Vila Autódromo sedia exposição de memórias das favelas

Cultura, Notícias

Por Carolina Vaz

Colaboração de Raysa Castro

Foto de capa: Ana Cristina da Silva

Há pouco mais de 10 anos, uma comunidade na Barra da Tijuca sofria as primeiras ameaças de remoção para dar lugar às obras das Olimpíadas de 2016: a Vila Autódromo. Uma comunidade que tentou resistir, apesar das ameaças violentas, conquistou um acordo com a Prefeitura e hoje ainda se reconstrói. No último sábado (17) foi este lugar, que se via demolido há cerca de sete anos, que abrigou um evento simbólico de superação: o lançamento da exposição Memória Climática das Favelas, da Rede Favela Sustentável (RFS).

O evento foi a finalização de uma sequência de Rodas de Memória Climática realizadas entre janeiro e março deste ano em cinco espaços culturais do município do Rio de Janeiro: Museu da Maré; Núcleo de Memórias do Vidigal; Museu de Favela (Pavão-Pavãozinho e Cantagalo); Núcleo de Orientação e Pesquisa Histórica de Santa Cruz (NOPH) de Antares, em Santa Cruz; e Museu Sankofa, na Rocinha. A inauguração da exposição e finalização deste ciclo aconteceu, também, num museu: toda a Vila Autódromo é o Museu das Remoções. Cada casa, cada árvore, a praça, a igreja e as ruas, tudo compõe o Museu das Remoções.

As rodas que uniram o Rio de Janeiro

Dentro da capela de São José Operário aconteceu um primeiro momento de fala, com os testemunhos de participantes da Rede, que destacaram o quanto os encontros, transitando entre as favelas, evidenciaram as semelhanças entre as diferentes populações faveladas do Rio, inclusive na luta por melhores condições de vida e no desenvolvimento de estratégias próprias. Uma das pessoas que se mostrou motivada por esse contato foi Leonardo Ribeiro, de Antares, Santa Cruz, que reafirmou o fato de ser Antares uma comunidade que recebeu removidos de diversas outras favelas do Rio, como a própria Maré, Vidigal, Rocinha e Pavão-Pavãozinho. Visitar esses lugares, portanto, foi como voltar às origens de Antares: “Esse movimento que a gente fez de ir às rodas, para mim, eu que pesquiso Antares desde meus 14 anos de idade, foi sensacional. Tirar esse tempo e entender como as outras comunidades se desenvolveram depois das remoções, e poder explanar como Antares se desenvolveu também, foi sensacional”.

Primeiro momento do evento reuniu participantes das rodas. Foto: Ana Cristina da Silva.

Representante de uma favela que vem sofrendo há 40 anos a ameaça de remoção, Emília Sousa, do Museu do Horto, se emocionou: “Vocês não têm noção do quanto nós estamos nos fortalecendo com essa potência que se chama Museologia Social. Dessa potência que é a gente saber, a gente se apropriar das nossas histórias, das nossas memórias, da nossa resistência pelo nosso território como instrumento de luta, de reconhecimento e de posse daquilo que nos pertence por direito, que é estarmos onde nós quisermos estar e morarmos onde nós quisermos morar”. Um consenso entre os participantes foi justamente de que esses encontros promoveram a união entre as favelas, e essa união se torna uma força a mais para resistir contra o racismo ambiental, a negligência do Estado, as remoções, a gentrificação das favelas. Segundo Gisele Moura, coordenadora da Rede Favela Sustentável, a Rede contempla mais de 400 mobilizadores comunitários, de mais de 180 favelas, e 120 projetos no Grande Rio. A ideia das rodas surgiu no eixo Cultura e Memória Local da rede, focando na memória climática a partir das vivências dos moradores. Theresa Williamson, diretora executiva das Comunidades Catalisadoras (ComCat), contou que a escolha pelas rodas, em vez de fazer entrevistas individuais, foi exatamente pela possibilidade de juntar as pessoas.

O Museu das Remoções e a exposição

A história do Museu das Remoções não poderia ficar de fora do momento de fala no evento, visto ser a Vila Autódromo uma favela quase totalmente removida pela prefeitura em prol dos espaços para as Olimpíadas. Sandra Maria de Souza, uma das representantes do Museu, destacou a referência internacional que a Vila Autódromo se tornou na luta pelo direito à moradia. Foram 700 famílias removidas, porém 20 permaneceram em meio aos escombros para reafirmar seus direitos sobre a terra e a habitação. E a vitória dessa luta só aconteceu porque foi uma luta coletiva, à qual muitas pessoas, coletivos e instituições se somaram. O sentimento não poderia ser diferente: “Eu tenho muito orgulho de falar que eu pertenço a esse lugar, que eu estou aqui, é minha identidade como indivíduo na sociedade hoje”.

Sandra Maria de Souza (canto direito) com as companheiras de luta. Foto: Ana Cristina da Silva.

Esse clima, de cuidado com o local, foi o que acolheu os visitantes desde a chegada. A exposição da Rede se iniciava na Travessa da Resistência, onde 5 banners pendurados nos muros mostravam fotos, mapa e depoimentos de cada roda de memória climática nos cinco territórios. Outros banners contavam as histórias das rodas e da Vila.

Banners abriam a exposição na Travessa da Resistência. Foto: Ana Cristina da Silva.

Na pracinha ao lado da capela, foi montado o Poço das Memórias, construído de pneus, madeira e outros materiais, onde estavam depositadas fotografias das favelas ali representadas, devidamente identificadas. Ao redor do poço foram dispostos 24 banners, montando uma linha do tempo de 1946 até 2023. Todos os 24 marcos históricos vieram dos depoimentos das rodas realizadas, e vão desde o povoamento do Morro do Timbau (1946), passando por enchentes e deslizamentos na Rocinha (1976), criação do Parque Ecológico da Maré (2000), até a ameaça de remoção no Vidigal, agora em 2023.

Depoimentos das rodas compuseram 24 marcos históricos. Foto: Ana Cristina da Silva.
O poço das memórias concentrava fotos identificadas. Foto: Ana Cristina da Silva.

Além do poço, outros elementos interativos da exposição foram o mapa colorido e a rede de pesca. A rede foi cedida pelo Museu da Maré, e permitia aos visitantes pregarem nela papéis coloridos com frases sobre o evento. O mapa também veio do Museu da Maré, pois foi construído por Marli Damasceno, responsável pelo arquivo do Museu, o ADOV. Segundo ela, a ideia do mapa foi que cada cor representasse uma Área de Planejamento (AP) da cidade e, também, as favelas onde foram feitas as rodas. O verde representa a zona oeste, o lilás o próprio Museu das Remoções, o azul a zona norte; o laranja a zona sul e o vermelho o centro. O mapa não estava finalizado; ele seria construído ao longo do evento com a adição das memórias. “A ideia do mapa é essa, esse entrelaçar para uma área se corresponder com a outra e as pessoas na exposição colocarem uma palavra, uma frase sobre o que foram as rodas para elas”.

Marli Damasceno mostra o mapa que confeccionou para o evento. Foto: Ana Cristina da Silva.
A justiça ambiental começa nas favelas

Um legado que ficou das rodas de memória é a consciência de que as favelas são vítimas do racismo ambiental, da falta de habitação em locais adequados, de processos de poluição que não atingem áreas nobres da cidade. Segundo Gisele Moura, da RFS, muitas ameaças de remoção são justificadas com questões ambientais e climáticas, como chuvas e deslizamentos, e o ideal seria tratar a raiz dos problemas, compreendendo as dinâmicas ambientais de cada favela para evitar a retirada dos moradores. É preciso também combater a ideia de que a favela é um lugar “sujo” ou de pessoas descuidadas, porque essa visão é, na verdade, um sintoma da ausência do Estado. “A falta de acesso a água, a diversos direitos básicos faz com que a favela e outros ambientes aglomerados sejam visto como sujos, pouco seguros, mas na verdade são territórios potentes porque através dessa ausência de direitos se criam soluções para ir além dessa falta”, comentou. Um exemplo foi exposto pela própria Sandra Maria de Souza, do Museu das Remoções, que contou que havia na Vila, antes da remoção, projetos como de sumidouros e fossas verdes, para que o esgoto não fosse parar nas lagoas, assim como cerca de 500 árvores, e tudo isso foi destruído pela prefeitura. A Vila como é hoje já é fruto de um processo de replantio.

O evento foi finalizado com a peça Penha, do coletivo Por um Triz, composto por Nathalia Macena e Fernanda dos Santos. Retrata a luta de Maria da Penha Macena, a Dona Penha, que ficou conhecida por resistir à demolição de sua casa. A peça aborda a ameaça de remoção; o receio dos vizinhos em resistir; a hipocrisia da Cidade Maravilhosa que tenta remover uma favela próxima de área nobre; o assédio da venda da casa por altos valores. O espetáculo emocionou todos os presentes, inclusive a homenageada, que reafirmou a importância de lutar pela sua casa, pela conquista de cada tijolo colocado, sem deixar que as ameaças façam ceder.

Peça Por Um Triz contou história da remoção da Vila Autódromo. Foto: Ana Cristina da Silva.

Em entrevista ao Jornal, ela ainda falou sobre o significado de agora, sete anos após a remoção, estar recebendo na Vila um evento desse porte com tantas homenagens.

“Imaginar que nessa comunidade praticamente não ficaria ninguém, e hoje estar recebendo esse evento com tantas favelas e tantas comunidades, com tanta gente bacana… eu costumo dizer que o Museu das Remoções é um legado das Olimpíadas, de verdade! Porque nós conseguimos resistir e cobrar nossos direitos, estar nesse território hoje é de muita importância”.

Maria da Penha
Dona Penha falou da importância da luta coletiva para a permanência. Foto: Ana Cristina da Silva.

Para ela, todo o movimento que se fez em torno da permanência da Vila Autódromo fez a sociedade compreender a importância do direito à moradia, de ter sua história reconhecida.

O final do evento foi marcado por abraços, fotos e a esperança de reencontro breve em nova instalação da exposição.

Comentários