com outros professores, também conciliando seus canais com suas vidas offline, deram força à Rafaela. Houve até momentos em que eles editaram alguns de seus vídeos.

Investimento no canal

O grande “boom” na qualidade técnica dos vídeos só foi possível já com quatro anos de atividades: em 2019 Rafaela foi premiada com o prêmio Youtube NextUp, que selecionava canais de até 100 mil inscritos. Além de uma semana de treinamento, passando por produção de conteúdo, escrita de roteiro e outras formações, o prêmio foi em equipamentos, como câmera profissional e gravador. Nesse mesmo ano, a didática da Rafaela e sua habilidade na produção de vídeos foi reconhecida também pelo canal Futura: ela foi chamada para o projeto #Nem1PraTrás, no qual ela gravou 76 aulas com conteúdos de Ciências de Ensino Fundamental, que foram exibidas em 2020 tanto no site quanto na própria televisão. Nesse momento, a Rafaela começou a aparecer também na TV aberta de todo o Brasil.

Rafaela no projeto #Nem1PraTrás, do Canal Futura. Foto: arquivo pessoal.

Em 2020, com a pandemia, muita coisa mudou. O canal Mais Ciências geralmente era encontrado no Youtube a partir da busca de conteúdos, mas quando todas as aulas ficaram online os professores começaram a utilizar os vídeos da mareense como conteúdos didáticos para seus alunos. Ela começou a notar que vinham acessos a partir de plataformas como Google Sala de Aula e Microsoft Teams. No mesmo ano, ela foi chamada para um programa do Youtube chamado Vozes Negras, que selecionava pessoas negras de várias áreas e fornecia um valor para a produção de conteúdo e, principalmente, uma série de treinamentos em contato direto com um gerente do Youtube. No ano passado, o convite foi para um evento internacional: o Educon global, nos Estados Unidos, também reunindo youtubers.

A internet e a sala de aula

A professora fala sobre a diferença entre as aulas no Youtube e na escola: “Dar aula na escola é algo vivo, porque tem pessoas ali. Então eu tenho que estar sempre me reinventando no sentido de estar me adaptando ao grupo, às vezes contextualizando aquela realidade, fora os dramas peculiares da sala de aula. Turmas cheias, às vezes a falta de recurso”. Por outro lado, na internet o “aluno” pode sair a qualquer momento, então ela teve que aprender a fazer uma comunicação cativante que o segurasse ali nos minutos iniciais. Mas uma aula é uma aula, e existem elementos em comum: ser didático, contextualizar, exemplificar, etc. Além disso, na sala de aula ela capta as dúvidas mais comuns de cada tema, e leva para o vídeo também.

Youtube Conexões, em março deste ano, foi um dos eventos onde a Rafaela pôde falar sobre educação e recursos digitais. Foto: arquivo pessoal.

Um dos aprendizados que a Rafaela teve, fazendo videoaulas e podendo utilizar recursos imagéticos e outros objetos, foi sobre o potencial dos recursos digitais para a educação na escola. Poder utilizar um atlas em 3D, um jogo, uma Realidade Aumentada só ajuda na compreensão do tema, mas ela ainda precisa explicar isso para outros professores.

“Alguns professores ainda são reticentes, e nas formações eu procuro falar que a gente não vai ser substituído. A gente vai fazer o nosso trabalho. Mas se a gente tem a possibilidade de usar esses recursos, por que não usar?”

Rafaela Lima

Os obstáculos

Segundo Rafaela, entre definir um tema, pesquisar em pelo menos 3 livros, escrever um roteiro e gravar um vídeo de 15 minutos, ela precisa em média de duas horas. Mas a Rafaela não é “só” youtuber: ela é professora numa escola estadual e numa escola municipal, distantes uma da outra, esposa do Vander Bruno e mãe da Luiza, de 6 anos. Por isso, ela não consegue cumprir a rotina que a rede social manda, de postar todo dia, ter vídeo toda semana. Essa rotina é reflexo, também, da baixa remuneração dos professores do Brasil, o que faz com que precisem trabalhar em duas, até três escolas para terem um salário digno, e o retorno financeiro do Youtube não é suficiente para deixar um dos empregos. No início, como mãe de um bebê pequeno, ela destaca que era ainda mais difícil: “A gente sabe que até pegando um recorte mesmo do universo de mulheres mães, muitos dos grandes nomes de produtores de conteúdo do Youtube são homens. E que muitas vezes ele deixa ali o filho com a mãe, com a esposa, e ele pode gravar, ele pode produzir. Mas muitas vezes no meu caso a amamentação estava comigo”.

A primeira edição do prêmio YouTube Educação Digital conferiu o terceiro prêmio à professora. Foto: José Bismarck.

Com todos esses desafios, ela não para de produzir e de ser reconhecida. Além da visibilidade do prêmio mais recente, YouTube Educação Digital, ela estará em outubro no evento Rio Innovation Week dando a palestra “Ciência e inovação: possibilidades para sala de aula”, e em breve como autora do capítulo de um livro do Futura também sobre a prática da educação na internet.

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